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Susan Sontag: A inacessibilidade e o mistério são qualidades «daquela pouca arte que permanece»

Se Borges recomendava aos seus estudantes que lessem diretamente as fontes e não se afogassem nos estudos críticos («talvez compreendeis pouco mas tirareis sempre prazer e escutareis a voz de alguém»), para Susan Sontag (1933-2004) a leitura não é só um esforço do intelecto, mas uma atividade dos sentidos. Eis o que escreve no ensaio “Contra a interpretação” (em Portugal “Contra a interpretação e outros ensaios”, Gótica, 2004): «A nossa cultura baseia-se no excesso e na sobreprodução, da qual obtém uma constante diminuição da acutilância da nossa experiência sensorial. Mas é a partir das condições dos nossos sentidos, das nossas faculdades, que se deve determinar a missão do crítico». Susan chega a falar de «erótica da leitura» e quer reabilitar a centralidade do texto literário contra a guerra das interpretações, que acaba por centrar todos os seus detalhes filológicos, acabando por empobrecer a própria obra.

Escritora, jornalista e ensaísta, viveu entre os EUA e a Europa (gostava particularmente de Paris, de tal modo que foi sepultada no cemitério de Montparnasse), Susan Sontag é conhecida antes de tudo pelas suas extraordinárias reportagens em frentes guerra, do Vietname ao conflito do Yom Kippur, entre Israel e vários países árabes, até Saravejo, nos quais denunciou sempre os horrores e as devastações de que são quase sempre vítimas os civis inocentes. “Olhando o sofrimento dos outros” é um dos seus últimos livros, lançado originalmente um ano antes da sua morte, causada por leucemia, e publicado em Portugal no ano de 2015 pela Quetzal.

Noutro volume que recolhe quatro entrevistas publicadas entre 1975 e 2002, emerge como uma constante da sua reflexão o olhar narrativo da realidade, que nunca prescinde de uma atitude ética e até espiritual. Referindo-se ao mundo dos escritores (as suas preferências iam de Shakespeare a Dickens, mas também por Canetti, Barthes e Benjamim), afirma: «Penso que a qualidade da inacessibilidade, do mistério, é importante, que aquilo que é importante não possa ser colhido numa só leitura ou num só olhar. Esta é certamente uma qualidade daquela pouca arte que permanece». E mais à frente partilha inteiramente uma observação de Henry James («nada é a minha última palavra sobre seja o que for») e comenta: «Há sempre alguma coisa mais a dizer, alguma coisa mais a sentir». A escrita é revelação e ocultação, nasce sempre sob o signo do mistério.



A máquina fotográfica eleva o fragmento a uma posição privilegiada». A função da palavra, todavia, permanece para ela essencial, num mundo que lhe perdeu o significado



A sua é também uma lição de humildade: apesar de ter desempenhado um papel importante como intelectual, Susan manifesta uma certa intolerância com aqueles que pretendem exprimir com as suas posições uma verdade absoluta e indiscutível. Em síntese, não gostava dos “maîtres-à-penser”. Por isso não tem qualquer receio de polemizar com a inteligência americana progressista, que ao tempo dos protestos do sindicato polaco Solidariedade continua a defender os regimes comunistas. E recorda os seus encontros com os escritores fugidos da repressão soviética, como Joseph Brodsky, cujo exílio é testemunha visível do horror.

São memoráveis as páginas em que Sontag «colhe com grande acutilância, a partir do fim da era da Polaroid, a mudança de olhar que a fotografia induz no homem moderno», escreve Luana Salvarini. Susan admite estar obcecada pela fotografia e releva a diferença substancial com a literatura: «Os escritores fazem mais perguntas. É difícil, para o escritor, trabalhar na ideia de que tudo pode ser interessante. Muitas pessoas vivem a sua vida como se tivessem máquinas fotográficas. Enquanto a veem não a podem dizer».

Mas o papel da imagem, explorado nos “Ensaios sobre fotografia” (Quetzal, 2012), revela todo o seu poder no caso dos conflitos: olhando as imagens de guerra dos fotojornalistas somos obrigados a interrogar-nos. É como se se desencadeasse em nós um processo de empatia. Como no caso da conhecidíssima fotografia com a estrela amarela e as mãos erguidas no gueto de Varsóvia, uma das mais emblemáticas da “Shoah”. Mais do que a palavra, até mais do que as imagens televisivas que criam habituação, as fotografias atingem-nos e obrigam-nos a fazer as contas com a realidade. Além disso, têm uma função estética. Quando Susan visita a catedral de Orvieto, fica impressionada com a sua beleza. Mas quando regressa a Nova Iorque e compra um livro de fotografias sobre a catedral consegue colher-lhe os particulares e os detalhes de forma totalmente original. E comenta: «A máquina fotográfica eleva o fragmento a uma posição privilegiada». A função da palavra, todavia, permanece para ela essencial, num mundo que lhe perdeu o significado. E aqui encontram-se as suas origens judaicas e, como revela o filho David Rieff, ao descrever os momentos da doença e da morte de Susan, a sua proximidade ao cristianismo. Mesmo sem dizer-se crente, Sontag «nutria desde longa data uma estima racional, à maneira de Wilde, pelo catolicismo. Decerto não tinha nada a ver com a “new age” ou o budismo».



 

Roberto Righetto
In Avvenire
Trad.: SNPC
Imagem: D.R.
Publicado em 07.03.2018

 

 
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