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Universidade Católica organiza colóquio internacional de homenagem a Raul Brandão

Universidade Católica organiza colóquio internacional de homenagem a Raul Brandão

Imagem Cartaz (det.) | D.R.

A Universidade Católica, no Porto, abre hoje o colóquio internacional em homenagem ao escritor Raul Brandão, por ocasião dos 150 anos do seu nascimento e no centenário da obra "Húmus".

Organizada pela Cátedra Poesia e Transcendência, a iniciativa, que termina na quinta-feira, é inaugurada às 10h00 com a conferência "'Húmus', livro de um século", por Maria João Reynaud.

Meia hora depois segue-se um painel composto por José Carlos Seabra Pereira, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura ("Raul Brandão: entre 'A farsa' e 'Os pobres"), Paula Mourão ("1867, nascimentos felizes: Brandão, Nobre, Pessanha") e Piero Ceccucci ("Autobiografismo e confessionalismo como elementos catalisadores de representação de uma época. As Memórias de Raul Brandão").

O programa prossegue com o segundo painel, às 11h45, que conta com as intervenções de José Tolentino Mendonça, primeiro diretor do SNPC ("'O Diário de K. Maurício' como itinerário espiritual"), Nuno Ornelas Martins ("As Ilhas Desconhecidas de Raul Brandão: para além das notas e paisagens") e Albano Martins ("O mar na obra de Raul Brandão").



«Se há um tema forte neste encontro, ele é talvez o da modernidade de Raul Brandão, e o modo como esta pode ser caracterizada e situada no contexto da literatura portuguesa da época. Uma discussão que mostra até que ponto Brandão é ainda um caso em aberto»



"O Palhaço, o Padre e o Pobre: três epifanias de Deus na Obra de Raul Brandão", por Mário Garcia e "'Padres janotas… mamando charutos… entre livros secos' (Raul Brandão): meditação sobre uma forma canónica de ateísmo prático", com José Pedro Angélico e "O binómio Vida/Morte e a interrogação acerca de Deus, em 'Húmus', de Raul Brandão", por Manuel António Ribeiro, constituem alguns dos temas do segundo dia de trabalhos.

Distribuído por 10 painéis com perto de 30 especialistas, duas conferências e uma curta-metragem ("Húmus", de Luís Costa, que encerra o programa), o colóquio, com entrada livre, realiza-se no auditório Carvalho Guerra da Universidade Católica (polo da Foz).

«Se há um tema forte neste encontro, ele é talvez o da modernidade de Raul Brandão, e o modo como esta pode ser caracterizada e situada no contexto da literatura portuguesa da época. Uma discussão que mostra até que ponto Brandão é ainda um caso em aberto», escreve hoje Luís Miguel Queirós no Público.

No próximo dia 24 serão lançadas as "Memórias" de Raúl Brandão, pela Quetzal, consideradas «um dos grandes exemplos» da literatura memorialística portuguesa, e a 7 de abril a editora Ponto de Fuga reedita "O pobre de pedir", publicada após a morte do autor, em 1931, «e que não era reeditada à décadas".



Em 1890 estreou-se como escritor com a coletânea de contos naturalistas "Impressões e paisagens". Logo em seguida, participou ativamente em vários movimentos de renovação literária. Com Júlio Brandão e D. João de Castro dirigiu a "Revista de Hoje" (1895) e encetou uma notável carreira jornalística no "Correio da Manhã"



Em maio será a vez de "A vida e o sonho – Inéditos, antologia e guia de leitura", «vasta escolha da obra brandoniana, tanto literária como jornalística, da responsabilidade de Vasco Rosa», com chancela da E-Primatur, adianta o Público.

 

Raul Brandão
In Universidade do Porto

Raul Germano Brandão nasceu a 12 de março de 1867 na Foz do Douro, localidade que marcou de forma indelével a sua vida e obra, pelo mar e pelos seus homens. Era filho de pequenos proprietários.

A infância e a adolescência foram passadas no Porto, onde completou os primeiros estudos. Aí colaborou, em 1885, na publicação da revista escolar "O andaluz", criada «a favor das vítimas dos terramotos da Andaluzia», e na qual participaram também João de Lemos, José Leite de Vasconcelos e Trindade Coelho.

Seguidamente, frequentou a Academia Politécnica do Porto, entrando então em contacto com outros jovens aspirantes a escritores, entre os quais se contavam os amigos da adolescência, António Nobre e Justino de Montalvão.



