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Um Deus surdo-mudo?

Um Deus surdo-mudo?

Imagem D.R.

«Tende piedade de mim, escutai-me, Senhor! Tende piedade daqueles que se amam e foram separados.» «Chamaste-me?» «Ajudai-me, preciso de ajuda, tende piedade e consenti ajudar-me.» «Não!»

Para compreender este diálogo é preciso narrar a trama do drama "O mal-entendido" (1944), de Albert Camus, escritor ateu mas com uma original demanda de Deus e sobre Deus.

Num albergue remoto e isolado a proprietária mata por vezes os viajantes que hospeda para lhes roubar os bens. Um dia chega um seu filho que havia fugido de casa muitos anos antes e estava agora casado com Maria. De noite, a mãe, que não o reconheceu, mata-o para lhe ficar com os pertences.

Ao amanhecer, a mulher descobre o delito e lança, desesperada, o seu grito a Deus e aos outros. No diálogo acima citado as suas palavras são recolhidas por um velho criado surdo-mudo que rompe o silêncio e responde com um gélido monossílabo final: «Não!». E aqui cai o pano.

É evidente que ele incarna o Deus mudo e indiferente às dores da humanidade, fechado no seu silêncio. Delineia-se, assim, uma experiência trágica, vivida também por muitos crentes quando deslizam para o vórtice da desolação.

«Erguem-se da cidade gritos de moribundos, a alma dos feridos grita por socorro, e Deus não ouve as suas súplicas», exclama, desanimado, Job (24, 12). É a amargura partilhada inclusive pelo moribundo Jesus, que assim se revela nosso irmão na dor: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?».

E está precisamente aqui a resposta de Deus, que não replica de um céu dourado, como o velho surdo-mudo, mas que desce ao Filho para lhe dar a beber o cálice ácido e amargo do sofrimento e da morte para nele infundir o antídoto da sua divindade, da vida, da luz, para que nasça a aurora da sua e da nossa Páscoa.



 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 16.05.2017

 

 
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