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Só compreendemos Deus se aprendermos a ouvi-lo desde o seu silêncio, escreve Bento XVI

Só compreendemos Deus se aprendermos a ouvi-lo desde o seu silêncio, escreve Bento XVI

Imagem Bento XVI | D.R.

«O que é que significa: ouvir o silêncio de Jesus e conhecê-lo através do seu silêncio? Sabemos dos Evangelhos que Jesus passava frequentemente noites sozinho "na montanha" em oração, em conversação com o seu Pai. Sabemos que o seu discurso, a sua Palavra, vem do silêncio e só nele pode amadurecer. Por isso é lógico pensar que a sua Palavra só pode ser corretamente compreendida se nós, também, entrarmos no seu silêncio, se aprendermos a ouvi-la a partir do seu silêncio.»

Termina com estas palavras o primeiro parágrafo do prefácio (ou posfácio, segundo o país) que o papa emérito Bento XVI escreve para uma futura edição do livro "A força do silêncio - Contra a ditadura do barulho", do cardeal Robert Sarah, que em Portugal foi lançado em abril pela Lucerna, chancela da Principia (272 págs., 19,95 €).

Na última oração do "Angelus" a que presidiu como papa, a 24 de fevereiro de 2013, afirmou: «O Senhor chama-me a "subir ao monte", a dedicar-me ainda mais à oração». O texto agora revelado pela página "First Things" é uma «reflexão vertiginosa sobre o silêncio como horizonte e condição da linguagem, espaço interior para acolher Deus e a sua palavra», lê-se no jornal "Corriere della Sera".

O texto de Bento XVI, datado da «Semana da Páscoa 2017», começa nestes termos: «Desde que li pela primeira vez as Cartas de Santo Inácio de Antioquia, na década de 50, uma passagem da sua Carta aos Efésios tocou-me particularmente: "«E melhor manter silêncio e ser [um cristão] do que falar e não ser. Ensinar é coisa excelente, desde que o orador pratique o que ensine"».



«Com a liturgia, tal como na interpretação da Sagrada Escritura, é verdade é preciso conhecimento especializado». Mas também ela pode passar ao lado do essencial, «a não ser que esteja enraizada numa união interior profunda com a Igreja orante, que uma e outra vez aprende renovadamente do próprio Senhor o que é a adoração»



«Decerto que, para interpretar as palavras de Jesus, é necessário conhecimento histórico, que nos ensina a entender a época e a linguagem desse tempo. Mas só isso não é suficiente se queremos mesmo compreender a mensagem do Senhor em profundidade. Qualquer pessoa que hoje leia os cada vez mais grossos comentários sobre os Evangelhos fica desapontado no fim. Ela aprende muita coisa útil sobre esses tempos e muitas hipóteses que, no fim de contas, em nada contribuem para uma compreensão do texto. No fim fica-se com a sensação de que em todo esse excesso de palavras falta algo de essencial: entrar no silêncio de Jesus, do qual nasceu a sua Palavra. Se não conseguirmos entrar no seu silêncio, ouviremos sempre a Palavra apenas na sua superfície, e por isso não a compreenderemos verdadeiramente», sublinha.

O livro é constituído pelo diálogo entre o cardeal guineense Robert Sarah, de 71 anos, e Nicolas Diat, seguindo-se uma conversa de ambos com D. Dysmas de Lassus, prior da Grande Cartuxa e prior geral da Ordem dos Cartuxos.

Em resposta a uma pergunta, o prelado afirma: «Na minha oração e na minha vida interior, senti sempre a necessidade de um silêncio cada vez mais profundo e completo. (...) Os dias de solidão, silêncio e jejum absoluto têm sido um grande apoio. Têm sido uma graça sem precedentes, uma lenta purificação e um encontro pessoal com (...) Deus. (...) Dias de solidão, silêncio e jejum, alimentados só pela Palavra de Deus, permitem ao homem assentar a sua vida no que é essencial», cita Bento XVI.

«A partir do seu ponto de vista, ele [cardeal Sarah] pode então ver os perigos que continuamente ameaçam a vida espiritual, também de padres e bispos, e assim põem em perigo a própria Igreja, na qual não é raro a Palavra ser substituída por uma verbosidade que dilui as grandezas da Palavra. Gostava de citar apenas uma frase que se pode tornar num exame de consciência para cada bispo: "Pode acontecer que um bom e piedoso padre, quando é elevado à dignidade episcopal, caia rapidamente na mediocridade e numa preocupação pelo sucesso mundano. Esmagado pelo peso dos seus deveres que incumbem sobre ele, preocupado com o seu poder, a sua autoridade e as necessidades materiais do seu gabinete, gradualmente fica sem forças», refere o papa emérito.

A terminar, Bento XVI salienta que os católicos «devem estar gratos ao papa Francisco por ter nomeado um tal professor espiritual à cabeça da congregação responsável pela celebração da liturgia na Igreja. Com a liturgia, igualmente, tal como na interpretação da Sagrada Escritura, é verdade é preciso conhecimento especializado». Mas também ela pode passar ao lado do essencial, «a não ser que esteja enraizada numa união interior profunda com a Igreja orante, que uma e outra vez aprende renovadamente do próprio Senhor o que é a adoração. Com o cardeal Sarah, um mestre do silêncio e da oração interior, a liturgia está em boas mãos».



 

Fonte: First Things
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 19.05.2017

 

 

 
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