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Toda a vida de Jesus

As palavras pronunciadas por Jesus na sinagoga de Cafarnaum são suscitadas pelas reações e perguntas daqueles ouvintes definidos no quarto Evangelho como «os judeus», ou seja, os crentes no Deus de Abraão, Isaac e Jacob, alimentados pela ideologia judaica dominante, forjada pelos chefes religiosos do povo, hostis a Jesus e depois responsáveis, juntamente com os dirigentes políticos romanos, pela sua condenação.

No excerto do discurso proposto pela liturgia para o 19.º Domingo do Tempo Comum (João 6, 41-51), é especialmente testemunhada uma murmuração. Jesus tinha falado de um pão, dado pelo seu Pai, vindo do céu, um pão capaz de dar a vida ao mundo (João 6, 32-33). Seguidamente, identificou-se Ele próprio com esse pão: «Eu sou o pão da vida; quem vem a mim não mais terá fome e quem acredita em mim não mais terá sede» (João 6, 35), mas estas afirmações ressoam nos ouvidos dos seus ouvintes como uma pretensão louca, escandalosa, inaudita. Por isso perguntam-se: como pode este homem, Jesus de Nazaré, que aparece como um homem e realmente o é, revelar-se como descido do céu, portanto vindo de Deus, enviado por Ele? Como pode dizer-se pão, dizer-se capaz de tirar a fome? A sua pretensão é inadmissível porque atenta contra o senhorio de Deus.

É precisamente a humanidade de Jesus que escandaliza, a sua carne e o seu sangue: o seu corpo frágil de criatura declara-o terrestre, não descido do céu. Além disso, aqueles judeus têm um conhecimento preciso de Jesus, devido à realidade dos factos: é o filho do carpinteiro de Nazaré, e a sua mãe também é bem conhecida, e portanto Ele vem simplesmente de uma pequena vila da Galileia, não do céu.



Ir ao encontro de Jesus significa encontrar um homem, com uma humanidade plena, com uma carne frágil, significa encontrar um homem que vive entre os outros, tem sentimentos humanos, fala uma língua humana, encontra os seres humanos, coloca-se ao seu serviço



Perante estas contestações e desprezo, Jesus reage, pedindo, em primeiro lugar, que se abstenham de murmurar, e a seguir declara: «Ninguém pode vir a mim, se não o atrai o Pai que me enviou». Eis o mistério da fé: não basta a inteligência humana, não são suficientes as faculdades humanas para discernir quem é verdadeiramente Jesus, mas é precisa uma ação de Deus, aquele que o próprio Jesus define como seu Pai. Só através do acolhimento deste dom gratuito é possível aceder a Jesus, atraídos pela força divina. Aderir a Jesus, estar envolvido na sua vida, é essencialmente graça que acompanha, com uma absoluta primazia sobre o compromisso pessoal do discípulo. É verdade que a esta atração do Pai pode responder-se com consciência, convicção, na liberdade e acedendo ao amor por Jesus, mas também é possível opor uma recusa, um fechamento.

Quando, porém, acontece este acesso convicto a Jesus, então a comunhão com a sua vida é tal que nem sequer o obstáculo definitivo, a morte, pode vencê-la. De facto, o próprio Jesus, o Ressuscitado, fará ressurgir no último dia quem se confiou a Ele, partilhando com Ele a própria vida. Estamos agora no tempo do cumprimento da profecia, e se os profetas tinham anunciado que o próprio Deus haveria de instruir o seu povo, eis que esta ação de Deus no hoje cumpre-se através da presença do Filho na Terra, não como instrução para a observância da lei, mas como instrução que tem como meta a adesão ao homem Jesus.

Todos os humanos, não só os filhos da antiga aliança, mas todos os filhos de Adão, toda a humanidade, pode escutar Deus, acolher o seu ensinamento e assim ir ao encontro de Jesus. Não há ainda a possibilidade de ver Deus face a face, porque isso nunca foi possível no regime da fé: só o Filho, que é de Deus, o viu face a face, e dele é a narração, a interpretação única e verdadeira, porque quem vê o Filho vê o Pai.



«O pão descido do céu», aquele que o Pai dá, é o próprio Jesus Cristo, e é decisivo para a vida eterna. Quem participa no banquete deste pão, vive a vida eterna. Assimilar este pão que é Jesus Cristo significa receber o antídoto da morte



Também estas palavras podem suscitar escândalo, mas aqui estamos no coração da fé cristã: ir ao encontro de Jesus significa encontrar um homem, com uma humanidade plena, com uma carne frágil, significa encontrar um homem que vive entre os outros, tem sentimentos humanos, fala uma língua humana, encontra os seres humanos, coloca-se ao seu serviço, instrui-os, cuida deles e cura-os. É nesta sua humanidade que podemos ver Deus e assim cumprir o caminho que nos conduz a aderir a Ele. Sim, porque como Jesus disse, «ninguém vai ao Pai se não por meio de mim». Regressa então à boca de Jesus, pela terceira vez, a afirmação solene: «Eu sou o pão da vida, o pão vivo». Quem fala é o Nome santo de Deus revelado a Moisés, e define a sua identidade como pão, alimento para a vida.

Aqui, no entanto, devemos ter muita atenção e sobretudo não acabar por dividir «o pão da vida» de Jesus, o homem Jesus, o Filho de Deus feito carne. Nunca se deve separar o Cristo, o Filho, da sua palavra e do pão que Ele deu ao mundo: seria um atentado à plenitude da identidade de Jesus. E não nos deixemos enganar pelo paralelismo que Ele instaura entre o pão que desce do céu e o maná, porque só o movimento do céu para a terra o justifica. O maná que Deus tinha dado aos pais no deserto após a saída do Egito era, com certeza, um dom, mas para saciar a fome; não era um alimento que podia oferecer-lhes a salvação, tanto que os destinatários desse dom acabariam por morrer sem entrar na terra prometida. «O pão descido do céu», aquele que o Pai dá, é o próprio Jesus Cristo, e é decisivo para a vida eterna. Quem participa no banquete deste pão, vive a vida eterna. Assimilar este pão que é Jesus Cristo significa receber o antídoto da morte, começando a viver uma vida diferente da mortal, a própria vida do Filho de Deus.

É verdade, devemos admiti-lo, que estas palavras de Jesus dão-nos vertigens se as acolhemos com fé, ao mesmo tempo que nos escandalizam se não sentimos uma profunda e secreta atracão para Jesus, despertada por Deus. Deus não nos constringe nem se impõe, estendendo-nos o dom do Filho no seu grande amor por Deus e pelo mundo, mas faz-nos numa oferta a fim de que saibamos responder-lhe na liberdade e por amor. É precisamente em virtude deste acolhimento do dom daquele que desceu do céu «por nós e pela nossa salvação» e que deu a sua vida toda, o seu corpo, a sua carne, o seu sangue e o seu espírito, como dom gratuito e para todos, que vigiamos para sermos sempre capazes de acreditar, adorar e confessar Jesus como o nosso único Senhor. Nesta perspetiva, somos chamados a nunca cindir a Eucaristia da cristologia, com o risco de coisificar o sacramento e de o empobrecer da imensidade do mistério.

Este capítulo sexto do Evangelho segundo João, ao insistir na única identidade daquele que é o Filho do Pai descido do céu, daquele que é palavra de Deus e é pão, alimento de vida eterna para os crentes, torna-nos sólidos na fé cristã, à qual é imanente a fé eucarística.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: l i g h t p o e t/Bigstock.com
Publicado em 09.08.2018

 

 
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