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Terrorismo como forma

Imagem Bansky | D.R.

Terrorismo como forma

Aquilo que vulgarmente se designa como «história», mas que melhor recebe o título de historiografia, e que guarda a memória vária dos acontecimentos de algum modo registados, não coincide com a dimensão dita histórica da humanidade, mesmo que se reduza esta a algo como «a historicidade factual, concretizada»: a ação humana total havida desde que há humanidade transcende em muito isso que se considera a “história”. No entanto, a haver uma «história humana», esta coincidiria precisamente com tal ação em sua inenarrável totalidade.

Desta mesma ação, sempre fizeram parte dois extremos de possibilidade: a ação amorosa, que coincide com a busca universal – tem de ser mesmo universal – do bem comum; a tirania, que coincide com o literal roubo de possibilidades alheias – universalmente – em benefício de um só, o tirano. Tal esquema representa o balizamento teórico do que tem sido – mas também do que pode ser – a vida humana. Na realidade, o que a humanidade tem conhecido, em geral, em todos os lugares e tempos, com raríssimas exceções, tem sido uma forma degradada de tirania, que é a oligarquia, em que uns poucos seres humanos, na impossibilidade de apenas um deles se constituir em tirano, vivem parasitariamente de possibilidades alheias literalmente roubadas.

Já que estamos, nesta página, em ambiente cristão, afirme-se, sem falsas humildades, que a proposta do Reino de Deus, feita por Cristo, consubstancia precisamente o universal reino do bem comum como passível de ser vivido a partir da ação baseada na graça divina de dom de possibilidade de bem, bem realizado. Também convém lembrar que todo o pecado nada mais é do que toda a ação que contra tal Reino atente.

O ser humano, todo, universalmente entendido – “isto” não é coisa para cristãos ou outros particulares quaisquer –, tem, deste modo, a sua ação balizada entre os extremos do bem comum, em que todos podem atingir e atingem o melhor bem possível em acordo sinfonial com o bem de todos, e da tirania, em que o bem de um se constrói às custas das possibilidades roubadas ao restante do universo dos outros seres humanos. E não há meio-termo (o meio-termo ético-político aristotélico é a versão laica de um reino de Deus e não é uma mediania, antes uma perfeição encontrada dinamicamente entre extremos, daí ser medial).

Ora, na ação da humanidade, enquanto uns se preocuparam e ocuparam na liturgia ao bem comum, outros apenas se preocuparam com a liturgia ao seu sagrado umbigo, outros ainda viveram para destruir o bem.

Estes últimos sempre constituíram esses que viviam causando terror.

Pegue-se numa das grandes obras antigas mais conhecidas e que nos dispensamos de mencionar: quantas e quantas cenas de terror! De um certo ponto de vista, a história quer mítica quer não-mítica (se é que esta última categoria existe mesmo…) da humanidade parece não ser mais do que uma narrativa de terror e que a humanidade não surgiu senão para ser vítima de tal destino: ser aterrorizado, viver aterrorizado é sinónimo de ser humano e de viver humano.

Deste ponto de vista, o que é o terrorismo?

É simplesmente o exercício do poder humano através da administração do terror. Substantivamente, não interessa quem o faz, não interessa porque ou por que o faz, não interessa para que o faz. No terrorismo, o que interessa é o ato em si como manifestação e exercício de poder político de um ser humano sobre outro ou outros seres humanos.

Tal perspetiva ajuda a entender o terrorismo de uma forma radicalmente diferente: deixa de ser algo do âmbito do excecional, próprio da guerra em seu sentido comum – no fundo, baseado na redução de Clausewitz – para passar a ser algo de comum, aliás, do que há de mais comum na chamada história da humanidade.

Não é apenas terrorista o bombista suicida que invoca razões de índole política ou o movimento político-militar que usa formas militares propositadamente elaboradas e operacionalizadas para causar terror onde ele é mais fácil de obter, isto é, junto de seres humanos sem treino para lidar com tais circunstâncias excecionalmente duras e difíceis, disruptivas do comum da vida humana e provocadoras de sofrimento avassalador.

Todos os que vivem causando terror passam a ser vistos como terroristas: o marido que aterroriza a mulher; a mulher que aterroriza o marido; o patrão que aterroriza os trabalhadores; os trabalhadores que aterrorizam o patrão; o professor que aterroriza os alunos; os alunos que aterrorizam o professor; todos os que obedecem a um padrão de ação em que o poder é afirmado através do uso do terror.

É isto o terrorismo como forma.

Forma antropológica, forma ética, forma política.

Nestas suas formas, o terrorismo, como já afirmámos, tem sido constante e abundante ao logo da vida da humanidade.

Então, porquê a surpresa perante o terrorismo nos dias que correm?

Trata-se apenas de uma forma de nova consciencialização perante uma evidência dada indesmentivelmente através de uma anulação de uma falsa sensação de paz? Isso que se pensava que era o terrorismo afinal veio a patentear-se como falso? Sem dúvida.

Estamos perante a evidência nua e crua de que o terrorismo não é uma curiosidade longínqua que ocorre apenas em locais distantes e como exceção ao comum da ação humana. A quotidianidade da ação manifestamente terrorista mostra o quão comum o terrorismo sempre foi: afinal, pode ser-se «terrorista» apenas com uma faca?

Santo Deus! Mas sempre se foi terrorista de muitos modos: com a palavra, o gesto, por pensamento, palavras e omissões, como por atos, pois nada há na vida propriamente humana que não seja ato.

Pensamos que, a menos que a humanidade queira aproximar-se do extremo possível da ação humana que é o bem-comum, e rapidamente, o terrorismo irá assumir manifestamente o lugar que sempre foi o seu na ação humana. Assistiremos progressivamente a uma cada vez maior presença obscenamente manifesta destes atos, a menos que todos se esforcem por amar.

Mas, como se sabe, o amor dá muito trabalho e é muito difícil, em comparação com a sua antítese destrutiva.

É este texto uma chamada de atenção para a urgência do amor, da ação no sentido do bem próprio do outro, única forma de o terror não triunfar.

Já agora: convém não esquecer que Sodoma e Gomorra poderiam ter sido salvas, existisse lá um ato de amor que tal merecesse.

Seja como for, nos nossos atos, crentes ou não que sejamos, já temos a nossa recompensa.

A Paz é o transcendental divino sempre ignorado.

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 27.07.2016

 

 
Imagem Bansky | D.R.
Na ação da humanidade, enquanto uns se preocuparam e ocuparam na liturgia ao bem comum, outros apenas se preocuparam com a liturgia ao seu sagrado umbigo, outros ainda viveram para destruir o bem. Estes últimos sempre constituíram esses que viviam causando terror
Todos os que vivem causando terror passam a ser vistos como terroristas: o marido que aterroriza a mulher; a mulher que aterroriza o marido; o patrão que aterroriza os trabalhadores; os trabalhadores que aterrorizam o patrão; o professor que aterroriza os alunos; os alunos que aterrorizam o professor; todos os que obedecem a um padrão de ação em que o poder é afirmado através do uso do terror
A menos que a humanidade queira aproximar-se do extremo possível da ação humana que é o bem-comum, e rapidamente, o terrorismo irá assumir manifestamente o lugar que sempre foi o seu na ação humana. Assistiremos progressivamente a uma cada vez maior presença obscenamente manifesta destes atos, a menos que todos se esforcem por amar
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