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Tolstoi e a noite escura

Imagem Liev Tolstoi

Tolstoi e a noite escura

Não poderei continuar a adiar e a temporizar. É inútil hesitar e refletir mais longamente sobre o que tenho a dizer. A vida não espera. A minha existência já está no declínio e a todo o instante pode extinguir-se. Se ainda posso prestar algum serviço aos homens, se posso fazer-me perdoar os meus pecados, a minha vida ociosa e sensual, é apenas ensinando aos homens, meus irmãos, o que me foi dado compreender mais claramente por eles; isto que desde há muitos anos me atormenta o coração. Todos os homens sabem, como eu, que a nossa vida não é aquela que deveria ser, e que reciprocamente nos tornamos infelizes. Sabemos que para sermos felizes e tornarmos felizes os outros é preciso amar o próximo como a nós mesmos, e se nos é impossível fazer-lhes o que gostaríamos que fosse feito, ao menos não lhes façamos o que não queremos que nos seja feito a nós.

É isto que ensinam as religiões de todos os povos e mandam a razão e a consciência de cada um de nós. A morte do invólucro corpóreo que a cada momento nos ameaça, recorda-nos o carácter efémero de todos os nossos atos; assim, a única coisa que podemos fazer que pode obter-nos a felicidade e a serenidade, é obedecer a todo o momento a isso que a nossa consciência nos manda, se não cremos na revelação; a obedecer ao ensinamento de Cristo, se nele acreditamos. Por outras palavras, se não podemos fazer ao próximo o que queremos que nos seja feito, pelo menos não lhes façamos o que não desejamos para nós. Ainda que todos conheçam desde há muito esta verdade, em vez de a concretizarem os homens matam, roubam, violam.

Assim, em vez de viver na alegria, na tranquilidade e no amor, eles sofrem, penam e só experimentam ódio ou medo uns pelos outros. Em todo o lado, sobre toda a Terra, os homens procuram dissimular a sua vida insensata, esquecer-se, sufocar o seu sofrimento, sem conseguir ter sucesso. Por isso, o número daqueles que perdem a razão e se suicidam aumenta de ano para ano, uma vez que é maior do que as suas forças suportar uma vida contrária à natureza humana.

Mas, dir-se-á, talvez seja necessário que a vida seja assim; necessária a existência dos empreendedores, dos reis, dos governos, dos parlamentos que comandam milhões de soldados equipados de espingardas e canhões, prontos a todo o instante a lançarem-se uns sobre os outros; necessárias as fábricas e as oficinas que produzem objetos inúteis e nocivos, onde milhões de homens, de mulheres e de crianças são transformados em máquinas, afadigando-se 10, 12 e 15 horas por dia; necessários o crescente despovoamento das vilas e a sobrelotação progressiva das cidades com os seus cabarés, os seus asilos noturnos, os seus refúgios para a infância e os seus hospitais; necessário o encarceramento de centenas de milhares de homens.

Talvez seja necessário que os casamentos diminuam cada vez mais, que a prostituição e os abortos aumentem diariamente e que os homens se abandonem sempre mais à vida dissoluta. Talvez seja necessário que a doutrina de Cristo, que ensina a concórdia, o perdão das ofensas, o amor do próximo, do inimigo, seja inculcada aos homens por padres de seitas inumeráveis em luta contínua entre eles, e isso sob a forma de fábulas estúpidas e imorais sobre a criação do mundo e do homem, sobre o seu castigo e sobre a sua redenção da parte de Cristo, e sobre este ou aquele rito; este ou aquele sacramento.

Talvez esse estado de coisas seja natural ao homem, como é próprio das formigas e das abelhas viverem nos seus formigueiros e nos seus alvéolos em lutas contínuas e sem outro ideal. Talvez seja a lei dos homens, enquanto o apelo da razão e da consciência a uma outra vida amorosa e feliz não seja senão um sonho, e não se saberia imaginar uma vida diferente da de hoje. É com efeito assim que falam alguns. Mas o coração humano não quer acreditar. Ele revoltou-se sempre contra a vida de mentira e convidou sempre os homens a deixarem-se guiar pela razão e pela consciência; nos nossos dias este apelo é mais urgente que nunca. Não existimos durante séculos, milénios, uma eternidade; depois, eis-nos aqui sobre a Terra, vivos, pensantes, amantes, usufruindo a vida.

Agora podemos viver até aos 70 anos - se chegarmos a esta idade, já podemos também viver só alguns dias, algumas horas - na preocupação e no ódio ou na alegria e no amor; podemos viver com a consciência de fazer mal, ou de cumprir, mesmo que imperfeitamente, aquilo que podemos acreditar ser o nosso dever. «Arrependei-vos, arrependei-vos, arrependei-vos!...», gritava aos homens João Batista. «Arrependei-vos...», dizia Cristo. «Arrependei-vos», dizia a voz de Deus como a voz da consciência e da razão. Antes de tudo, detenhamo-nos no meio das nossas ocupações, dos nossos prazeres, e perguntemo-nos: «Fazemos nós o que devemos, ou em vez disso gastamos inutilmente a nossa vida, esta vida que nos é dado passar entre duas eternidades de nada?».

Sei muito bem que, sob o impulso dos homens, como um cavalo que faz girar uma roda, é-nos impossível parar para refletir um instantes. Uns dizem-nos: «Tantas reflexões não, mas ações». Outros dizem: «Não é preciso pensar em si, nos próprios desejos, quando a obra a cujo serviço nos encontramos é da nossa família, da arte, da ciência, do comércio, da sociedade; tudo para o interesse geral». Outros asseguram: «Tudo foi há muito pensado e experimentado, ninguém encontrou melhor; vivamos a nossa vida, eis tudo». Outros, por fim, pretendem: «Refletir ou não refletir é uma só coisa; vive-se, depois morre-se; o melhor, por isso, é viver para o próprio prazer. Por isso chega de refletir: vivamos como podemos». Não escuteis estas vozes: a todas as suas razões, respondei simplesmente: «Atrás de mim vejo a eternidade durante a qual não existia; à minha frente sinto a mesma noite infinita onde a morte pode a todo o momento engolir-me. Atualmente vivo e posso - sei que posso -, fechando voluntariamente os olhos, cair numa existência cheia de misérias; mas sei que abrindo-os para olhar à minha volta, posso escolher; a existência melhor e a mais feliz.

Assim, o que quer que digam as vozes, quaisquer que sejam as seduções que me atraiam, na medida em que seja tomado pela obra que comecei, e arrastado pela vida que me rodeia, detenho-me, examino, reflito». Eis o que tinha a recordar aos meus semelhantes, antes de voltar ao infinito.

 

Liev Tolstoi
In "Avvenire"
Fonte:
Publicado em 29.09.2016

 

 
Imagem Liev Tolstoi
Talvez seja a lei dos homens, enquanto o apelo da razão e da consciência a uma outra vida amorosa e feliz não seja senão um sonho, e não se saberia imaginar uma vida diferente da de hoje. É com efeito assim que falam alguns. Mas o coração humano não quer acreditar
Outros, por fim, pretendem: «Refletir ou não refletir é uma só coisa; vive-se, depois morre-se; o melhor, por isso, é viver para o próprio prazer. Por isso chega de refletir: vivamos como podemos». Não escuteis estas vozes
O que quer que digam as vozes, quaisquer que sejam as seduções que me atraiam, na medida em que seja tomado pela obra que comecei, e arrastado pela vida que me rodeia, detenho-me, examino, reflito
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