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A tentação é sempre uma opção entre dois amores: Peço-te, escolhe a vida

A primeira leitura do primeiro domingo da Quaresma (ano B) fala de um Deus que inventa o arco-íris, esse abraço luminoso entre Céu e Terra, que reinventa a comunhão com cada ser que vive em cada carne (cf. Génesis 9, 8-15).

O Evangelho de Marcos (1, 12-15) não refere, diferentemente do de Lucas e Mateus, o conteúdo das tentações de Jesus, mas recorda-nos o essencial: o Espírito impele-o para o deserto, e aí permanece 40 dias tentado por Satanás.

Nesse lugar simbólico Jesus joga a partida decisiva, questão de vida ou de morte. Que tipo de Messias será? Veio para ser servido ou para servir? Para ter, ascender, comandar, ou para descer, aproximar-se, oferecer?

A tentação é sempre uma escolha entre duas vidas, melhor, entre dois amores. E, sem escolher, não se vive. «Tirai as tentações e ninguém mais se salvará» (Abba António, Padre do Deserto), porque faltaria o grande jogo da liberdade. Esse que abre toda a secção da lei na Bíblia: coloco diante de ti a vida e a morte, escolhe! O primeiro de todos os mandamentos é um decreto de liberdade: escolhe! Não ficar inerte, passivo, prostrado.

E é como uma súplica que o próprio Deus se dirige ao ser humano: peço-te, escolha a vida! (Deuteronómio 30, 19). O que significa «escolha sempre o humano contra o desumano» (David Maria Turoldo), escolhe sempre o que constrói e faz crescer a tua vida e dos outros em humanidade e dignidade.

Do deserto é lançado o anúncio de Jesus, o seu sonho de vida. A primavera, nossa e de Deus, não se deixa perturbar por nenhum deserto, por nenhum abismo de pedras. Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia para proclamar o Evangelho de Deus. E dizia: o Reino de Deus está próximo, convertei-vos e acreditai no Evangelho.

O conteúdo do anúncio é o Evangelho de Deus. Deus como uma bela notícia. Não era óbvio para ninguém. Nem toda a Bíblia é Evangelho, nem toda é notícia bela e alegre; por vezes é ameaça e juízo, muitas vezes preceito e ordem. Mas a característica original do rabi de Nazaré é anunciar o Evangelho, uma palavra que conforta a vida: Deus fez-se próximo, e com Ele são possíveis Céus e Terra novos.

Jesus passa e atrás dele, nos caminhos e nas vilas, permanece um rasto dos pólenes do Evangelho, um eco no qual vibra o sabor belo e bom da alegria: é possível viver melhor, um mundo como Deus o sonha, uma história outra, e aquele rabi parece conhecer-lhe o segredo.

Convertei-vos… Como que a dizer: voltai-vos para a luz, porque a luz já aqui está. E é como o movimento contínuo do girassol, o seu orientar-se tenaz para a paciência e para a beleza da luz. Para o Deus de Jesus e o seu rosto de luz.



 

Ermes Ronchi
In Avvenire
Imagem: AlterPhoto/Bigstock.com
Publicado em 16.02.2018

 

 
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