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«Velhos»: da mentira política à eficácia antropológica

O tema de aqui se trata é imenso e tão esgotável quanto a própria humanidade em ação, como se costuma dizer – mal –, no tempo. Todavia, tal não deve ser impeditivo de que se possa pensar e dizer algo livremente sobre, pelo menos, a condição antropológica e política dos velhos – não vamos brincar com sempre burgueses eufemismos –, nos dias que são os nossos. Avançamos, assim, livremente, alguns tópicos.

Não é possível, do ponto de vista de uma biologia séria definir o que seja, exatamente, um velho; de forma inexata, podemos fazer o que quisermos – entronca aqui a questão da mentira e podemos manipular a representação da realidade a nosso bel-prazer.

Quando é que se passa a ser biologicamente velho? Todas as respostas nunca passarão de apontamentos genéricos sobre aspetos do estado biológico do animal humano. Se se pode fantasiar sócio-politicamente que se passa a ser «adulto» no vago momento em que se cumpre a idade de dezoito anos, assim criando a ilusão de que há mesmo uma transição real de um estado não-adulto para um estado adulto, não há modo equiparável de definir o que seja biologicamente um velho.



A realidade não quer saber do que pensam e escrevem os que têm o poder de mandar nas massas humanas, por mais que estes pensem o contrário. Não é, necessariamente, por se ter, por exemplo, atingido os setenta anos que se é velho



Politicamente, a bom proveito das tiranias e oligarquias que constituem o mando real do mundo, pode haver a tentação de confundir algo como a definição administrativa de ficções como a «entrada na terceira idade», com algarismo atribuído (sessenta e cinco anos, por exemplo; mas pode ser o que o burocrata quiser), com uma real metamorfose de um ser humano não-velho em um ser humano velho.

Este é um dos grandes problemas da modernidade, no que esta tem de mau – pois muito de bom tem também –, que é pensar a realidade em termos mágicos. Neste caso, atribuir-se-ia uma categorização política a uma realidade, a da relação da vida humana e seu movimento com a possível classificação em fases, e tal atribuição corresponderia a algo de real, a tal metamorfose anteriormente invocada.

Ora, a realidade não quer saber do que pensam e escrevem os que têm o poder de mandar nas massas humanas, por mais que estes pensem o contrário. Não é, necessariamente, por se ter, por exemplo, atingido os setenta anos que se é velho, sequer do ponto de vista biológico, muito menos de todos os outros pontos de vista que fazem do animal que somos animal propriamente humano.

Poder-se-á argumentar que aos setenta anos há uma quantidade, mais ou menos quantificável, de funções biológicas humanas que já não operam tão bem quanto operavam quando se era jovem (palavra mágica, nos dias que correm). Pode, mas não é também verdade que muitos anos antes já muitas dessas funções entraram em degradação, algumas delas, em algumas pessoas, em fases etárias muito, precisamente, «jovens»?



Um ser humano é um trapo, isto é, um velho é um trapo sempre que quem assim o puder classificar o classifique. É apenas uma questão de poder. Não estamos a falar de distantes tiranos, estamos a falar de nós próprios



Muito haveria a desenvolver quanto a esta argumentação, mas para o que se aponta é para saber se a definição do que é um velho não é algo sempre de fundamentalmente político.

Quando a humanidade andava a viver com médias de longevidade de poucos decénios, não se era considerado velho aos trinta anos?

Por outro lado, o Sófocles que escreveu Édipo em Colono com noventa anos era velho? Velho, precisamente em quê?

De corpo, dir-se-á. Mas que dizer de um jovem que desespera aos quinze anos e se mata? Velho de corpo não parece? Ou será que se mata precisamente porque o seu desespero é outra forma de nomear a sua real velhice?

De facto, não sabemos o que é propriamente um velho. Andamos a jogar com generalidades – eu aqui também – sobre isso de ser velho.

Talvez o que interesse em termos antropológicos não seja tudo o que está associado a uma falsa objetividade métrica do movimento e do humano tempo associado, mas a substância, a grandeza, a qualidade, o sentido, não da idade, não do tempo, mas da real vida que a pessoa foi, mas, sobretudo, da real vida que a pessoa é.



Em muitos casos, nem sequer é o algoritmo biológico que é o grande causador da chamada velhice: é toda a ação, positiva ou negativa, criada ou sofrida, ao longo daquilo que nos habituámos a designar como vida humana



Há uma definição muito interessante do que é um velho, aliás, dada no plural: «velhos são os trapos».

Na sua genuína brutalidade, sofrida, de quem recusa ser antropologicamente comparado e, assim, reduzido, a um trapo, esta definição do que velhice não é dá-nos precisamente o sentido do que a velhice é e não é.

Antropologicamente, em seu sentido substantivo, isto é, não como o que qualquer antropólogo pense ou seja pago para pensar, mas como a realidade própria que constitui o ser humano em sua especificidade própria, um velho nada mais é do que um ser humano. Mais nada.

