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Leitura: "Tudo que existe louvará", antologia de Adélia Prado

Leitura: "Tudo que existe louvará", antologia de Adélia Prado

Imagem Capa | D.R.

«Adélia Prado provoca escândalo. Nasceu há oitenta anos no estado de Minas Gerais (o mesmo de outros dois desmesurados criadores, Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade), mas numa cidadezinha do interior com um nome improvável, que parece criado de propósito para a sua biografia: Divinópolis. Adélia é católica praticante. Foi professora de religião. Os seus poemas rebentam de Deus e de dogmática cristã, trazem colados ao corpo o cheiro das escrituras sagradas e sobretudo esse, pois, como ela diz, "os escritores são insuportáveis, / menos os sagrados".»

É com estas palavras que começa a introdução do livro "Tudo que existe louvará", antologia de Adélia Prado realizada por José Tolentino Mendonça e Miguel Cabedo e Vasconcelos, recentemente lançada pela Assírio & Alvim.

Adélia, prossegue o prefácio, «construiu uma obra poética vital que a coloca, com inteira justiça, entre as grandes vozes do nosso tempo: instigadora na proposta, destemida na invenção, antilírica até ao osso e contudo ardente, sem pingo de condescendência mas magnificamente sensorial, dinamitando as zonas de conforto onde a poesia moderna se instalou, mostrando que a ortodoxia é uma forma radical de heterodoxia e a mais ínfima reverência deve ser mais temida do que a maior blasfémia».

«Convicta, brusca, sensível ao aviso bíblico segundo o qual Deus vomita os mortos»: palavras de Pedro Mexia na apreciação à segunda antologia da autora publicada em Portugal, depois de "Com licença poética" (Cotovia, 2003), com seleção de Abel Barros Batista.



Poemas que se desdobram «em episódios comezinhos», «abordando qualquer situação humana de modo direto, quase-narrativo, em poemas-pedido, poemas-louvor, poema-agradecimento



Em texto publicado na mais recente edição do jornal Expresso, o crítico explica que nesta edição foram escolhidos «poemas de cinco décadas, do volume de estreia "Bagagem" (1975) até ao recente "Miserere" (2014). Poemas biográficos, poemas discursivos, poemas femininos, poemas de uma "espécie ainda envergonhada", poemas "esquisitos"».

Poemas que se desdobram «em episódios comezinhos», «abordando qualquer situação humana de modo direto, quase-narrativo, em poemas-pedido, poemas-louvor, poema-agradecimento. Podem ser histórias de vida devota, de gente que diz "toda convicção e apostólica". Ou histórias de quem se cruzou com a dureza da vontade de Deus e confessa "adoro o que me subjuga". Podem ser testemunhos de escribas ou fariseus, dos desprezados por preconceito. Ou confissões de uma mulher orgulhosa que diz: "coberta de meus pecados resplandeço"», assinala Pedro Mexia.

Por isto, e mais, «Adélia provoca escândalo», sublinham Tolentino Mendonça e Miguel Cabedo e Vasconcelos, e parte do alvoroço que causa nos leitores é por levar à letra a convicção de que a expressão cultural «é intimamente corporal», como «avisam as diversas tradições litúrgicas».



O corpo é que nos abre, como janela, para a transcendência: Deus só é experimentável a partir do corpo e na relação com o corpo



«O religioso sem corpo é triste, incompreensível e anímico, porque é com o corpo que se ama a Deus. O corpo é que nos abre, como janela, para a transcendência: Deus só é experimentável a partir do corpo e na relação com o corpo. A poética de Adélia Prado é, por isso, escandalosamente erótica, porque é, talvez mais ainda, escandalosamente sacramental», conclui a introdução.

 

Um salmo

Tudo o que existe louvará.
Quem tocar vai louvar,
quem cantar vai louvar,
o que pegar a ponta de sua saia
e fizer uma pirueta, vai louvar.
Os meninos, os cachorros,
os gatos desesquivados,
os ressuscitados,
o que sob o céu mover e andar
vai seguir e louvar.
O abano de um rabo, um miado,
u'a mão levantada, louvarão.
Esperai a deflagração da alegria.
A nossa alma deseja,
o nosso corpo anseia
o movimento pleno:
cantar e dançar TE-DEUM.

 

Guia

A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem - sem coação alguma -
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto, repito, a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Ela me salvará, porque o roxo
das flores debruçado na cerca
perdoa a moça do seu feio corpo.
Nela, a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida
da brutalidade das coisas?

 

Anunciação ao poeta

Ave, ávido.
Ave, fome incansável e boca enorme,
come.
Da parte do Altíssimo te concedo
que não descansarás e tudo te ferirá de morte:
o lixo a catedral e a forma das mãos.
Ave, cheio de dor.

 

O Pai

Deus não fala comigo
nem uma palavrinha das que sussurra aos santos.
Sabe que tenho medo e, se o fizesse,
como um aborígene coberto de amuletos
sacrificaria aos estalidos da mata;
não me tirasse a vida um tal terror.
A seus afagos não sei como agradecer,
beija-flor que entra na tenda,
flor que sob meus olhos desabrocha,
três rolinhas imóveis sobre o muro
e uma alegria súbita,
gozo no espírito estremecendo a carne.
Mesmo depois de velha me trata como filhinha.
De tempestades, só mostra o começo e o fim.

 

Qualquer coisa que brilhe

São eternos esta oficina mecânica,
estes carros, a luz branca do sol.
Neste momento, especialmente neste,
a morte não ameaça, pois não existe.
Ainda que se mova, tudo é parado e vive,
num mundo bom onde se come errado,
delícia de marmitas de carboidrato e torresmos.
Como gosto disso, meu deus!
Que lugar perfeito!
Ainda que volta e meia alguém morra, é tudo muito eterno,
só choramos por sermos condizentes.
Necessito pouco de tudo,
já é plena a vida,
tanto mais que descubro:
Deus espera de mim o pior de mim,
num cálice de ouro o chorume do lixo
que sempre trouxe às costas
desde que abri os olhos,
bebi meu primeiro leite
no peito envergonhado de minha mãe.
Ofereço cantando, estou nua,
os braços erguidos de contentamento.
Sou deste lugar,
com tesoura cega cortei aqui meu cabelo,
sedenta de ouro esburaquei o chão
atrás do que brilhasse.
Pois o encontro agora escuro e fosco
no dia radioso é único e não cintila.
Veio de Vós. A vida. Do opaco. Do profundo de Vós.
Abba! Abba! Aceita o que me enoja,
gosma que me ocultou Teu rosto.
Vivo do que não é meu.
Toma pois minha vida
e não me prives mais
desta nova inocência que me infundes.



 

Rui Jorge Martins
Publicado em 24.11.2016

 

Título: Tudo que existe louvará - Antologia
Autora: Adélia Prado
Editora: Assírio e Alvim
Páginas: 224
Preço: 15,50 €
ISBN: 978-972-37-1933-8

 

 
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