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Sínodo: Paradigmas juvenis e não só

Quanto mais se aproxima o sínodo dos bispos, que decorrerá no Vaticano a partir desta quarta-feira, 3 de outubro, mais se multiplica o florescimento dos textos dedicados ao tema que será discutido, isto é, a atual tipologia juvenil. Por vezes trata-se de análises setoriais específicas (triunfa a atenção à infosfera em que os jovens vivem, muitas vezes ignorando ou colocando entre parêntesis o mundo real), outras vezes estamos na presença de olhares panorâmicos de conjunto. Não raro tem-se a impressão de ler mapas elaborados por especialistas que detalham fenómenos inserindo-os nos seus algoritmos sociológicos sem se sujarem demasiadamente no descer diretamente à realidade para verificarem concretamente territórios algo repelentes ou, em todo o caso, demasiado móveis e estranhos. Queríamos também avizinharmo-nos do umbral deste horizonte, conscientes de que arriscamos a reedição de estereótipos já amplamente declinados por outros.

Desta vez não entraremos no âmbito que nos é específico, o religioso. Mas – no seguimento dos testemunhos oferecidos pelo “Átrio dos Estudantes” desenvolvidos no quadro do “Átrio dos Gentios”, ou seja, no diálogo entre crentes e não crentes – proporemos algumas notas em torno de dois nós gerais, o modelo antropológico que se está a configurar e as novas coordenadas das relações sociais. São apenas esquemas temáticos que, por outro lado, tocam também a fenomenologia dos próprios adultos. É óbvio que a questão antropológica é complexa, tendo em conta o facto de que não há sequer um conceito partilhado de “natureza humana” (as teorias do “género”, tão abundantes em relação ao passado, são um emblema disso).



Na cultura clássica, o verdadeiro é objetivo, precede-nos e excede-nos, até ao ponto de ser identificado com a eternidade e o infinito divinos nas várias teologias. A tarefa da pessoa é a procura da verdade, fazendo-a própria, isto é, subjetiva. Diferente é a atitude contemporânea



Apontamos, então, apenas o fenómeno do eu fragmentado, ligado ao primado das emoções, àquilo que é mais imediato e gratificante, à acumulação linear de coisas mais do que o aprofundamento dos significados. A sociedade, com efeito, procura substituir todas as necessidades mas extingue os grandes desejos e evita os projetos de grande alcance, criando assim um estado de frustração e sobretudo a desconfiança num futuro. A vida pessoal é saciada por consumos, e no entanto é vazia, descolorida e por vezes até espiritualmente extinta. Floresce, assim, o narcisismo, ou seja, a autorreferencialidade que tem vários símbolos, como a “selfie”, os auscultadores, o “bando” homologado, a discoteca ou a exterioridade corpórea. Mas há também a deriva antitética da rejeição radical expressa através do protesto de si mesmo, a agressão (“bullying”) brutal ou a violência verbal e icónica das redes sociais, ou a indiferença generalizada face à caída na toxicodependência ou com os suicídios em idade jovem.

Configura-se, assim, um novo tipo de sociedade. Para tentar uma exemplificação significativa deste segundo aspeto da nossa análise – reportando á infindável documentação sociológica continuamente elaborada – propomos uma síntese através de uma frase do filósofo Paul Ricoeur: «Vivemos num tempo em que à bulimia dos meios corresponde a atrofia dos fins». Domina, com efeito, o primado do instrumento relativamente ao significado, sobretudo se último e global. Pensemos na prevalência da técnica (a denominada “tecnocracia”) sobre a ciência; ou no domínio da finança sobre a economia; no aumento de capital mais do que no investimento produtivo e laboral; no excesso de especialização e na ausência de sínteses, em todos os campos do saber, incluindo a teologia; na mera gestão do Estado em relação ao verdadeiro projeto político; na instrumentalização virtual da comunicação que substitui o encontro pessoal; na redução das relações à mera sexualidade que marginaliza e no fim suprime o eros e o amor; no excesso religioso devocional que debilita em vez de alimentar a fé autêntica, e assim por diante.

Um exemplo emblemático “social”, no sentido das redes sociais, é manifestado por uma expressão desde há tempos formalizada, «não há factos, só interpretações», que envolve um tema fundamental como o da “verdade” (e também da “natureza humana”). Como é sabido, na cultura clássica, o verdadeiro é objetivo, precede-nos e excede-nos, até ao ponto de ser identificado com a eternidade e o infinito divinos nas várias teologias («Eu sou o caminho, a verdade, a vida», proclama Cristo). A tarefa da pessoa é a procura da verdade, fazendo-a própria, isto é, subjetiva. Diferente é a atitude contemporânea.



«O que poderia ser um mundo ou simplesmente uma democracia em que se aceita a regra de que não há factos, mas apenas interpretações?». Sobretudo quando as “fake news” são fruto de uma manobra enganadora ramificada ao longo das artérias virtuais da rede informática?



O filósofo Maurizio Ferraris comentava: «Frase poderosa e prometedora esta sobre o primado da interpretação, porque oferece como prémio a mais bela das ilusões: a de se ter sempre razão, independentemente de qualquer desmentido». Pense-se no facto de que agora os políticos mais poderosos empunham sem hesitação as suas interpretações e pós-verdades como instrumentos de governo, fazendo-as proliferar de tal maneira que as tornam aparentemente “verdadeiras”. Ferraris concluía: «O que poderia ser um mundo ou simplesmente uma democracia em que se aceita a regra de que não há factos, mas apenas interpretações?». Sobretudo quando as “fake news” são fruto de uma manobra enganadora ramificada ao longo das artérias virtuais da rede informática?

Muitos outros são os temas que se entretecem na experiência contemporânea não só juvenil mas comum a todos. Pensamos nos problemas colocados pela ecologia e pela sustentabilidade (veja-se a “Laudato si’”), perante os quais os jovens são particularmente sensíveis, ou a citada submissão da economia à finança que cria a acumulação enorme de capitais mas também a sua fragilidade “virtual”, gerando assim crises sociais graves e, em relação, a praga do desemprego ou do subemprego mal pago. Pensemos igualmente em temas mais específicos como o nexo entre estética e cultura, em particular a relevância das novas linguagens musicais para os jovens, e assim por diante.

O importante é, no entanto, sublinhar que a atenção às mudanças de paradigmas socioculturais nunca deve ser um ato de mera execração nem a tentação de retirar-se para oásis protegidos, remontando nostalgicamente a um passado mitificado. O mundo em que agora vivemos é rico de fermentos e de desafios dirigidos à cultura e à própria fé, mas é também dotado de grandes recursos humanos e espirituais dos quais os jovens são muitas vezes portadores: basta apenas citar a solidariedade vivida, o voluntariado, o universalismo, o anseio de liberdade, a vitória sobre muitas doenças, o progresso extraordinário da ciência, a autenticidade testemunhal pedida pelos jovens às religiões e à política e assim por diante. Mas este é um outro capítulo muito importante a escrever em paralelo a este agora esboçado e que está fora da perspetiva limitada que escolhemos. Ele deverá compreender necessariamente também o horizonte religioso que se tem de confrontar com um fenómeno dominante como é o da secularização, tema que merece um tratamento específico.


 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
Fonte: Átrio dos Gentios
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Goodluz/Bigstock.com
Publicado em 02.10.2018

 

 

 
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