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Teologia pública

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Teologia pública

Este será, possivelmente, no ano em curso, o meu último contributo para o "site" do SNPC. Decidi, assim, regressar a um acontecimento marcante de 2014, para a partir dele tecer algumas escassas considerações sobre a teologia cristã como discurso público. A propósito da celebração dos 80 anos de vida de Frei Bento Domingues, diversas iniciativas mobilizaram uma renovada atenção para esse texto «dominical» que o Frei Bento Domingues escreve, desde 1992, no jornal "Público"– a homenagem na Fundação Calouste Gulbenkian, as novas edições em livro das suas crónicas, as diversas entrevistas que se sucederam, etc. A presença regular de uma voz explicitamente cristã na Imprensa não é caso único. É mais raro que isso aconteça num veículo que se afirma na exterioridade de qualquer conotação religiosa. Mais singular ainda é a longevidade desta crónica no seu registo próprio, enquanto discurso teológico.

Na geografia do Atlântico Norte em que vivemos, o discurso teológico conheceu particulares dificuldades. Em grande medida, as modalidades mais frequentes de construção intelectual da realidade, durante o século XX, cercaram o discurso teológico dentro dos muros do privado, empurraram-no para a banda estreita dos discursos especializados, ou abandonaram-no no terreno do marketing religioso. De facto, para muitos, a condição plural das identidades religiosas nas sociedades modernas tornava necessária a privatização da religião, arrastando o discurso teológico para o limbo da impertinência social. Mesmo algumas formas condescendentes de valorização do pluralismo religioso parecem não passar daquele plano em que se juntam à mesma mesa protagonistas diversos do campo religioso como estratégia de desanuviamento (para reduzir o potencial de conflito e não para descobrir o que nessa memória e nessa experiência se pode descobrir para construção da «cidade»).

As crónicas teológicas de Frei Bento Domingues correram sempre estes dois riscos: o de serem lidas como discursos de um «índio do interior» e o de serem catalogadas como a voz de um setor de opinião. Pedi emprestada a expressão «índio do interior» a Michel de Certeau. Ele usa esta metáfora no quadro do que apelidou de «folclorização do cristianismo». A circulação das personalidades religiosas na cena pública mediática era, para ele, um dos exemplos mais eloquentes dessa folclorização. Frequentemente, aquelas personalidades não aparecem já como especialistas de um discurso que dá testemunho de uma verdade, mas como mais uma voz no teatro as opiniões desta "commedia dell’arte" a que agora passámos a chamar sociedade da comunicação – no teatro dos "mass media", desempenhariam o papel de «índios do interior». Passariam, pois, por «estranhos interiores», cujo colorido é necessário à sociodiversidade da cena pública. O segundo risco que assinalava diz respeito a esse fenómeno de transformação da imprensa escrita em grande caixa-de-ressonância de todos os particularismos. Por vezes, quanto mais opostos melhor, uma vez que a leitura é mais fácil quando as diferenças extremam.

Ora neste contexto, o que penso mais notável no labor cronístico do Frei Bento Domingues é essa capacidade de se alimentar de uma tradição, de uma memória, de um discipulado, sem nunca perder a direção do universal. Não conheço, qualquer resultado sociométrico que me permita dizer algo de rigoroso sobre o perfil dos leitores das crónicas do Frei Bento, mas arriscaria dizer que aqui se encontrará uma das chaves da sua ampla capacidade de inscrição. Trata-se das palavras de um homem que fala a partir de um solo que julga arável: faz a apologia do Deus de Jesus Cristo, mas na demanda de um universal partilhável. Parafraseando um outro teólogo, André Fossion, a teologia enunciada pelo Frei Bento Domingues faz essa passagem da gramática do Deus que se impunha como uma necessidade, para as linguagens do Deus que se comunica como desejável.

É por isso que, em minha opinião, o discurso do Frei Bento permanece estruturalmente teológico. A crónica do Frei Bento não entrou no amplíssimo mercado contemporâneo das espiritualidades do bem-estar interior. Arriscou permanecer na inquietude do "intellectus fidei", contribuindo para uma decisiva cultura de reciprocidades: por um lado, a persistência, na sociedade portuguesa, da teologia como discurso público, participando nos debates que constroem o espaço social comum; por outro, a possibilidade de uma «opinião pública» dentro das comunidades de pertença religiosa, registo em que são chamadas a dizer as razões do acreditam. Nesta dupla via, as crónicas de Frei Bento Domingues podem ser lidas como um laboratório onde é possível descobrir a oportunidade de um discurso público que não se alimenta da defesa de particularismos religiosos, mas antes descobre, numa tradição religiosa, a força crítica necessária à construção de uma cidadania partilhada e aberta. Nas suas palavras:

«O cristianismo não se reduz a uma moral social ou política. Morrerá ao resignar-se a ser unicamente uma forma de validar religiosamente os princípios que a grande maioria aprova e pouco pratica. Demarcar-se, sem desprezar, profetizar sem condenar, definir um território original sem se fechar ao intercâmbio democrático, manter-se próximo e respeitador das vítimas, muitas vezes trágicas, do sofrimento e da injustiça, abster-se de formular uma cosmovisão global ou uma explicação totalitária, assinalar a insatisfação dos desejos e do vazio no coração da vida pessoal e da história, não como factos negativos, mas como incitamentos à criação, podem ser tarefas da teologia.»

 

Alfredo Teixeira
Faculdade de Teologia
Centro de Estudos de Religiões e Culturas
Publicado em 08.12.2014

 

 
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Mesmo algumas formas condescendentes de valorização do pluralismo religioso parecem não passar daquele plano em que se juntam à mesma mesa protagonistas diversos do campo religioso como estratégia de desanuviamento (para reduzir o potencial de conflito e não para descobrir o que nessa memória e nessa experiência se pode descobrir para construção da «cidade»)
. A crónica do Frei Bento não entrou no amplíssimo mercado contemporâneo das espiritualidades do bem-estar interior. Arriscou permanecer na inquietude do "intellectus fidei", contribuindo para uma decisiva cultura de reciprocidades
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