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Sínodo: Dar a volta a uma Igreja em «débito de escuta»

«Comprometamo-nos por isso (…) a fazer sair deste sínodo não só um documento – que geralmente é lido por poucos e criticado por muitos –, mas sobretudo propósitos pastorais concretos.» Foi assim que o papa abriu esta quarta-feira à tarde, no Vaticano, a primeira congregação geral da 25.ª assembleia geral ordinária do sínodo dos bispos, sobre “jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Perante os 267 padres sinodais que terminarão os trabalhos a 28 de outubro, Francisco agradeceu antes de tudo aos jovens «por terem querido apostar que vale a pena sentir-se parte da Igreja ou entrar em diálogo com ela».

Vale a pena, prosseguiu, tê-la «como mãe, como mestra, como casa, como família, capaz, apesar das fragilidades humanas e as dificuldades, de brilhar e transmitir a perene mensagem de Cristo». «A nossa responsabilidade aqui, no sínodo, é de não os desmentir, antes, demonstrar que têm razão em apostar.»

O papa recordou aos presentes o que é e como pode decorrer o sínodo. Primeiro: é «viver um momento de partilha», onde «à coragem de falar deve corresponder a humildade do escutar». O sínodo «deve ser um exercício de diálogo, primeiro que tudo entre quantos nele participam», pelo que é preciso «acolher e compreender os outros», assim como «mudar as nossas convicções e posições», sinal «de grande maturidade humana e espiritual».

A seguir sublinhou que o sínodo é «um exercício eclesial de discernimento». Com efeito, apontou, «o discernimento não é um slogan publicitário, não é uma técnica organizativa, e muito menos uma moda deste pontificado, mas uma atitude interior que se radica num ato de fé».



O sínodo «tem a oportunidade, a tarefa e o dever de ser sinal da Igreja que se coloca verdadeiramente à escuta, que se deixa interpelar pelas instâncias daqueles que encontra, que não tem sempre uma resposta pré-confecionada já pronta». Chegar a este fim significa «sair de preconceitos e estereótipos relativamente ao mundo juvenil»



Esta certeza funda-se na «convicção de que Deus opera na história do mundo, nos acontecimentos da vida, nas pessoas que encontro e que me falam. Por isso somos chamados a colocarmo-nos à escuta daquilo que o Espírito nos sugere, com modalidades e em direções muitas vezes imprevisíveis».

E porque a atenção à interioridade é a «chave para realizar o percurso do reconhecer, interpretar e optar», o papa determinou que durante os trabalhos se observe um momento de silêncio de cerca de três minutos a cada cinco intervenções. E se se quer ser sinal de uma Igreja «em escuta e a caminho», a atitude da escuta não poderá limitar-se às palavras que se trocarão durante os trabalhos.

A preparação para o sínodo «evidenciou uma Igreja em débito de escuta inclusive em relação aos jovens, que muitas vezes não se sentem compreendidos na sua originalidade e portanto não acolhidos por aquilo que são verdadeiramente e por vezes até repelidos por parte da Igreja», assinalou Francisco.

Por isso, o sínodo «tem a oportunidade, a tarefa e o dever de ser sinal da Igreja que se coloca verdadeiramente à escuta, que se deixa interpelar pelas instâncias daqueles que encontra, que não tem sempre uma resposta pré-confecionada já pronta». Chegar a este fim significa «sair de preconceitos e estereótipos relativamente ao mundo juvenil» e deixar de o «descarregar, fechá-lo em reservas isoladas ou esnobá-lo».

Para o papa é preciso, por um lado, superar com decisão a chaga do clericalismo, «perversão e raiz de muitos males da Igreja de que temos de pedir perdão»: porque a escuta e a saída dos estereótipos são também um poderoso antídoto contra o risco do clericalismo, a que uma assembleia como a sinodal está inevitavelmente exposta, para além das intenções de cada participante. Por outro lado é preciso «curar o vírus da autossuficiência».

E se «gerar esperança, criar um imaginário positivo que ilumine as mentes e inspire aos jovens a visão de um futuro repleto da alegria do Evangelho» é o fim, para Francisco é preciso «não deixar-se tentar pelas “profecias da desgraça”, não gastar energias para contabilizar falhanços ou remoer amarguras», mas «ter fixo olhar no bem que muitas vezes não faz ruído, não é tema dos blogues nem chega às primeiras páginas», e nem sequer ficar atemorizado «perante as feridas da carne de Cristo, sempre infligidas pelo pecado, e não raro pelos filhos da Igreja».


 

Stefania Falasca
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Masson/Bigstock.com
Publicado em 04.10.2018

 

 
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