Substantivamente, mais nada. O mais é apenas formulação política, que pode ser o que quem tiver o poder de decidir projetar sobre o ser humano quiser. Repare-se que, na sequência do «Programa Eutanásia» nazi, se Hitler tivesse decidido que qualquer cidadão comum do Reich fosse considerado velho aos setenta anos, assim sendo indigno de continuar a viver, poderia tal cidadão seguir o mesmo caminho de tantos milhares de eutanasiados ou de eliminados menos subtilmente, aos milhões, nos campos de extermínio vários.



Como ajuda a criar envelhecimento o mal que politicamente fazemos uns aos outros e a nós próprios? A violência, a violência que não respeita a diferença própria, a violência da indiferença



Por outro lado, um ser humano é um trapo, isto é, um velho é um trapo sempre que quem assim o puder classificar o classifique. É apenas uma questão de poder. Não estamos a falar de distantes tiranos, estamos a falar de nós próprios, que damos como certo e bom que se possa classificar, sem qualquer base racional, alguém como velho: que velho foi o já aludido Sófocles; Sócrates de Atenas morreu velho? E que velho foi Manoel de Oliveira, homem e cineasta?

Estamos a ouvir mentalmente alguém a dizer: «o senhor não pode negar a evidência da realidade da evolução pessoal humana e da entropia que nela acontece».

Poder, posso, mas não quero. Não quero, porque é precisamente o que está racionalmente em causa aqui: há, de facto, uma questão de degradação, diferente em todos os seres humanos, da sua capacidade biológica e, associada a tal, das suas capacidades propriamente humanas. Não tenho, sequer, qualquer dúvida de que há, para tal enquadrar onto-matematicamente, um dinâmico algoritmo próprio. Mas isto, esta realidade objetiva e infinitamente variável, não é o mesmo que politicamente classificar as pessoas como «velhas» sem qualquer critério objetivo.

No entanto, em muitos casos, nem sequer é o algoritmo biológico que é o grande causador da chamada velhice: é toda a ação, positiva ou negativa, criada ou sofrida, ao longo daquilo que nos habituámos a designar como vida humana.



Para que serve isso a que chamamos «velho», agora que, para mim, já não tem qualquer interesse? Que me interessa a mãe, o pai, a tia ou o vizinho do lado, se para mim já não têm qualquer serventia?



Sabemos muito bem que há muitas pessoas que estão «velhas» ainda com muito pouca idade cronológica (já que temos de lhe chamar algo). Quantas vezes, esta forma de envelhecimento se somatizará, isto é, terá consequências biológicas, provocando mesmo algo designável como envelhecimento biológico?

Como ajuda a criar envelhecimento o mal que politicamente fazemos uns aos outros e a nós próprios? A violência, a violência que não respeita a diferença própria, a violência da indiferença; o ódio, a inveja, entre tantas das características tão amadas da ação humana, pois, tão quotidianamente praticadas?

Pensar que os velhos são especialmente mal-tratados é não perceber que o modo como os mal-tratamos é apenas um sub-modo como nos mal-tratamos uns aos outros, geralmente durante toda a existência, salvo não assim tão raras e mesmo muito honrosas exceções.

Um velho angustiado não é um velho angustiado: é uma pessoa, como as outras, angustiada. Não só a angústia não é prerrogativa-privilégio dos velhos, como estando presente num velho, pode estar presente num velho que esteja bem em tudo, menos na relação com a morte, com a vida: mas tal estado pode estar nele desde a meninice, não é por ser velho que assim está, é por ser humano, o único animal angustiável.



O tirano, o oligarca sou eu, quando não atribuo ao outro ser humano, velho ou não-velho, a dignidade – não é o valor, que é sempre um juízo impositivo de poder do ajuizador sobre o ajuizado – que é própria sua e que assim possui apenas por ser um ser humano



A questão dos velhos em qualquer cidade, não é preciso que seja grande – em Portugal, nem sequer há cidades que mereçam o nome de grandes, mesmo a chamada «área metropolitana de Lisboa» é ridiculamente pequena em comparação com o que são grandes cidades ou metrópoles –, a grande questão dos velhos é outra, é o seu desprezo e o seu abandono por parte de uma cossociedade que deles não quer saber. Este é o ponto.

Mas este ponto em nada nos surpreende, pois, desde que se optou politicamente – com bases éticas e antropológicas – por montar uma sociedade anticomunitária (por mais que se diga o contrário), em que o que move as pessoas não é o bem-comum, mas o único bem próprio, consubstanciado na forma menor de perspetivar o bem e de o viver que é o sempre mesquinho interesse individual.

Tal humanidade enveredou pelo caminho de retroceder para uma fase cultural e civilizacional em que a matriz antropológica e política do ser humano tem como paradigma de ação a depredação. Não é possível viver-se com base em serviço ao único interesse pessoal sem que imediatamente quem assim vive se transforme num predador, predador do bem alheio.

Ora, para o predador, nada mais interessa do que o seu interesse próprio, tudo o mais relativizando a tal interesse.



