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Pintura: Tintoretto, o terrível

Jacopo Robusti é o nome próprio do artista veneziano nascido há 500 anos que, por ser filho de um tintureiro e de pequena estatura, passou a ser conhecido universalmente por Tintoretto.

Se vivesse hoje – morreu em 1594 –, Tintoretto seria responsável pelos efeitos especiais no cinema. Na Veneza do século XVI a sua pintura serpenteante e brilhante, construída por perspetivas oblíquas, pela pluralidade de pontos de vista, por contrastes de luz e de sombras, teve dificuldade em afirmar-se. Mas Tintoretto era um homem duro, determinado, infatigável, capaz de sofrer e de esperar.

Diante da Scuola Grande di San Rocco, edifício veneziano conhecido pelas pinturas de Tintoretto, o arquiteto, pintor e historiador Giorgio Vasari (1511-1574), conhecido pelas biografias de artistas italianos do Renascimento, escreve que está na presença do «cérebro mais terrível que a pintura alguma vez teve».

Será legítimo sacrificar o «desenho» à «ousadia», o «juízo» às mais destemidas aventuras do pincel se o resultado é a «terribilidade»? Na boca do académico Vasari, uma dúvida como esta é mais que transgressora, é revolucionária. A «terribilidade» é, com efeito, o caráter distintivo de Tintoretto. Onde o termo, na linguagem literária do século XVI, é sinónimo de espanto, de maravilha, de algo que suscita no observador a admiração, mas também choque e vertigem.



Imagem "Cristo no mar da Galielia" (det.) | Tintoretto | 1575-80 | National Gallery of Art, Washington, EUA


São estas as sensações que se experimentam diante do “Paraíso”, no interior da Scuola Grande de San Rocco, na presença do “Milagre do escravo” da Academia de Veneza, onde se tem a impressão de que o voo acrobático do santo captura o observador contra a sua vontade e o projeta, pelo imprevisto “trompe-d’oeil”, para um espaço perspetivo fervilhante e tumultuoso.

O "risco" de Tintoretto, o seu jogo audacioso teve de fazer estrada numa Veneza dominado por Ticiano, titular de um prestígio profissional e até político (retratista do imperador e do papa) imenso, que não tolerava interferências e sombras de qualquer género.

Ticiano era demasiado inteligente e demasiado "artista" para não compreender que o filho do tintureiro tinha todas as possibilidades de assumir, mais cedo ou mais tarde, um papel hegemónico na veneziana república da pintura, para tornar-se o seu único verdadeiro antagonista.



Imagem "Ecce Homo" | Tintoretto | Scuola Grande di San Rocco, Veneza, Itália


Por isso, quando se tratou, em 1556, de premiar o melhor do "coletivo" encarregado de decorar a Biblioteca Marciana (Schiavone, De Mio, Sustris, Veronese e outros), selecionado pelo próprio Ticiano-se com a clamorosa exclusão de Tintoretto, foi para Caliari, jovem chegado de Verona, o presente dourado.

Com sabedoria clarividente o velho Ticiano tinha indicado em Paolo Veronese a linhagem da sua sucessão. Tintoretto foi, portanto, posto fora do grande jogo, e esta exclusão, que durou muitos anos, foi a principal razão do seu carácter sombrio, desconfiado, colérico; ao ponto que Pietro Aretino, seu amigo no início de carreira, ter-lhe lamentado «tristeza e insanidade».

Na verdade, Tintoretto soube superar a hostilidade e o preconceito com paciência, método e determinação admiráveis. À espera do sucesso retumbante, que finalmente chegou. Depois da morte de Ticiano, torna-se o primeiro pintor da cidade. Chegavam-lhe encomendas públicas (entre outras a imensa tela do “Paraíso” no salão do Conselho Maior), com os oligarcas da República a confiarem-lhe as suas imagens.



Imagem "Paraíso" (det.) | Tintoretto | Depois de 1588 | Palácio Ducal, Veneza, Itália


A elite política diplomática e militar que usufruía da vida nos palácios do Grande Canal e nas vilas de Brente era a mesma capaz de morrer nas galeras de combate ou nas fortalezas. Uma classe social assim exigia apresentações sóbrias e rigorosas, decoro formal, impecável, “understatement” perfeito. É exatamente isso que os doges, os procuradores de S. Marcos, os capitães de mar querem do pintor. Tintoretto sabe-o e transmite-nos o verdadeiro retrato de uma classe dirigente que faz do serviço ao Estado uma missão ética professada e praticada com dedicação absoluta.

Pensei sempre em Tintoretto como num artista “moderno”. Moderno porque impele a pintura para os domínios ainda incógnitos do ilusionismo cenográfico e dos efeitos especiais. Moderno também porque demonstra ter o sentido da publicidade, da autopromoção. No seu estúdio destacava-se o slogan «o desenho de Miguel Ângelo e a cor de Ticiano»; uma maneira feliz, que não por acaso permaneceu proverbial, de definir um mundo poético feito de fábulas dramáticas dentro de cenografias de luzes mutáveis. A herança estilística de Tintoretto está na raiz do fantástico imaginário de El Greco, mas toca também, com muita probabilidade, a formação do muito jovem Caravaggio.



Imagem "Retrato de um procurador de S. Marcos" (det.) | Tintoretto | 1580-83 | National Gallery of Art, Washington, EUA


Há depois o aspeto fundamental representado por Tintoretto enquanto pintor religioso. Ele foi, no campo das artes figurativas, uma das maiores testemunhas da Contrareforma, quase um «pregador tácito» que ainda hoje é capaz de emocionar e seduzir.

Na sexta-feira a Galeria da Academia e o Palácio Ducal inauguram exposições dedicadas ao mestre do Renascimento, que podem ser vistas até 6 de janeiro, a par de duas outras mostras na Scuola Grande di San Marco e no palácio Mocenigo.



Imagem "O milagre do escravo" | Tintoretto | 1548

 

In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem de topo: "A Anunciação" | Tintoretto | 1583-87 | Scuola Grande di San Rocco, Veneza, Itália
Publicado em 11.09.2018

 

 
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