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Sínodo: O olhar do prior de Taizé sobre os desafios do encontro

O Ir. Alois, prior da comunidade ecuménica de Taizé, é um dos convidados do papa Francisco para o sínodo sobre os jovens, a fé e o discernimento vocacional que começa esta quarta-feira, 3 de outubro, no Vaticano. É a terceira vez que assiste a um sínodo dos bispos e participa nos debates. A sua experiência, os seus debates e encontros com os milhares de jovens que se retiram anualmente na colina da localidade francesa permitem-lhe oferecer um testemunho refletido e judicioso sobre alguns dos temas em discussão durante a assembleia.

 

Escuta e acolhimento

Os jovens, consultados sobre as suas expetativas antes do sínodo apontaram unanimemente a necessidade se sentirem escutados e acolhidos pela Igreja. As diferentes conferências episcopais que participaram nas reflexões pré-sinodais afirmam que os jovens desejam uma Igreja «menos institucional e mais relacional», capaz de «acolher, sem julgar, antecipadamente», uma Igreja «amiga e próxima», uma comunidade eclesial que seja «uma família onde se sente acolhido, escutado, protegido e integrado».

O Ir. Alois sublinha que esta dimensão fraterna não deve ser uma opção entre os cristãos. Os irmãos da comunidade levam a sério viver concretamente esses valores com os jovens que os visitam: «Em Taizé os jovens descobrem um espaço onde a benevolência e a confiança são possíveis. Uma sociedade sem perdão não pode sobreviver: sem perdão não há futuro porque apenas reinam a suspeita e a desconfiança».

 

Testemunho e transmissão

Um dos principais assuntos em debate centra-se na dimensão missionária do cristianismo, tema que a Igreja católica em todo o mundo sublinha anualmente em outubro e que, em Portugal, estará em destaque durante os próximos 12 meses, com o Ano Missionário.

Para o Ir. Alois, «o dizer já não chega. A missão faz-se por contágio, e já não só pelas palavras. É preciso encorajar o contacto pessoal que permite a escuta».

Esta recomendação ecoa o que procuram os jovens na sua busca de sentido e na sua busca espiritual. Trezentos jovens de todo o mundo estiveram reunidos em Roma, em março, no contexto de um “pré-sínodo dos jovens». Nessa ocasião foi mencionado que «os jovens querem testemunhas autênticas, homens e mulheres que deem uma imagem viva e dinâmica da sua fé e da sua relação com Jesus, pessoas que encorajem as outras a aproximar-se, encontrar-se e apaixonar-se por Jesus».

 

Vocação

Casamento, vida religiosa… Hoje a maioria dos jovens não se reconhecem nestas propostas, que são muitas vezes consideradas como as únicas pistas que a Igreja apresenta aos jovens para se realizarem na sua vocação. O documento preparatório do sínodo reafirma que o conceito de vocação se relaciona com a felicidade que Cristo dirige a cada pessoa.

O Ir. Alois partilha esta visão: «Sente-se sempre que os jovens têm um grande desejo: a sede de um amor para sempre» que ultrapasse «as numerosas separações a que os jovens assistem, nas famílias, mas também na Igreja».

A resposta ao apelo vocacional de cada jovem ancora-se na escolha renovada de seguir Cristo, qualquer que seja a forma que esse compromisso assuma. «Cabe-nos mostrar-lhes que o “sim” é possível, mesmo nas nossas próprias fragilidades, se eles se apoiaram constantemente no “Sim” de Deus, a fim de que ousem guardar o gosto desse compromisso para toda a vida. A possibilidade de regressar ao “Sim” de Deus, mesmo após os nossos fracassos, as nossas faltas, pode fazer cair os medos do apelo [chamamento de Deus]», observa.

 

Acompanhamento e discernimento

Ajudar cada jovem a encontrar uma resposta individual à questão da sua vocação exige um investimento particular da Igreja para acompanhar os jovens e servir-lhes de orientação no seu caminho. Como lembra o documento preparatório, «o acompanhamento das jovens gerações não é um dever opcional na educação e evangelização dos jovens, mas um dever para a Igreja e um direito para cada jovem».

O Ir. Alois destaca igualmente a necessidade de todo o “sim” a Cristo seja acompanhado. A Igreja deve por isso encontrar formas novas de acompanhamento de todas as etapas da vida, que não se resumem ao seminário ou à preparação para o casamento. Finalmente, como fazer frutificar o sim à graça batismal?».

«Estamos impressionados pelos pedidos de acompanhamento, especialmente durante os retiros em silêncio, que requerem da parte dos irmãos uma escuta muito profunda», assinala.

 

Novas tecnologias

Os trabalhos preparatórios do sínodo deram um grande espaço às novas tecnologias. Elas fazem parte da vida dos jovens e são um lugar de nova evangelização. Todavia, elas são igualmente espaços de grande perigo para os jovens, como sublinha o documento de trabalho: «O “ecrã” representa também um território de solidão, de manipulação, de exploração e de violência».

Em Taizé não se encontram ecrãs nem sistemas aperfeiçoados de som. As novas tecnologias parecem ser uma realidade longínqua do espaço, que no entanto está repleto de jovens modernos e ligados. O Ir. Alois sublinha que «a ausência de ecrãs permite aos jovens dar-se conta com naturalidade da beleza da relação com os outros, dá-lhes o gosto do encontro. Isso ocorre especialmente através dos serviços que os jovens são levados a realizar quando vêm a Taizé: distribuição das refeições, lavagem da loiça…».

Como é que se consegue distanciar estes jovens hiperligados das redes sociais e de outros equipamentos digitais que estão no coração das suas vidas? O Ir. Alois explica-o antes de tudo por um desejo de simplificar o modo de vida e por causa dos limitados recursos financeiros: «Se as novas tecnologias estão pouco presentes, é porque propomos aos peregrinos viver o mais simplesmente possível para que a sua contribuição financeira seja a mais modesta possível». Simplicidade e pobreza formam o quotidiano da comunidade e permitem aos irmãos colocar o contacto fraterno no coração das suas vidas. É por isso com toda a naturalidade que os jovens em visita à colina adotem essa filosofia, profundamente cristã.

 

Ecumenismo e unidade dos cristãos

Num tempo em que os jovens têm acesso, pelas suas leituras, viagens e encontros a uma descoberta de pluralidades religiosos, a maioria das pessoas de 18-29 anos em procura espiritual não se volta para a Igreja católica. A comunidade de Taizé é ecuménica e os jovens que se congregam na beleza das orações provêm de horizontes muito variados.

O Ir. Alois faz essa experiência todos os dias: «Os jovens não nos colocam em primeiro lugar questões confessionais. As suas interrogações são muito mais fundamentais e tocam na possibilidade de crer hoje. Nós damos graças pela possibilidade que nos é dada em Taizé de orar diariamente juntos e de viver regularmente a hospitalidade eucarística».

Como escreveu o papa Francisco: o Espírito Santo «suscita uma grande riqueza diversificada de dons e ao mesmo tempo constrói uma unidade que nunca é uniformidade, mas uma harmonia multiforme que atrai».



 

Anne Thibout
Fonte: Église catholique en France
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 08.10.2018

 

 
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