Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Papa recebeu prémio Carlos Magno: «Sonho uma Europa onde ser migrante não seja crime»

Imagem Papa Francisco | Rito do lava-pés com pessoas que requereram asilo | 24.3.2016 | Castelnuovo di Porto, Roma, Itália | © L'Osservatore Romano

Papa recebeu prémio Carlos Magno: «Sonho uma Europa onde ser migrante não seja crime»

«Sonho uma Europa onde ser migrante não seja crime», afirmou hoje o papa, no Vaticano, por ocasião do prémio Carlos Magno, que desde 1950 é atribuído por uma associação sediada na cidade alemã de Aaschen a personalidades que se distinguiram em favor da unidade e da paz no Velho Continente.

Francisco expressou também o desejo de que no Velho Continente casar e ter filhos «seja uma responsabilidade e uma grande alegria, e não um problema devido à falta de um trabalho suficientemente estável».

«Que te aconteceu, Europa humanísta, paladina dos direitos dos homem, da democracia e da liberdade?», perguntou o papa, que apontou para os «egoísmos» que erguem vedações» e levam a que o continente se vá «entrincheirando».

Diante dos presidentes dos principais órgãos da União Europeia, Jean-Claude Juncker (Comissão), Donald Tusk (Conselho) e Martin Schulz (Parlamento), o papa apelou a «um impulso novo e corajoso» para o «amado» continente, que teve sempre a «criatividade», o «engenho» e a «capacidade de se reerguer e de sair dos próprios limites».

 

Solidariedade

«Neste nosso mundo despedaçado e ferido, é preciso regressar àquela solidariedade de facto, à mesma generosidade concreta que se seguiu ao segundo conflito mundial», apontou, depois de recordar as palavras de Ribert Schuman, considerado um dos “pais fundadores” da atual União Europeia, para quem o continente se construiria através de «realizações concretas».

Os projetos que estiveram na base da Europa de hoje «inspiram, hoje mais do que nunca, a construir pontes e a derrubar muros», constituindo um apelo para recusar os meros «retoques cosméticos» ou «compromissos tortuosos» para corrigir o tratado, substituindo esses expedientes por «bases novas, fortemente radicadas».

 

Integração

A história da Europa, prosseguiu, mostra a sua tripla capacidade de «integrar», «dialogar» e «gerar».

Os povos europeus aprenderam «a integrar, em sínteses sempre novas, as culturas mais diversas e sem aparente ligação entre elas», pelo que «a identidade europeia é, sempre foi, uma identidade dinâmica e multicultural».

Por isso, a política «sabe que tem entre mãos» uma tarefa «fundamental e inadiável», que é a de «promover uma integração que encontra na solidariedade a maneira de fazer as coisas, a maneira pela qual construir a história», assinalou.

Esta solidariedade «nunca pode ser confundida com esmola, mas como geração de oportunidade», para que todos «possam desenvolver a sua vida com dignidade», rejeitando a tentação de impor «paradigmas unilaterais» e «colonizações ideológicas».

O rosto da Europa «não se distingue na contraposição aos outros, mas em ter impressos os traços de diferentes culturas e a beleza de vencer os fechamentos», frisou o papa.

 

A cultura do diálogo

A cultura do diálogo «implica uma autêntica aprendizagem» que reconheça o outro como «interlocutor válido», e, nesse sentido, «olhar o estrangeiro, o migrante, o pertencente a outra cultura como um sujeito a escutar, considerado e apreciado».

Para Francisco, a paz «será duradoura» se as crianças e jovens tiverem ao seu alcance «as armas do diálogo», com as quais se trava «a boa batalha do encontro e da negociação». Essa educação deve inclusive ser incluída nos planos curriculares, de modo a «inculcar nas novas gerações uma maneira de resolver os conflitos diferente» daquela a que estão a ser habituadas.

 

Capacidade de gerar

Às novas gerações deve ser oferecida uma «participação real» na mudança, mas como se pode reconhecer-lhes protagonismo «quando os índices de desemprego e subemprego de milhões de jovens europeus estão a aumentar», questionou.

A «justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral», e por isso urgem «novos modelos económicos mais inclusivos e equitativos, não orientados ao serviço de poucos, mas em benefício das pessoas e da sociedade».

A paz só pode ser obtida se se basear na «verdadeira inclusão: aquele que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário».

 

Os sonhos de Francisco para a Europa

O papa sonha «uma Europa que toma a seu encargo «a proteção da criança, que socorre como um irmão o pobre e quem chega à procura de acolhimento porque não tem mais nada e pede refúgio.

Uma Europa que «escuta e valoriza as pessoas doentes e idosas, para que não sejam reduzidas a improdutivos objetos descartáveis»; uma Europa «onde os jovens respiram o ar limpo da honestidade, amam a beleza da cultura e de uma vida simples, não inquinada pelas infinitas necessidades do consumismo».

Francisco sonha com «uma Europa das famílias, com políticas verdadeiramente efetivas, centradas nos rostos mais do que nos números, nos nascimentos dos filhos mais do que no aumento de bens».

«Sonho uma Europa que promove e protege os direitos de cada pessoa, sem esquecer os deveres para com todos. Sonho uma Europa de que não se possa dizer que o seu compromisso pelos direitos humanos foi a sua última utopia», declarou.

 




 

Andrea Tornielli
In "Vatican Insider"
Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 07.05.2016

 

 
Imagem Papa Francisco | Rito do lava-pés com pessoas que requereram asilo | 24.3.2016 | Castelnuovo di Porto, Roma, Itália | © L'Osservatore Romano
O rosto da Europa «não se distingue na contraposição aos outros, mas em ter impressos os traços de diferentes culturas e a beleza de vencer os fechamentos»
A paz «será duradoura» se as crianças e jovens tiverem ao seu alcance «as armas do diálogo», com as quais se trava «a boa batalha do encontro e da negociação». Essa educação deve inclusive ser incluída nos planos curriculares, de modo a «inculcar nas novas gerações uma maneira de resolver os conflitos diferente» daquela a que estão a ser habituadas
A «justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral», e por isso urgem «novos modelos económicos mais inclusivos e equitativos, não orientados ao serviço de poucos, mas em benefício das pessoas e da sociedade»
Francisco sonha com «uma Europa das famílias, com políticas verdadeiramente efetivas, centradas nos rostos mais do que nos números, nos nascimentos dos filhos mais do que no aumento de bens»
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos