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Via Crucis

Com Jesus na pena pego,
Sobre esta obra a venho pôr,
Que Jesus é meu autor,
Dá-me luz, p’ra não ser cego.
(tradicional)



Uma figura atravessa a imperfeição da luz. Talvez, perdendo-se, encontre o rumo que conduz do joio ao indizível. Pode forçar a nuvem, sabendo de antemão – a nuvem permanece. Ou criar outra nuvem e esclarecer a sequência dos veios da madeira. Nela terá de entrar, contudo, um líquido escuro. Talvez assim a espiral governe (mantenha em movimento) o motor que comove a existência.




1.
[Jesus é condenado à morte]


João:

Quem te condenou, se contigo todos fomos condenados?
As mãos lavadas? Na noite, o pesadelo? O teu silêncio?
Os gritos da multidão? Bebeste os tormentos da árvore,
Que o sangue, mesmo transpirado, nunca apagará uma traição.
(Os beijos matam, enforcando a cobardia.) Não vale a pena fugir.
Mais vale guardar a espada e aceitar a dúvida como manto
De agonia. Nas dobras do lençol, todos morreremos.


Imagem Coleção de Ruy Ventura



2.
[Jesus toma a cruz aos ombros]


João:

Todos fomos condenados. E és tu, sozinho, quem carrega
O peso do mundo? Mesmo seca, a madeira é globo pesando
Sobre os ombros. A trave semeia no húmus da incerteza,
Salgando a terra, injetando seiva nos olhos de quem vê.
A insegurança dos passos liberta-nos da lama dos caminhos.
Talvez a madre nos ofereça a leveza do firmamento. Talvez
A árvore venha a florescer sobre as ondas do oceano.


3.
[Jesus cai pela primeira vez]


João:

Cairíamos se transportássemos esse globo de madeira.
Caímos, todos os dias, vergados pelo peso dos ossos
E da carne. Há no cruzamento uma expansão da dor.
A coluna receberá na colina um lintel ensanguentado.
É nosso o vermelho, escorrendo entre os veios
Desse tronco de oliveira. Teus joelhos sobre a terra
São vozes e sombras rasgadas pelo fogo eterno.


Imagem Coleção de Ruy Ventura

 



4.
[Jesus encontra sua Mãe]


Madalena:

Lentes – essas lágrimas que transformam o teu rosto.
Cobrem de dor os teus olhos. Ardem. Trazem fogo
E ateiam esse sangue, dilatando a cegueira. Ardem.
Fazem ver, mesmo a madeira da imagem que nenhuma
Flama pôde consumir. Não há palavras nesse encontro.
Um grito – um só grito –, que a soledade suspende
As cordas na garganta, dissipando todas as nuvens.


5.
[O Cireneu leva a cruz de Jesus]


Simão de Cirene:

Não consigo fugir desse braço que me chama. Trago
No corpo a fadiga da terra. Deixei na sementeira
Toda a força – e nada mais consigo suportar. Não te
Conheço. Mal sei o teu nome. Como posso agora
Fazer meu esse tronco, sem cair? Tenho medo.
Sinto todavia a chama desse braço, no madeiro.
Não arde. Flutua. Perdendo, vence as ondas e caminha.


Imagem Coleção de Ruy Ventura

 



6.
[A Verónica enxuga o rosto de Jesus]


Verónica:

Talvez os espinhos floresçam sobre o manto. Talvez
A terra, a água, o fogo se misturem – e sejam tinta.
Sem vento, não darão contudo uma imagem tua.
Não existo. E no entanto vivo. Guardo a face
Sem figura. Consola. Espicaça. Escarifica, informe,
Todas as memórias que nunca registarei: sombra
E sangue, sangue, suor e poeira – por entre as lágrimas.


7.
[Jesus cai pela segunda vez]


Madalena:

A madeira verde não arde. E, por isso, cai – fogo sendo
Nas margens do oceano. Não há flama nem sopro sem
Árvore. A exaltação parece um naufrágio quando a terra
Recebe o corpo por inteiro – astro perfurando os olhos,
Abrindo crateras no meio da cidade e no seu deserto. Sem
Queda, como poderias subir? Verde-luto esse nascimento –
E a claridade do arco que a todos dá luz e incendeia.


Imagem Coleção de Ruy Ventura

 



8.
[Jesus consola as mulheres de Jerusalém]


Mulher:

Se a terra precisa de sal, como negar aos olhos todas as lágrimas
Que a noite há de gerar? A dor acende lâmpadas no corpo
E na memória, guarda no oceano a intensidade de uma voz
Sem palavras. Chegaremos a ser o sal na terra? Por nós
Choramos e bebemos as lágrimas, vendo nesse rosto
O espelho de um futuro em que não cremos (abraço
E fuga, fuga e fogo, fogo e flama, flama e cerração).


