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É «urgente» conhecer legado do cristianismo porque «sede aguda do novo» conduz «ao menosprezo das heranças culturais»

Imagem Sé de Évora | Foto: B. Borges | D.R.

É «urgente» conhecer legado do cristianismo porque «sede aguda do novo» conduz «ao menosprezo das heranças culturais»

Maria de Lurdes Correia Fernandes, membro do Comité Científico de Ciências Históricas, afirmou este sábado que é «especialmente urgente» tornar «mais visível e compreensível» o «vasto e rico legado da cultura europeia e, dentro desta, da cristã», porque, desde sempre, «as pessoas desprezam tudo quanto ignoram».

Em especial, é necessário valorizar o que «essa herança revela de atenção ao humano e às suas melhores qualidades, de capacidade de evoluir em contexto social e de conviver com – e influenciar o – desenvolvimento científico, cultural e tecnológico», vincou a professora universitária durante o 2.º Encontro Nacional de Leigos, que decorreu no Porto.

A cultura cristã, sustentou a investigadora, contribui para assegurar «a compreensão mútua e respeito pelo outro, a convivência pacífica de diferentes culturas e religiões (mesmo quando há confronto ideológico), a comunicação construtiva em termos humanos e sociais», bem como ideais que inspirem o que o papa Francisco designou como «utopias do futuro».

«Manter vivo – isto é, conhecido e consciencializado – esse legado cultural é compreender que os tempos evoluem e que se pode aprender com os erros – porque estes são também humanos –, é identificar os ganhos civilizacionais e não os deixar regredir, é também compreender as marcas e os limites da nossa identidade coletiva», assinalou.

A proteção da memória e a capacidade de a tornar semente de futuro não pode, todavia, torná-la «paralisadora»: «Pelo contrário, tem de ser inspiradora e promotora de criação e recriação permanentes, de vida renovada, de novos gostos e modos de ser e estar».

Ao manter a memória viva, a busca do que é novo não «sacrifica» a cultura» à «tentação do imediatismo, do passageiro, do oportunismo ou do mais mesquinho que tem a natureza humana».

É o «progresso cultural» que «permite uma formação integrada, complexa e exigente de cada pessoa», ao mesmo tempo que, sem ignorar «as raízes culturais», «integra o conhecimento científico e tecnológico nos valores da vida que a Humanidade foi construindo ao longo dos séculos, numa perspetiva de bem comum e não apenas do interesse individual ou de grupo».

A importância da memória como alicerce do futuro tem sido ameaçada por «uma sede aguda do novo», que «vai conduzindo à diluição dos valores que definem o Humano e, consequentemente, ao menosprezo das heranças culturais», assinalou Maria de Lurdes Fernandes.

«Essa diluição é feita em nome de imperativos de vária ordem, desde os financeiros até aos tecnológicos ou mediáticos, a que estão também associados interesses motivados pela grande valorização individual do presente sem passado, do “exótico” enquanto efeito da imagem de novidade de outras culturas que, também elas, são simplificadas pela utilização imediatista do que nela se encontra de diferente ou aparentemente novo, sem compreender que também elas têm as suas próprias raízes, as suas heranças e consequentes complexidades», vincou.

É no interior da memória «que melhor se podem perscrutar as vias para o desenvolvimento do presente e do futuro, considerando dimensões que são simultaneamente científicas, éticas, espirituais, políticas e comportamentais».

Para Maria de Lurdes Fernandes, na «diferença» é possível «partilhar ideais que acentuem o que de melhor tem o humano, onde quer que esteja: a consciência, a inteligência, a memória, a emoção, a cultura, a linguagem (seja qual for a língua em que esta se manifesta».

«São estas capacidades especificamente humanas que, no seu conjunto, nos permitem estabelecer pontes entre margens, quantas vezes distantes e aparentemente inalcançáveis. São elas que nos dão o poder de discernir e construir o nosso futuro, com livre arbítrio e com sentido de responsabilidade individual e coletiva, assente em valores éticos, morais e sociais que se foram maturando e adaptando ao longo dos tempos, com diferentes experiências», acentuou.

