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Sonoridades errantes: revisitando José Augusto Mourão

No dia 5 de maio de 2011, depois de um corpo a corpo com a doença, falecia José Augusto Mourão, presbítero da Ordem dos Pregadores, poeta, tradutor, professor e investigador. Para além de traduções e publicações na sua área académica, o seu labor intelectual deixou-nos um legado literário singular. Refiro-me à sua poesia, geneticamente tatuada pela liturgia cristã, e ao resultado literário da sua reinvenção teológica da homilia. A sua poesia sobreviveu dispersa, e em pequenas edições, até conhecer a oportunidade do esplendor antológico que lhe foi dado na publicação patrocinada pela Editora Pedra Angular. As duas coletâneas de homilias são um contributo para a recuperação teológica e literária desse género discursivo, em língua portuguesa. A primeira data do ano 2000, a segunda reviu-a já nessa habitação de dor e comunhão, o hospital dos seus últimos dias.

O meu colega e amigo José Tolentino Mendonça, na apresentação do volume que reuniu a sua poesia, escrevia: «Não sei que fortuna será a deste livro, possivelmente o limbo, esse lugar nenhum. Ou muito me engano ou ele será olhado com desconfiança pelas máquinas censurantes de um campo e de outro, da religião e da poesia, como quem deteta um movimento anómalo». E sublinha: «o catolicismo português tem mau ouvido». Compreendo esta suspeita. A poesia contemporânea, de muitos modos, exprime essa abertura ao transcendente – uma espécie de ferida, uma brecha que abre o mundo para o indizível. Mas essa abertura, o mais das vezes, não é nomeada. O nome de Deus é, sobretudo, um silêncio. Ora, no caso de José Augusto Mourão, essa abertura tem um nome. Nesse sentido, o poema «Dicção de Deus» pode ser lido quase como o programa da sua oficina de poesia litúrgica: «que te digamos / como a flecha que reúne / e abre um horizonte sem clausura, / como o possível do mundo que se conta» (O Nome e a Forma: poesia reunida (NF), Lisboa, Pedra Angular, p. 117). Este ato de nomeação conhece dificuldades várias nos itinerários da poesia contemporânea, mas também é problemática na própria textualidade litúrgica, quando se sai fora do círculo de certa linguagem estandardizada. Por isso, a sua poesia, que inequivocamente se enraíza no chão da liturgia cristã, parece apresentar-se como um texto que «não tem lugar» nos circuitos de leitura. Eu acrescentaria, talvez por ser um texto «entre lugares».

Esse habitat orante denuncia-se nas formas – em muitos casos, explicitamente litúrgicas –, mas também nos modos de dizer. No vocativo «Deus» e no ethos da dádiva («dá»), descreve-se a mais importante reverberação poética de Deus. Tendo em conta que grande parte desta coleção poética nasceu do seu próprio ofício celebrante e do seu interesse por uma nova hinologia, capaz de estimular e acompanhar a renovação do canto litúrgico na Igreja latina, podemos dizer que esta poesia transporta o sopro da oralidade, recuperando a voz para o centro do acontecimento litúrgico cristão – com propriedade, podemos falar aqui de uma «oralitura» (oraliture), termo forjado pelo escritor crioulo Patrick Chamoiseau para designar a oralidade enquanto portadora de uma cultura. É certo que, por comodidade de catálogo, se construiu historicamente a categoria de «música sacra». Mas, como recorda Jean-Yves Hameline, se é possível identificar o sagrado na liturgia cristã, não será na música ou nos textos, mas na viva voz dos batizados no ato vocal do seu estado batismal.

Essa «oralitura» não se traduz, no ofício hinológico de José Augusto Mourão, numa simplificação lexical ou no imediatismo dos recursos estilísticos. Essa oralidade deixa-se transportar na respiração comunitária dos textos. A forma própria de dizer esta poesia dispensa, com frequência, o protagonismo do «diseur», exige antes uma comunhão vocal. Por isso, podemos falar de «sonoridades» de Deus – «errantes», pela teologia que nelas se descobre: «Deus, loucura do mundo, / adoração e vertigem dos que procuram a tua face / através das coisas visíveis / dá à nossa vida o encanto dos descobrimentos / e a sabedoria das margens / de onde te chama o nosso desejo / e a nossa viagem a caminho do teu Nome» (NF, p. 73).

José Augusto Mourão luta com as palavras para que o dizer litúrgico não seja a clausura de Deus. Assim, a linguagem que persegue apela tanto às figuras da confiança numa presença pascal, como à fragilidade do que apenas se entrevê: «pense-nos o teu lado, / as feridas abertas do imaginário sem freio, / pastor que guardas a porção de terra / apenas entrevista, / junta ao nosso passo a tua bênção, / a tua misericórdia e a tua água» (NF, p. 94). Nessa perspetiva o tempo é intervalo: «tu que és a graça e o rigor / das linhas desenhadas, / a onda que regressa e que advém / neste intervalo de terra prometida / e de deserto» (NF, p. 114).

Do seu labor literário e ensaístico fica também uma palavra crítica perante as estratégicas e as táticas que fecham a liturgia cristã ao desejo. Quando tudo se torna produção – visível, explicável, eficaz, relação de forças – a liturgia perde a capacidade de seduzir. Tudo é literalmente dito, ou seja, tudo é acumulação e clonagem.

 

José Augusto Mourão (2009) – O Nome e a Forma: poesia reunida. Lisboa: Pedra Angular (= NF).
___ (2000) – A Palavra e o Espelho, Lisboa: Paulinas.
___ (2011) – Quem vigia o tempo não semeia, Lisboa: Pedra Angular.

 

Alfredo Teixeira
Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
© SNPC | 13.05.14

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José Augusto Mourão
Foto: D.R.

 

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