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«Também vós quereis ir embora?»

Chegados ao final do capítulo sexto do Evangelho segundo João na proclamação nas missas de domingo (Jo 6, 60-69), somos colocados perante todo o conflito e o escândalo que as palavras de Jesus causaram não só na multidão dos judeus, como também entre os seus discípulos.

Esta crise nas relações entre Jesus e a sua comunidade é testemunhada por todos os quatro Evangelhos no momento de uma palavra decisiva de Pedro, que confessava a identidade de Jesus como Messias e como enviado pelo Pai enquanto Filho. Porquê esta crise? Porque as palavras de Jesus eram às vezes duras e feriam inclusive os ouvidos dos discípulos que o seguiam com afeto e atenção, mas não conseguiam aceitar, tomando-a como uma presunção, que Jesus tivesse descido do céu e que na carne de um corpo humano frágil e mortal narrasse o Deus vivo e verdadeiro.

No seu discurso Jesus tinha dito muitas vezes: «Eu sou o pão vivo descido do céu»; mas precisamente aqueles que o tinham aclamado como «o grande profeta que veio ao mundo» e que o tinham até proclamado rei, diante destas palavras sentem-se escandalizados na sua fé. Profeta, sim, Messias, sim, Enviado de Deus, sim, mas descido do céu e feito carne, corpo consignado e dado até à morte violenta, carne a comer e sangue a beber, isso não: são palavras que soam como uma pretensão insuportável, impossível de escutar!



A fé tropeça no dever acolher a imagem de um “Deus ao contrário”, de um “enviado divino, um Messias ao contrário”, que é frágil, pobre, débil e de quem os seres humanos podem fazer aquilo que quiserem



Jesus, que conhece estas murmurações dos discípulos, neste ponto não tem medo de dizer toda a verdade, pagando o preço de causar uma divisão entre os seus e um abandono do seu seguimento. Poderemos dizer que “ataca” os murmuradores: Isto escandaliza-vos? E quando virdes o Filho do homem subir para onde estava primeiro?. Isto é, quando estiverdes perante a realidade do Filho do homem que, através da elevação na cruz, a morte ignominiosa, subirá para Deus, de quem veio? Quando se manifestar a plena identidade daquele que desceu de Deus e que a Deus é elevado na sua humanidade assumida como condição carnal, mortal, semelhante à carne do pecado, então o escândalo será maior! Jesus faz este ataque sofrendo todo o peso da incredulidade, da não compreensão da parte daqueles que há anos estavam envolvidos com Ele e eram assíduos à sua palavra. Como é possível o comportamento deles?

É por isso que Ele não pode fazer mais a não ser constatar que ninguém pode ir até Ele se o Pai não o atrai, se não lho concede. É um dom que não é dado arbitrariamente por Deus mas deve ser procurado, deve ser acolhido como dom que não requer qualquer mérito da parte de quem o recebe. Mas também isto escandaliza as pessoas religiosas, que pretendem sempre que Deus conceda dons não só segundo os seus desejos, mas também segundo quanto mereceram e conseguiram.

O que de Deus é escandaloso é a sua humaníssima condição, o seu entregar-se numa carne frágil e num corpo mortal a carnes frágeis e corpos mortais, isto é, aos seres humanos. Como é possível que Deus se entregue num homem, «o filho de José», uma criatura humana que pode ser entregada, traída, dada em mãos aos pecadores, como acontecerá precisamente por causa de um dos doze apóstolos, Judas, um servo do diabo?



Entre os que ficam está também Judas, um dos doze, escolhido pessoalmente como discípulo de Jesus. Como é possível? Sim, é possível que na comunidade de Jesus, e também na comunidade cristã, haja quem se torne um ministro do diabo, um discípulo do diabo, e por isso mais não pode fazer do que trair



Aqui a fé tropeça no dever acolher a imagem de um “Deus ao contrário”, de um “enviado divino, um Messias ao contrário”, que é frágil, pobre, débil e de quem os seres humanos podem fazer aquilo que quiserem… É o escândalo da incarnação de Deus, padecido ao longo dos séculos por muitos cristãos, por muitas Igrejas, pelo próprio islão, e ainda hoje pelos homens religiosos que acusam de não acreditar em Deus quem acolhe do Evangelho a mensagem escandalosa de um Deus verdadeiramente homem, carne mortal, em Jesus de Nazaré. A fé cristã torna-se facilmente docetismo [negação da existência do corpo de Jesus, crendo-se somente no seu espírito] porque prefere, como todas as religiões, um Deus sempre e apenas omnipotente, um Deus que não pode tornar-se humano, como nós, em tudo exceto no pecado.