A partir daí, o tema principal da sua obra literária passou a ser o problema de consciência perante os homens oprimidos e a análise de sentimentos contraditórios (a simpatia pelos explorados e o egoísmo de um pequeno burguês), presente pela primeira vez em "Os pobres", no início do século XX (1902-1903)



Em 1888 ingressou na Escola do Exército, em Lisboa, talvez para agradar aos pais ou, mais prosaicamente, em razão da "lei de recrutamento irreversível".

Em 1889 esteve na formação do grupo "Os insubmissos" e da revista com o mesmo nome, que coordenou.

Em 1890 estreou-se como escritor com a coletânea de contos naturalistas "Impressões e paisagens". Logo em seguida, participou ativamente em vários movimentos de renovação literária. Com Júlio Brandão e D. João de Castro dirigiu a "Revista de Hoje" (1895) e encetou uma notável carreira jornalística no "Correio da Manhã".

Em 1896, depois de concluído o estágio de 10 meses na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, foi colocado em Guimarães, como alferes no Regimento de Infantaria nº 20. Na cidade berço conheceu Maria Angelina, com quem veio a casar.

Mais tarde, foi transferido para Lisboa. Nesta fase, o jovem escritor dedicou-se a reflexões metafísicas, colaborou na composição do folheto "Nefelibatas" (1893) e aproveitou os escritos no jornal "Correio da Manhã" para publicar, em 1896, o livro "História de um palhaço – Vida e diário de K. Maurício", reorganizado em 1926 com o título "A Morte do palhaço e o mistério da arvore".



Em 1917 deu à estampa a sua aclamada obra-prima, "Húmus", dedicada ao amigo Columbano, que conheceu no final de Oitocentos e que lhe pintou dois retratos. A partir desses anos começou a passar os invernos em Lisboa, cidade onde conviveu com os intelectuais do grupo da revista "Seara Nova" (1921), contando-se entre o grupo de fundadores deste movimento, juntamente com Jaime Cortesão, Raul Proença e Aquilino Ribeiro, entre outros.



Em março de 1897 casou com Maria Angelina, com quem viveu um ano em Guimarães. Seguidamente, transferiu-se para o Porto, voltando ao lugar onde nascera, a Foz do Douro.

A escrita continuou a ocupar lugar importante na sua vida. Em parceria com Júlio Brandão escreveu a peça "Noite de Natal", representada no Teatro D. Maria, em 1899.

No ano de 1901 pediu nova transferência, desta vez para Lisboa. Na capital contactou com intelectuais e anarquistas e empenhou-se na área do jornalismo.

Nesta fase, a sua existência dividia-se entre a escrita realizada na capital e a que produzia no recolhimento da sua Casa do Alto, em Nespereira, nas proximidades de Guimarães, a qual adquirira em 1903. Nesta habitação, não se dedicava apenas à escrita, mas também à administração da sua propriedade. Este contacto direto com o mundo rural despertou no escritor e no homem sentimentos de comiseração e de pesar relativamente às agruras que marcavam a condição das comunidades agrícolas.

A partir daí, o tema principal da sua obra literária passou a ser o problema de consciência perante os homens oprimidos e a análise de sentimentos contraditórios (a simpatia pelos explorados e o egoísmo de um pequeno burguês), presente pela primeira vez em "Os pobres", no início do século XX (1902-1903).



Raul Brandão pretendeu tornar públicos quatro livros de trabalho de teatro; no entanto, o projeto ficaria apenas pela publicação de um volume. Planeou, igualmente, escrever "A história humilde do povo português", da qual os "Os pescadores" constituiria o primeiro volume, e ao qual se seguiriam "Os lavradores", "Os pastores", "Os operários"



Em 1906 viajou pela Europa, na companhia da esposa. Por volta de 1910 sofreu uma crise de depressão nervosa. Em 1911 pôs fim à carreira militar, reformando-se do exército no posto de major, em 1912.

Com mais tempo para a escrita, começou a interessar-se pela História de Portugal. Compôs a obra "El-rei Junot", em 1912, e redigiu "A conspiração de Gomes Freire", em 1914. Publicou "O cerco do Porto" na revista "Renascença", em 1915, uma obra atribuída ao coronel Hugo Owen e Brandão, que este anotou e prefaciou.

Em 1917 deu à estampa a sua aclamada obra-prima, "Húmus", dedicada ao amigo Columbano, que conheceu no final de Oitocentos e que lhe pintou dois retratos.

