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Diálogo

É urgente «acolher pacientemente outras formas de dizer e propor Deus»

«O que é mais importante (criar, manter, repensar) na relação da Igreja com a Cultura?»

A construção da pessoa é indissociável do desenvolvimento de uma pluralidade de expressões simbólicas que denominamos objetos culturais. Diferem entre si, mas todas espelham a necessidade de superar a materialidade, de sublimar afetos, de encontrar novos sentidos, e de por em evidência a beleza das coisas porque, em bom rigor, como dizia K. Gilbran, «vivemos apenas para descobrir beleza. Todo o resto é uma forma de espera».

Numa das mais belas estações do Metro de Madrid, «Campo de las Naciones», um enorme mural em azulejos, realizado por L. Sardá, C. Alonso, J. Ralph (1998) intitulado «Rostros de las naciones, una sola bandera» interpela o passageiro com um pensamento de Octávio Paz: «A nossa natureza é inseparável da cultura e a cultura são as culturas». As palavras do nobel da literatura mexicano são ilustradas por dezenas de diferentes rostos, símbolos e cores, todos unidos numa só bandeira que unifica todas as bandeiras do mundo ao longo da estação. Uma grande bandeira que abarca a diversidade cultural, uma metáfora que diz também o que a Igreja é, um campo de muitas nações, o lugar por excelência onde crescem e interagem culturas diferentes, motivadas pela mensagem da revelação que «faz novas todas as coisas» (Ap 21,5). A Igreja foi e é chamada a ser o lugar da pluralidade cultural, não apenas na realização de uma ou outra iniciativa, mas na consolidação de um espaço vital, um laboratório de continuo rejuvenescimento artístico. Esta vocação cultural faz parte do seu ADN porque, na origem, está um Deus que se manifesta através de palavras, de imagens, de sons e de tantos gestos que pertencem ao património cultural de um povo. Se, por um lado, a manifestação divina é reveladora de uma cultura, também é certo que ela é origem de novas perspetivas culturais que marcam de forma indelével a história.

Não há outro caminho. Para ser fiel à sua missão, a Igreja é chamada a assumir e a transformar, em cada tempo e lugar, o contexto cultural em que se insere. Assim, em resposta ao desafio feito e porque todas as palavras (criar, manter, repensar) são importantes, associadas a elas, proponho as seguintes pistas de reflexão: 

1. Potenciar (criar). Se durante séculos a Igreja foi «mãe de muita cultura» foi precisamente porque ela tinha excecionais condições para acolher e fazer crescer novas formas de expressão do mistério indizível. Podemos, é certo, perguntar se as suas motivações foram sempre as mais nobres e santas, mas o resultado final diz-nos que o considerável património acumulado ao longo dos séculos é algo que nos aproxima de Deus. A beleza das catedrais, por exemplo, concorre com a beleza da obra de Deus manifesta na natureza. A Igreja não receou investir consideravelmente nesta matéria para falar de Deus aos homens.

Na atualidade, num contexto de “crise económica”, esta dimensão corre o risco de ser a mais prejudicada. Qualquer iniciativa, neste âmbito, é sujeita a muitas considerações sobre a sua pertinência e utilidade. A arte aparece como algo supérfluo e dispensável que desvia as atenções de outros temas mais urgentes como sejam os de teor sociocaritativo. No entanto, vale a pena recordar, por exemplo, o maestro José António de Abreu, fundador da Orquestra Sinfónica Juvenil de Caracas, um projeto único no mundo que beneficiou a vida de milhares de jovens de origens humildes. Dizia o maestro que «a cultura para os pobres não pode ser uma pobre cultura». Neste sentido, a Igreja deve potenciar o desenvolvimento artístico porque desta forma também promove o desenvolvimento da pessoa em todas as vertentes. A Igreja, desde as pequenas estruturas locais até às internacionais, deverá semear generosamente nesta área, sem problemas de consciência, porque desta forma, mata a fome de beleza que existe em cada ser humano. Potenciar, fomentar, proporcionar espaço de criação na Igreja é garantir que cultura chega a todos, sem exceção e, assim, indiretamente, a Igreja cumpre também a sua missão pois, como salientava o atual Papa, ainda cardeal J. Ratzinger, «ouvindo Bach e Mozart, na igreja, ambos nos fazem sentir, de modo magnífico, a glória de Deus: nas suas músicas encontra-se o infinito mistério da beleza, deixando-nos experimentar, mais do que em muitas homilias, a presença de Deus, de forma mais viva e genuína» (2001).

