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Leitura: "Um retiro na montanha"

Imagem Capa (det.) | D.R.

Leitura: "Um retiro na montanha"

As edições Tenacitas e Alforria lançam este mês a obra "Um retiro na montanha", que percorre 40 dias da vida do autor, padre Telmo Ferraz, na montanha do Gerês, numa cabana de pastores, na margem do rio Teixeira.

«Este livro é um homem em diálogo com a sua verdade; despojado, não empurra portas fechadas, não força, não exige, aceita, contempla, extasia-se, celebra a sua fragilidade; íntimo da Vida que o chamou à Vida, longe do olhar dos outros, não foge, não se isola, apenas se retira, mas como quem se afasta para ver melhor e para mais próximo ouvir o coração das coisas e do mundo», escreve no posfácio Henrique Manuel Pereira, professor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa.

Natural de Bruçó, Mogadouro, distrito de Bragança, Telmo Ferraz, de 90 anos, foi ordenado padre em 1951, na diocese de Bragança-Miranda, tendo servido na Obra da Rua/Casa do Gaiato e assumido a missão de capelão dos operários da barragem de Picote, nos anos 50.

A partir de 1960 continua esse trabalho de acompanhamento dos operários na barragem de Cambambe, em Angola, e em 1963, já na Obra da Rua, funda a Casa do Gaiato de Malanje, onde permanece até hoje.

É autor, entre outros livros, de “O lodo e as estrelas" (1960), denúncia da exploração dos operários do Picote, que veio a ser retirado de circulação pela censura do regime do Estado Novo.

 

Um retiro na Montanha
P. Telmo Ferraz
Coedição de Edições Tenacitas e Alforria>
Excerto

Dia 4

Manhã! Abri a porta de carqueja.
O Gerês sumiu. A chuva deu-lhe muitos bichinhos e ele aproveita.
Os rochedos parecem-me diferentes e amigos. Subi a um ponto alto e lá encontrei um penedo com uma plataforma a toda a volta. Circundei maravilhado! Resolvi celebrar ali a Eucaristia. Os penedos sorriram. Jesus presente em todos os rochedos da montanha!
«Há mística numa folha, num caminho, no orvalho, no rosto do pobre.» «O ideal é que consigamos encontrar a Deus em todas as coisas.»
Correm os regatos para o rio.
«Deus se cheira, se abraça, se escuta.»
Certo. Assim é. Sinto-o nas pedras soltas e dispersas pela encosta — se lhes bate o Sol, parecem flores! Nas urzes e carquejas floridas que hoje me parecem mantas bordadas e belas! Real no murmúrio suave do rio!
Quando Ele está presente no nosso coração, nós o vemos e sentimos em todas as coisas.
Caminho. Canto — letra e música — que sai espontâneo e faz sorrir os penedos!

 

Não me canso
De cantar as fontes
Como elas não cansam
De correr!

No sopé
Nas encostas
E nos cumes
Elas manam
Feliz no anúncio de nascer.
De pedra em pedra
A água canta a vida!
Na sua quietude
A montanha escuta
Agradecida!

Quando nos regatos,
Sedento, me sacio
E poiso nos cumes
Minha fadiga,
Agradeço ao Senhor,
Única e primeira fonte

 

Dia 32

Vou pela margem do rio — entre montanhas. Só…
Nem o sussurro dum insecto. O sol pela manhã bate na encosta.
São Francisco diria: Bendito sejas, Senhor, pelos irmãos rochedos; pelos grandes  pedregulhos soltos; pelas irmãs urzes e carquejas com suas flores singelas; pelo rio que murmura baixinho; pelo sol que está traçando a linha de sombra na encosta. «Ele sentia-se a si mesmo em íntima comunhão com todas as criaturas de Deus.»
E nós, como reagimos às maravilhas da criação? Ao voo dos cisnes; montanhas de neve; lagos tranquilos e aves no Céu?
Temos todos máquina e disparamos em todas as direcções. Fica esquecida a direcção de Deus…
Acordemos. Foi Ele quem nos criou. Vimos de Deus.
Vamos para Ele.
Pensemos no poder da sua Misericórdia.
Ele quer salvar-nos. Fechamos-lhe a porta e Ele vai na sua solidão pela rua comprida.
Somente é urgente a sua Misericórdia na nossa pobreza e fuga.
Os penedos silenciosos estão nus.
Abre a tua porta e corre pela rua ao seu encontro, inclina-te diante d ‘Ele… Ele vai colocar a sua mão sobre a tua cabeça e iluminar teu coração.
A sua Misericórdia ultrapassa todas as fugas.
E eu, que faço? Vou correr também. Puxarei a sua túnica para lhe entregar a minha folha: tantos passos vãos e mãos vazias.

 

Publicado em 13.09.2016

 

 

 
Imagem Capa | D.R.
Os rochedos parecem-me diferentes e amigos. Subi a um ponto alto e lá encontrei um penedo com uma plataforma a toda a volta. Circundei maravilhado! Resolvi celebrar ali a Eucaristia. Os penedos sorriram. Jesus presente em todos os rochedos da montanha!
São Francisco diria: Bendito sejas, Senhor, pelos irmãos rochedos; pelos grandes pedregulhos soltos; pelas irmãs urzes e carquejas com suas flores singelas; pelo rio que murmura baixinho; pelo sol que está traçando a linha de sombra na encosta. «Ele sentia-se a si mesmo em íntima comunhão com todas as criaturas de Deus»
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