Será que a situação de isso a que chamamos os velhos não é mesmo sinal e sintoma do real estado de uma humanidade que, ao revelar-se incapaz do bem, seja para com quem for, manifesta, assim, a sua já radical perda de humanidade?



Para que serve isso a que chamamos «velho», agora que, para mim, já não tem qualquer interesse? Que me interessa a mãe, o pai, a tia ou o vizinho do lado, se para mim já não têm qualquer serventia?

Que interessam aos tiranos e aos oligarcas os velhos, de quem já não é possível retirar qualquer benefício próprio? Tais velhos mais não são do que um incómodo sorvedouro de recursos, recursos muito mais bem empregues nos e com os tiranos e oligarcas.

Quando invocamos tiranos e oligarcas não nos referimos aos casos de manual de ciência política, mas a todos os seres humanos, em qualquer nível e estatuto, que se servem de outros seres humanos para seu benefício único.

O tirano, o oligarca sou eu, quando não atribuo ao outro ser humano, velho ou não-velho, a dignidade – não é o valor, que é sempre um juízo impositivo de poder do ajuizador sobre o ajuizado – que é própria sua e que assim possui apenas por ser um ser humano.

Tratamos os velhos como trapos porque não lhes reconhecemos verdadeiramente humanidade, uma humanidade semelhante à nossa.



A situação dos velhos, como a de todos os marginalizados que não querem estar à margem – há quem queira e tem esse direito, desde que o faça sem violência –, marca um mundo em que está em curso um processo de rápida desumanização



Para tal desprezo, encontramos muitas desculpas, desde a falta de recursos económicos, à falta de tempo; mas, para que tal fosse válido teria de, sempre que não houvesse tais recursos, terem os velhos sido desprezados. Tal não é verdade, pelo que não são estes os fatores decisivos, mas a vontade humana: somos nós que queremos a degradação dos velhos em trapos. O mais são desculpas.

Apenas uma humanidade em que todos os seres humanos estivessem objetivamente impossibilitados de capacidade de realização do bem seria aceitável como falível quanto ao bem dos seus velhos ou de outra artificial classe qualquer. Não é este o caso.

Ou será?

Será que a situação de isso a que chamamos os velhos não é mesmo sinal e sintoma do real estado de uma humanidade que, ao revelar-se incapaz do bem, seja para com quem for, manifesta, assim, a sua já radical perda de humanidade?

A situação dos velhos, como a de todos os marginalizados que não querem estar à margem – há quem queira e tem esse direito, desde que o faça sem violência –, marca um mundo em que está em curso um processo de rápida desumanização, mesmo em sentido antropológico. Não é por capricho poético que obras como Inteligência artificial, de Spielberg, laicamente profetizam a substituição da humanidade por máquinas, ironicamente muito melhores do ponto de vista ético e político.

Que pode a Igreja, e na Igreja, por exemplo, as paróquias fazer, não apenas no que diz respeito aos velhos, como a todas as pessoas que são suas «vizinhas» (é isto que «paroikia» quer dizer, vizinhança; e a vizinhança é católica (literalmente, «universal») porque é sempre humana e só há uma humanidade)?



Supletiva ou principalmente, as paróquias, a paróquia, isto é, o ato de proximidade de uns seres humanos relativamente aos outros segundo o bem-comum pode e deve encarregar-se do cuidado dos que são mais frágeis, por vezes, indefesos na plenitude do termo



Podem alargar e melhorar o imenso bem que já realizam. No entanto, entrevejo um obstáculo difícil de ultrapassar: quanto mais eficaz for a ação das paróquias e, assim, realmente, da Igreja, no apoio a todas as pessoas que necessitam de ser apoiadas, no caso vertente, os velhos, maior será a demonstração da inépcia de uma qualquer administração pública, e da oligarquia que a governa e municia, quanto ao dever que assumiu de defender o bem daqueles que garantiram e garantem o seu sucesso.

De nada serve dizer que não deveria haver necessidades, que todos deveriam poder ter tudo, o que, podendo ser evidente, não resolve coisa alguma, do ponto de vista da realidade das carências de quem é carente, independentemente da razão pela qual é carente.

Supletiva ou principalmente, as paróquias, a paróquia, isto é, o ato de proximidade de uns seres humanos relativamente aos outros segundo o bem-comum pode e deve encarregar-se do cuidado dos que são mais frágeis, por vezes, indefesos na plenitude do termo.

Este serviço pode ser, também, um belo pretexto para reconduzir ao sentido humano pessoas que se sentem velhas precisamente porque as convenceram ou se convenceram de que já não são «úteis»: podem, em grande parte, ser estas as pessoas que exercem o sentido paroquial de proximidade ativa pelo bem-comum.

O mais, já as paróquias, sobretudo as mais bem organizadas, possuem – podendo umas aprender com as outras – e consta da organização e aplicação dos meios que liturgicamente servem – passe o pleonasmo – este bem.



 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Quickshooting/Bigstock.com
Publicado em 28.03.2018

 

 
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