2. Acolher (repensar): Como outras instituições, a Igreja reflete o modo de ser de cada tempo, as suas virtudes e imperfeições. Vivemos numa época que sobrevaloriza os números e a eficácia das ações. Animada por este espírito, a Igreja multiplica-se em programas e iniciativas, produz uma considerável quantidade de material muitas vezes com a mesma formatação, seja em termos de conteúdo seja no tom e/ou no modo de abordagem. Subjacente a esta repetição está algum receio de quebrar a fronteira de segurança que nos lança na arena do mundo, no confronto aberto com outro saberes e outras perspetivas. Em consequência, corre-se o risco de viver para dentro, entretidos em percorrer caminhos já bem batidos, de apenas discursar para os “já convertidos”. Tudo isto é empobrecedor e distorce a missão última que a Igreja é chamada a assumir. Uma certa inércia leva-nos a esquecer que a arte é manifestação de um mistério, de uma experiência singular que o artista procura traduzir numa linguagem bela e original cujo alcance pretende que seja universal. E não são raros os casos, na história, das obras propostas que não só despertaram estranheza mas também o repúdio por parte dos recetores. Para tudo é preciso um tempo.

Numa época de tantas pressas, numa cultura de consumo imediato, urge acolher pacientemente outras formas de dizer e propor Deus sem julgamentos a priori. Se é verdade que a inspiração exige “transpiração”, isto é, capacidade de contenção, de maturação, de repensar antes de verbalizar, também é certo que se torna necessário educar os sentidos, sensibilizar para a diferença não apenas os pastores, mas todos em geral, para que acolham com afeto e respeito (mesmo quando discordante) a obra proposta. J. Duque, num artigo sobre a Fé e a Arte (Rev. Brotéria, 2001, pp. 445-464) sublinha o dom como a categoria mais originária na aproximação da religião à arte. Um dom deve despertar em nós a capacidade de acolhimento, porque acolher esta «inquietação virtuosa» (Ângela Xavier) é fazer da Igreja espaço de Cultura.

Divulgar (manter). Se a arte é um dom que através de alguém é oferecido a todos, esse benefício não pode ser enclausurado num espaço ou apenas um usufruto de poucos. A evangelização, hoje como em outros tempos, exige o recurso a imagens, sons e outras formas de arte que motivem o homem a sair de si para encontrar outros sentidos para a vida, muito para além da materialidade das coisas, algo que nos estimule a experimentar a beleza do mistério de Deus.

Num artigo recente sobre esta matéria, J-P. Hernández faz eco do interessante projeto em vigor em algumas cidades europeias desenvolvido por associações como «A Casa» (França) ou «Ars et Fides» (Itália). A missão consiste em proporcionar aos turistas uma leitura do espaço sagrado que não esteja baseada em critérios comerciais ou sensacionalistas, mas que tem em conta os dados da teologia e da espiritualidade. A abordagem dos monumentos religiosos assegurada pelos “novos guias” – pessoas na sua maioria cristãos voluntários – suscita um conflito de interpretações com os guias comerciais. Contudo, Hernández sublinha que não podemos deixar que apenas outros comentem a imagem do “cantor perfeito” sem no entanto o nomear (cf. Rev. Sal Terrae, n. 100 (2012) 117-130).

Se o «belo leva ao divino» (Platão) e se a beleza é a “terra prometida” de crentes e não crentes, manter e divulgar o património religioso é também um modo sublime de evangelizar.

 

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FotoEstação Campo de las Naciones, Madrid. Fotos: Hanna Grabowska

 

Nélio Pita, CM
© SNPC | 22.05.12

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John Heseltine / Corbis

































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