Só conhecendo o passado, nomeadamente como se foi construindo a «identidade coletiva» e qual o «património cultural» que chegou até ao presente, é possível «compreender e conviver pacificamente com outras identidades, nomeadamente religiosas, com outras culturas que têm diferentes raízes e distinta evolução».

«Esse conviver necessita de humildade, de diálogo e de tempo, imprescindíveis para evitar o confronto ofensivo e para partilhar ideais comuns de “progresso cultural”, tomado no sentido de um evoluir humano em que o individual (incluindo o espiritual) e o social se unam para o bem comum».

Para a ex-vice-reitora da Universidade do Porto, «a História mostra bem» que «é pelo diálogo alicerçado na compreensão mútua das diferenças e das suas origens, por um lado, e na identificação dos objetivos comuns ou de pontos de convergência, por outro, que se evitam os conflitos e se encontram vias de entendimento com que todos aprendem e a Humanidade ganha».

No diálogo com outras perspetivas, é essencial lembrar que «a compreensão da especificidade do humano varia de acordo com as culturas em que se situa, com os estádios do desenvolvimento interno destas, com as experiências que cada uma vai vivendo», assim como com os «referentes espirituais, históricos, sociais e culturais que lhe conferem diferentes identidades».

Por outro lado, sublinhou, quando se fala de cultura não se pode «pensar apenas nas suas expressões públicas, resultantes da criatividade individual em várias áreas (da música à poesia, do teatro ao cinema, da pintura à dança, passando por múltiplas outras formas de expressão artística ou literária)».

É «imprescindível» compreender a cultura «nas suas marcas mais profundas, sedimentadas pelo tempo e pelos hábitos que ele reproduz, inclusive quando não reflete sobre eles».

«O lugar específico da cultura é o lugar da nossa relatividade, das limitações do que somos como pessoas e em sociedade, dos caminhos complexos do nosso desenvolvimento humano e espiritual, da educação com que definimos características, modos de ser e estar, ideais e visões para o nosso futuro», realçou Maria de Lurdes Fernandes.

A investigadora doutorada em Cultura Portuguesa dos séculos XV a XVIII mostrou-se convicta de que o «progresso» cultural «tem na Educação o seu esteio fundacional», dado que «é por ela que se trabalham as principais qualidades humanas».

O «ideal», ainda que seja «muito distinto do real», funciona como «guia» deste e como «referente» que orienta a «vida pessoal, social e profissional», referiu a docente, alertando para o facto de a sua perda implicar ficar «à mercê de imperativos imediatos e do instinto de sobrevivência que em pouco se diferencia do mundo animal».

A valorização da memória enquanto compreensão do presente e projeção do futuro é tarefa de «todos, e não só os que têm responsabilidades institucionais».

Como o podemos fazer? «Redescobrindo ou conhecendo melhor o legado cultural que estamos em risco de perder, renovando valores humanos que estão na base da nossa identidade, enfim, reforçando as raízes do tronco cristão que, por via do diálogo intercultural e inter-religioso, alimentará e adaptará os seus valores aos tempos que emergem desta nova etapa histórica, porque o futuro do cristianismo, seja qual for o continente em que se vive, não é dissociável do futuro da Europa».

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 25.01.2015

 

 
Imagem Sé de Évora | Foto: B. Borges | D.R.
É o «progresso cultural» que «permite uma formação integrada, complexa e exigente de cada pessoa», ao mesmo tempo que, sem ignorar «as raízes culturais», «integra o conhecimento científico e tecnológico nos valores da vida que a Humanidade foi construindo ao longo dos séculos
Só conhecendo o passado, nomeadamente como se foi construindo a «identidade coletiva» e qual o «património cultural» que chegou até ao presente, é possível «compreender e conviver pacificamente com outras identidades, nomeadamente religiosas, com outras culturas que têm diferentes raízes e distinta evolução»
A investigadora doutorada em Cultura Portuguesa dos séculos XV a XVIII mostrou-se convicta de que o «progresso» cultural «tem na Educação o seu esteio fundacional», dado que «é por ela que se trabalham as principais qualidades humanas»
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