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Sobretudo um pastor: Prémio Nobel da Paz comenta quatro anos de Francisco

Sobretudo um pastor: Prémio Nobel da Paz comenta quatro anos de Francisco

Imagem DmyTo/Bigstock.com

Quando penso no papa Bergoglio penso sobretudo num pastor. Um pastor universal que sabe estar próximo dos povos, que sabe interpretar os seus olhares e que os acompanha nas suas alegrias, tristezas e preocupações. Um pastor que além disso abriu horizontes de comunicação constante com o seu povo e soube interpretar as mudanças da humanidade. Uma humanidade em que não há sociedades estáticas, mas são todas dinâmicas, e nem todos sabem fazer uma leitura adequada destas mudanças no pensamento, na cultura, na política e na esfera espiritual. Não é que a espiritualidade tenha desaparecido, são as sociedades atuais a não deixar espaço, e isto reflete-se na vida diária das pessoas - que sofrem continuamente a atenção mórbida dos meios de comunicação -, que coloca o acento na sobrevivência, nas necessidades mais imediatas. Por isso muitas vezes a vida espiritual, a oração e sobretudo a comunicação com Deus tornam-se difíceis. Como se pode recuperar a mensagem do Evangelho e a vida diária? Creio que Francisco o está a fazer de tal maneira que faz compreender às pessoas não só as suas preocupações, mas também as do próximo.

Neste contexto de sobrevivência chegou Francisco, num momento muito particular da nossa história em que existiam, e ainda existem, muitos problemas a nível mundial. E trouxe consigo um outro olhar sobre esses problemas, o que constitui sem dúvida uma novidade. É um olhar que parte da América Latina, das comunidades religiosas, do caminho dos povos. E que, além disso, compreende a Igreja como povos de Deus, ou seja, não tanto como uma estrutura piramidal, rígida, mas como uma comunidade de irmãos e irmãs. O que lhe permite abrir ecumenicamente o seu olhar a outras crenças, a outros modos de entender a espiritual. Sempre o fez, ainda antes de ser papa, e agora está a aprofundá-lo. Esta relação inter-religiosa baseia-se em factos concretos da vida. Como demonstrou, ao ir a Lesbos, onde visitou os refugiados e declarou, com uma metáfora eficaz, que o mar Mediterrâneo se tornou uma vala comum. Essa visita foi acompanhada por um gesto ecuménico concreto de misericórdia: levou consigo, na sua viagem de regresso ao Vaticano, várias famílias de refugiados. É um dos muitos exemplos da coerência entre o que diz e o que faz, e precisamente por isso a sua voz é escutada no mundo, porque é credível. Francisco presta atenção particular aos mais pobres, como demonstrou ao fazer construir banhos e chuveiros para os sem-abrigo nas imediações da Praça de S. Pedro, e todos podem vê-los ao passar por lá.



Outro aspeto importante de Francisco é a sua alegria. Eu digo muitas vezes aos meus companheiros e companheiras: «Se um militante está amargurado, não é um militante, é um amargurado. Porque um militante deve ter sempre a esperança, que é o impulso para andar em frente mesmo se em algumas coisas somos derrotados. Devemos transformar essa derrota para poder avançar e construir. Tudo isso pode fazer-se com espírito de alegria, que é o de Francisco, uma alegria espiritual»



O seu olhar é mais profundo do que o de um estadista, vai além, e por isso insisto em dizer que Francisco é um pastor que está sempre próximo do seu rebanho, da comunidade, dos povos. E que ainda se distingue pela sua grande consciência política das mudanças, porque adota posições concretas para encontrar caminhos que restabeleçam o equilíbrio entre os seres humanos e a criação, da qual somos parte, e não donos. Como é claramente patente na "Laudato si'", uma encíclica social dirigida à consciência de todos os homens e mulheres. Mesmo o nome, Francisco, não foi escolhido ao acaso, mas é um sinal dessa sensibilidade, dado que Bergoglio, com o seu caminho, está a apontar para o Cântico das Criaturas de S: Francisco, o canto da vida para os outros, a pobreza e a misericórdia. Caminho que não é fácil porque Francisco é servidor a partir do Evangelho da vida, servidor dos outros, de quem tem menos, e esta relação de abertura para ser servidor e não chefe estabeleceu-se quando foi eleito papa e não foi logo abençoar o povo mas pediu ao povo para o abençoar. Acredito que está a sacudir muitas estruturas. Como dizia João XXIII, «é preciso abrir portas e janelas para fazer sair o pó e deixar entrar a luz».

Outro aspeto importante de Francisco é a sua alegria. Eu digo muitas vezes aos meus companheiros e companheiras: «Se um militante está amargurado, não é um militante, é um amargurado. Porque um militante deve ter sempre a esperança, que é o impulso para andar em frente mesmo se em algumas coisas somos derrotados. Devemos transformar essa derrota para poder avançar e construir. Tudo isso pode fazer-se com espírito de alegria, que é o de Francisco, uma alegria espiritual».

A este propósito vem à minha mente um jesuíta que muito estudei, Pierre Teilhard de Chardin. Era paleontólogo, esteve entre aqueles que descobriram "o homem de Pequim", e quando Mao tomou o poder, perseguiu-o. Ele, na sua oração na China, dizia: «Senhor, não tenho pão nem vinho, mas ofereço-te a dor e a alegria de todos os homens». Creio que esta é uma outra visão da espiritualidade, e em Francisco há algo desta visão, parece sentir a dor da humanidade. Mas acredito também que haja sempre uma esperança, e se há esperança há uma oportunidade de mudar, mudar é possível. Porque o objetivo da mensagem do Evangelho não é a morte de Jesus, mas a sua ressurreição. É a esperança da vida, aquela que nos diz: «Este é o caminho».



 

Adolfo Pérez Esquivel
Prémio Nobel da Paz 1980
In "L'Osservatore Romano", 13.3.2017
Trad.: SNPC
Publicado em 14.03.2017

 

 
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