Por isso Jesus exerce pressão - «também vós quereis ir embora?» -, endereçando-se àqueles que permaneceram, poucos, na verdade. Jesus não teme, mesmo que sofra, ficar só, porque tem fé na palavra que o Pai lhe dirigiu, na promessa de Deus que não faltará. Outros podem falhar, mas Deus permanece fiel! E assim o Evangelho regista que alguns discípulos, escandalizados pelas palavras e gestos de Jesus, se vão embora. Por medo? Por convicções religiosas? Em todo o caso, por falta de fé. Tinham acolhido a vocação, tinham seguido Jesus talvez com entusiasmo, mas depois, não crescendo na adesão a Ele, tropeçaram na incompreensão das suas palavras. Consequentemente, enveredaram por um caminho de “des-vocação”, contradizendo a estrada feita até então até voltarem para trás e irem-se sembora.

Entre os que ficam está também Judas, um dos doze, escolhido pessoalmente como discípulo de Jesus. Como é possível? Sim, é possível que na comunidade de Jesus, e também na comunidade cristã, haja quem se torne um ministro do diabo, um discípulo do diabo, e por isso mais não pode fazer do que trair. E quando a relação de amor conhece a traição, para quem trai torna-se imperativo eliminar o amado, até o entregar para que seja posto fora de cena. Aquilo que os outros Evangelhos colocam na Última Ceia, João, significativamente, insere-o aqui, no anúncio da Eucaristia, dom da vida de Jesus a todos.



Assim termina o longo e não fácil discurso de Jesus sobre o pão da vida. Chegados ao fim é provável que sejam mais as coisas que não chegamos a compreender, as realidades que não conseguimos sustentar, em relação àquele que compreendemos e acolhemos



Às vezes pergunto-me porque é que na Igreja não se tem a coragem de fazer ressoar ainda hoje esta pergunta de Jesus: «Também vós quereis ir embora?»; porque é que se ensina sempre o sucesso, se olha para o número dos crentes, se realizam esforços olhando para a grandeza da comunidade cristã e não para a qualidade da fé. Somos realmente gente de pouca fé! A crise, pelo contrário, que é sempre falhanço, afastamo-la o mais possível, dissimulamo-la, calamo-la, para que não se torne evidente que por vezes perdemos, caímos, falhamos, inclusive nas nossas atividades eclesiais e comunitárias, ainda que elas se conformem à vontade de Deus.

Por outro lado, Jesus usará a imagem da poda da videira para dizer que há ramos a serem podados; determinante, porém, é que a poda seja cumprida pelo Pai, não por nós e nem mesmo por aqueles que presidem à comunidade cristã preside ou nela trabalham como operário. Por si mesmo, o Evangelho tem a força de atrair e deixar cair: basta que seja anunciado na sua verdade e com franqueza, sem ser adocicado. Sim, o Evangelho é a Palavra da vida eterna, como Pedro responde a Jesus, confessando que a fé da Igreja é a fé no "Santo de Deus", isto é, fé de que em Jesus há a “Shekinah”, a Presença de Deus. Onde está agora Deus neste mundo? Não no Santo do templo em Jerusalém, mas na humanidade feita carne e sangue de Jesus, o Filho de Deus.

Perguntando a Jesus «Senhor, a quem iremos?», Pedro exprime toda a fé dos discípulos em relação a Ele, toda a sua unicidade de Rabi, Profeta e Messias; ao mesmo tempo, chega ao verdadeiro cume da sua profissão de fé: «Acreditamos e conhecemos que Tu és o Santo de Deus». Pedro manifesta uma experiência, um conhecimento por estar durante anos com Jesus: Ele é o Santo, como o tinha definido o anjo no anúncio a Maria («aquele que irá nascer será o Santo e será chamado Filho de Deus»). Jesus é participe da santidade do próprio Deus, portanto é o Senhor, que nas Sagradas Escrituras é chamado e invocado como Santo. Mesmo na tradição joanina que conflui no livro do Apocalipse, Santo é o título de Jesus ressuscitado.

Assim termina o longo e não fácil discurso de Jesus sobre o pão da vida. Chegados ao fim é provável que sejam mais as coisas que não chegamos a compreender, as realidades que não conseguimos sustentar, em relação àquele que compreendemos e acolhemos. Talvez também nós tenhamos embatido nestas palavras, não intelectualmente, mas no acolhê-las até as vivermos existencialmente, concretamente e diariamente. Mas se, como os doze, não nos formos embora e permanecermos junto de Jesus com as nossas fragilidades, que dizem também respeito à fé, e tentemos perseverar no seu seguimento, isso será suficiente para acolher o dom gratuito e não recusá-lo ou menosprezá-lo: Jesus homem como nós, em quem «habita corporalmente toda a plenitude da vida de Deus», o próprio Deus, palavra que nos alimenta, pão da vida que recebemos na Eucaristia, no nosso caminho rumo ao Reino.


 

Enzo Bianchi
In Monasteri di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Milosz_G/Bigstock.com
Publicado em 27.08.2018

 

 
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