A partir desses anos começou a passar os invernos em Lisboa, cidade onde conviveu com os intelectuais do grupo da revista "Seara Nova" (1921), contando-se entre o grupo de fundadores deste movimento, juntamente com Jaime Cortesão, Raul Proença e Aquilino Ribeiro, entre outros.

Neste período, também se dedicou à dramaturgia. Em 1923 publicou o livro "Teatro", no qual compilou "O gebo e a sombra" (representado em 1927 no Teatro Nacional), "O doido e a morte" (representado em 1926 no Teatro Politeama) e "O rei imaginário".



Pertenceu ao grupo dos "Nefelibatas" e à "Geração de 90" do século XIX e foi influenciado não só pelas correntes do Realismo, do Naturalismo, mas também pelo Simbolismo e o pelo Decadentismo. Foi um homem imaginativo e talentoso, mas passivo e isolado, características que, no entender de muitos estudiosos da sua vida e obra, acabaram por fazer dele, muitas vezes, um incompreendido



Em 1927 publicou "Jesus Cristo", em colaboração com Teixeira de Pascoaes. No mesmo ano, Columbano pintou o retrato do casal Raul e Angelina Brandão.

Em 1929 publicou "O avejão" e o monólogo "Eu sou um homem de bem", na "Seara Nova".

Raul Brandão pretendeu tornar públicos quatro livros de trabalho de teatro; no entanto, o projeto ficaria apenas pela publicação de um volume. Planeou, igualmente, escrever "A história humilde do povo português", da qual os "Os pescadores" constituiria o primeiro volume, e ao qual se seguiriam "Os lavradores", "Os pastores", "Os operários". Em 1924 realizou uma viagem aos Açores e à Madeira, que deveria fazer parte desse plano e da qual resultou a edição da obra "As ilhas desconhecidas", de 1926.

Em colaboração com a esposa escreveu "Portugal pequenino", uma narrativa para crianças, editada em 1930.

Viria a falecer em Lisboa, no dia 5 de Dezembro de 1930, com 63 anos. Em 1931 foi publicado, postumamente, "O pobre de pedir".



A Cátedra Poesia e Transcendência, também conhecida como Cátedra de Sophia, foi criada em 2006, no Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa, por iniciativa de Arnaldo de Pinho e de Sophia de Mello Breyner Andresen, com um carácter multidisciplinar e intercultural, e com o objetivo de estudar as relações entre Poesia e Transcendência em autores portugueses e estrangeiros



Raul Brandão seguiu, como vimos, uma carreira militar. Mas foi, sobretudo, um grande jornalista (no "Correio da Manhã", "Revista de Hoje", "Revista de Portugal", chefe de redação dos jornais "O Dia" e "A República") e escritor, autor de uma extensa e diferenciada obra literária (ficção, teatro e livros de viagem), marcada pelas vertentes social, ética e religiosa e entrecruzada pelo patético e pelo trágico.

Pertenceu ao grupo dos "Nefelibatas" e à "Geração de 90" do século XIX e foi influenciado não só pelas correntes do Realismo, do Naturalismo, mas também pelo Simbolismo e o pelo Decadentismo. Foi um homem imaginativo e talentoso, mas passivo e isolado, características que, no entender de muitos estudiosos da sua vida e obra, acabaram por fazer dele, muitas vezes, um incompreendido. 

 

Cátedra Poesia e Transcendência

A Cátedra Poesia e Transcendência, também conhecida como Cátedra de Sophia, foi criada em 2006, no Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa, por iniciativa de Arnaldo de Pinho e de Sophia de Mello Breyner Andresen, com um carácter multidisciplinar e intercultural, e com o objetivo de estudar as relações entre Poesia e Transcendência em autores portugueses e estrangeiros.

Entre 2006 e 2013, foi dirigida por Arnaldo de Pinho. Durante esse período foram organizados dois importantes seminários: nos 50 anos de vida literário de Fernando Echevarría (2006) e nos 30 anos da morte de Ruy Belo (2008).

Em maio de 2013, José Rui Teixeira foi nomeado diretor e presidente do Conselho Científico da Cátedra Poesia e Transcendência que, desde então, tem organizado e coorganizado colóquios, ciclos de conferências e edições, bem como parcerias com o propósito de promover cooperação específica, académica e cultural, com centros de investigação na Europa e na América Latina.



Imagem Programa | D.R.

 




SNPC
Publicado em 15.03.2017

 

 

 
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