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Tocar piano debaixo das bombas na esperança da paz

Tocar piano debaixo das bombas na esperança da paz

Imagem Aeham Ahmad | D.R.

«Quando comecei a tocar o piano nas ruas de Yarmouk, entre os palácios esventrados pelas bombas, fi-lo porque vivíamos numa situação terrível e as pessoas, sobretudo as crianças, precisavam de escutar o som da música e não apenas o das explosões. Todos precisávamos de nos agarrar a uma esperança. É certo que então não imaginava que conseguiria fugir daquele pesadelo. Para dizer a verdade, pensava que talvez pudesse tocar por dois, três dias e que depois a minha vida, de repente, acabaria debaixo das ruínas de um qualquer edifício atingido por uma bomba.»

Quem fala é Aeham Ahmad, o pianista de Yarmouk; os vídeos dos seus concertos entre as ruínas, há dois anos, tornaram-se virais na internet e deram a volta ao mundo. Agora é ele - que há mais de um ano vive em Wiesbaden, na Alemanha - que dá a volta ao mundo. Também publicou o primeiro álbum das suas composições, que intitulou "Music for hope" ("Música para a esperança"), dedicado aos sírios «que querem viver livres mas não têm qualquer voz». Encontrou-se com a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente do país, Joachim Gauck, e venceu o prémio Beethoven pelo seu empenho em favor dos direitos humanos.

Todavia, o mais importante para ele foi ter conseguido fazer chegar a Wiesbaden a mulher e os dois filhos que foi obrigado a deixar às portas de Damasco, quando fugiu, em 2015, depois de os militantes do autodenominado Estado Islâmico terem queimado o seu piano. «Segui aquela que vós chamais a rota balcânica e fi-la, mas para a minha mulher e as crianças teria sido demasiado perigoso».



«A minha é uma música de inspiração clássica - nas ruas comecei a tocar Beethoven, que estudei no Conservatório de Damasco - juntamente com os versos e as melodias do canto árabe, mas as palavras das minhas composições narram um drama atual e terrível»



Se em Yarmouk, onde nasceu há 28 anos numa família de deslocados palestinianos, a sua música era uma forma de resistência à guerra, um instrumento para dar alívio ao estrondo dos bombardeamentos, os seus concertos são hoje um testemunho. «Eu toco e canto a tragédia da Síria. Não apenas aquelas que contam os jornais sobre os combates entre o Estado Islâmico, a Frente Al-Nusra, o exército de Assad, os russos: eu canto sobretudo a resistências da gente que quer viver, que gostaria de sair do horror em que caiu há anos. A minha é uma música de inspiração clássica - nas ruas comecei a tocar Beethoven, que estudei no Conservatório de Damasco - juntamente com os versos e as melodias do canto árabe, mas as palavras das minhas composições narram um drama atual e terrível».

Algo de terrível, também, está a acontecer hoje fora da Síria: o Estado Islâmico e outros grupos terroristas estão a exportar a violência, falam de vingança, cometeram atentados sanguinários nas últimas semanas em Berlim e Istambul. Aeham Ahmad teve um concerto na igreja da Recordação, que se ergue na praça onde estava o mercado de natal atacado por um homem ao volante de um camião na capital alemã. «Sou contra qualquer forma de terrorismo e de violência. Sou muçulmano mas não me reconheço em quem usa o nome do islão para cometer atrocidades. Os meus irmãos cristãos e os meus irmãos judeus são como eu e têm os mesmos direitos. Durante dois mil anos vivemos lado a lado na Síria. O problema não é religioso. Não é uma guerra de religião. A religião deve ser mantida fora desta guerra. Aliás, nenhuma guerra se pode fazer em nome da religião.



Mas a música pode ajudar num drama destas proporções? «Talvez a música não chegue. Mas também a música pode servir para fazer compreender a tragédia que se está a consumar»



Para Aeham Ahmad a Síria é o terreno de confronto de interesses estratégicos, económicos e políticos. «Eu vi isso com os meus próprios olhos no inferno de Yarmouk. A guerra não é do povo sírio, é contra o povo sírio. As pessoas normais querem viver em paz. Aqueles que combatem são grupos financiados e enquadrados por potências externas, mas aqueles que morrem são os sírios. Nós somos as primeiras vítimas do terrorismo e da violência. E a trágica contabilidade do conflito demonstra-o, ainda que dos mais de 400 mil mortos não se fale muito nos jornais. Para isolar os terroristas é preciso interromper o fornecimento de armas, prestar atenção aos tráficos de petróleo, não subvalorizar o papel dos combatentes estrangeiros, que são milhares. Um grande erro é a ilusão de poder manipular grupos de milicianos: um dia é certo que eles se virarão contra quem os apoiou. Disso sabe algo a Turquia, que é vítima desta lógica perversa». Mas a música pode ajudar num drama destas proporções? «Talvez a música não chegue. Mas também a música pode servir para fazer compreender a tragédia que se está a consumar. Pelo menos é esta a minha esperança: a mesma esperança que me impelia a tocar o piano montado na carreta do meu tio debaixo das bombas nas ruas devastadas de Yarmouk».















 

Rossella Fabiani
In "L'Osservatore Romano"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 08.01.2017

 

 
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