9.
[Jesus cai pela terceira vez]


João:

Se a árvore, mesmo verde, tem de cair, como poderei
Resistir à força do vendaval? Não passo de um sobreiro
Ressequido à espera de ser cinza. hei de arder, serei
Talvez uma espécie de brasa. No fim serei, contudo,
Apenas cinza, sem lugar entre as leiras de cultivo.
Teu corpo, sim, quando cai é para crescer, brotando
Como planta, sombra, água – entre as areias do deserto.


Imagem Coleção de Ruy Ventura

 



10.
[Jesus é despojado das suas vestes]


Jesus:

Chego ao meu lugar. Nu, aguardo a paz e a ciência. Deixo
À terra o que lhe pertence e, nesta pedra, algumas gotas
De sangue que o caminho não pôde dissolver. Nada
Me poderia revestir (nenhum tecido). Tudo vos pertence,
Todas as palavras, todos os fios que entrego à dispersão.
Não tenho costuras. Por isso espero outra tenda,
Outra túnica, tecida (perdida) entre palavras de areia.


11.
[Jesus é crucificado]


Homem:

Seria de oliveira o tronco onde elevaram o vulto da serpente?
Leio – e não sei onde posso curar-me. Recordo, cantando,
A fronte, o cabelo, os olhos, o pescoço e o mais – que não
Sei pronunciar. Canto, bebendo lágrimas que não vejo. Bem
Sabem o que fazem quando, agora, te crucificam, rejeitando
As chagas, escondendo todas as feridas. Lanças de treva,
Nossas mãos perfuram o teu lado como vozes sem fogo.


Imagem Coleção de Ruy Ventura

 



12.
[Jesus morre na cruz]


Jesus:

Nada está consumado. O abandono é tão só um grito, o temor
Da luz quando o lume desfaz a humanidade, cegando as palavras,
Rasgando o diafragma, exalando toda a solidão. Esvazio-me
No esplendor da noite. Desço e subo as escadas. Aceito e rejeito
A montanha. Tenho sede e, coroado, não posso beber-me. Por isso
Entrego a minha morte e fecho os olhos, levando ao paraíso
A secura dos ramos e todas as raízes que quebraram a janela.


13.
[Maria recebe o Filho morto nos braços]


João:

Nem esperança, nem memória. Dor somente. Pranto
E incerteza. (Não tenho casa onde possa resguardar-te.)
Medo. E um rosto sem figura (sal e sangue, fogo e escuridão –
Numa espada atravessando e suspendendo as palavras).
Medo e temor. Corpo ou serpente? Não subo. Permaneço.
O vaso prenuncia o abismo. Sem flama, como poderei
Conjugar o verbo que há de mover e reanimar os tecidos?


14.
[Jesus é sepultado]


Maria:

Se a madeira me pertence, como posso deixar aqui
Um tronco verde? Seco, o cruzamento que a plaina
Afeiçoou, que a tarde ergueu sobre o crânio (mastro
De um navio prestes a naufragar). Não há todavia
Secura que o fogo não reverdeça. Não tenho lágrimas
Na caverna. Um grito apenas. Tão fundo que parece
Silêncio. Nome e verbo que ninguém pode dizer.


Imagem Coleção de Ruy Ventura

 



A palavra não altera a surpresa da metamorfose. O anúncio divide a estranheza do horizonte. O corpo escreve, mas nada regista sobre o corpo que oferece. Homem ou linha ininterrupta? Que cor a da serpente? A forma ilude a cerração. O desejo destrói essa figura onde um corpo sem ossos restaura os objetos e a memória. Ressuscitar é recompor os átomos carbonizados pela introdução do ferro e da madeira entre os músculos e os ossos. O tecido emerge no lugar da ausência. Dissipa o negrume. Acrescenta sombra ao centro da cidade, como se a morte fosse adubo na raiz da oliveira.

Notas:

Os poemas em prosa que enquadram esta sequência tiveram a sua edição inicial em Contramina (Évora, 2012), embora agora se incluam com acrescentos e alterações. O primeiro deles tem referências ao tratado místico medieval The Cloud of Unknowing.

No que respeita às estrofes que compõem as falas de cada uma das estações, há relações intertextuais e artísticas que convém explicitar. A maior parte diz respeito aos relatos bíblicos da Paixão, nomeadamente: Mt 27, 26 (1); Jo 19, 17 – 18 (2); Lc 23, 26 (5); Lc 23, 28 e 31 (8); Jo 19, 23 (10); Jo 3, 14 e Lc, 33 – 34 (11); Jo 19, 30 e Mc 15, 34 e 37 (12). Há, ainda, um par de alusões a textos tradicionais recolhidos na região de Portalegre: «Lá em cima ao Calvário / está uma cruz de oliveira, / por ser o mais lindo cravo / que nasceu entre a roseira», início do romance Martírios do Senhor (3); e «Verde foi meu nascimento / e de luto me vesti. / Para dar a luz ao mundo / Mil tormentos padeci» (9).


Ruy Ventura
Imagem: D.R.
Publicado em 29.03.2018

 

 
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