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Leitura: "Simone Weil - Mística de fronteira"

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Leitura: "Simone Weil - Mística de fronteira"

"Simone Weil - Mística de fronteira", segundo volume da nova coleção "Feminino plural", da Paulinas Editora, traça o perfil de uma mulher que viveu «uma experiência claramente cristã, embora não institucionalizada, aberta à pluralidade e em diálogo não só com o ateísmo e o agnosticismo do seu ambiente e do seu tempo, mas também com outras tradições religiosas e com diversas áreas do saber para além da filosofia, como a literatura, a teologia e a psicologia».

A teóloga brasileira Maria Clara Bingemer evoca em Simone Weil a «testemunha privilegiada da fé e da vida no sentido de busca permanente da justiça, da misericórdia e da solidariedade», que «viveu transportada pela utopia, a sua força e o seu sustento». 

 

Prefácio
Maria José Vaz Pinto
In "Simone Weil - Mística de fronteira"

Testemunha da experiência de Deus no chamado «século sem Deus», a vida de Simone Weil foi «uma tentativa dolorosa e, ao mesmo tempo, subversiva de salvar a dialética entre cultura e santidade, encaminhando-a para uma dialógica e encontrando na “santa loucura” um caminho de pulsão de vida para o mundo». Nestas linhas introdutórias, esboçam-se as traves mestras que irão articular os principais capítulos desta obra. Sendo a «procura da verdade» e a «preocupação pelos que sofrem» as tónicas dominantes na existência de Simone Weil (1909-1943), todos os biógrafos salientam a unidade subjacente nas múltiplas ver tentes e diversos momentos do seu percurso.

«Procurar a verdade com a alma inteira» era a máxima platónica que inspirava o trabalho de Alain com os seus discípulos, no Liceu Henri IV, em Paris, e que determinou os primeiros contactos de Simone com a filosofia. A busca da verdade norteou sempre os seus esforços e a «necessidade da verdade» ("le besoin de la vérité") foi enunciada como a mais sagrada das «necessidades da alma» ("besoins de l’âme"), em "L’Enracinement" (última obra de Simone, redigida em 1943). A sua vocação – o amor da verdade aliado ao desejo de compreender – manifesta-se, passo a passo, ao longo das etapas do seu pensamento e da sua vida.

André Devaux, no prefácio à edição crítica das obras completas de Simone, sublinha a dita unidade de percurso nestes termos: «Esta edição [...] porá em evidência a inegável evolução do pensamento de Simone Weil, tanto no plano filosófico e religioso como no plano social e político. Mas essa evolução constitui sobretudo um constante aprofundamento, pondo no seu justo lugar os elementos novos que uma incansável e indivisível experiência de pensamento e de ação a levava a integrar na sua visão do mundo e na sua conceção do homem. Assim, o termo “conversão”, entendido como modificação radical de orientação, não tem qualquer sentido no seu caso: se procurarmos o fim condutor do seu itinerário pessoal, não podemos deixar de o ver no seu amor cada vez mais exigente e imperioso da verdade, filosoficamente reconhecida como una e universal, mas captável sob ângulos e níveis diferentes se bem que complementares».

A busca de coerência é, simultaneamente, exigência de autenticidade: «Simone Weil irrompe numa das décadas mais devastadoras do século passado, munida unicamente da sua inteligência e de uma terrível autenticidade. Escolhera para si duas disposições de espírito a que procurou ser fiel, com uma ardente, combativa e inabitual intransigência: primeiro, sentia que devia adequar todos os detalhes da sua vida à sua forma de pensar, apresentando-se indisponível para fazer cedências ao pragmatismo ou ao cinismo tidos por inevitáveis; segundo, sabia que o exercício do seu pensamento (leia-se, o exercício de si mesma) a colocava perante uma representação da verdade, cujas consequências ela que ria abraçar incondicionalmente, hipotecando-lhe tudo. Foi literalmente assim que viveu» (José Tolentino Mendonça, Revista Expresso, 10/12/2014).

O que se destaca no perfil de Simone para fazer dela uma «menina fora do comum»? Em primeiro lugar, a precocidade da sua inteligência e a enorme abrangência dos seus interesses; em segundo lugar, «a compaixão pelo sofrimento humano, a solidariedade e um desapego até ao esquecimento de si foram uma realidade sempre presente».

Na «autobiografia espiritual» (Carta ao P. Perrin, maio de 1942, nas vésperas de partir de Marselha com destino aos Estados Unidos), Simone foca alguns pontos nucleares que irão ser abordados nos capítulos centrais deste livro de Maria Clara Bingemer, nomeadamente no que respeita à defesa dos oprimidos e à progressão da sua experiência de Deus. Relevaria, para já, o seu apaixonado desejo «de acesso a esse reino transcendente em que entram apenas os homens autenticamente grandes e onde habita a verdade», e a certeza que teve, de repente e para sempre, «de que qualquer ser hu ma no, mesmo que as suas faculdades naturais sejam quase nulas, pode penetrar nesse reino da verdade reservado ao génio, se tão só ele a deseja e faz perpetuamente um esforço de atenção para a atingir». E, seguidamente, esclarece: «Sob o nome de verdade englobava também a beleza, a virtude e toda a espécie de bem, de forma que se tratava para mim de uma conceção da relação entre a graça e o desejo.»

Assim, na «autobiografia espiritual» de Simone prevalecem os traços, antes sublinhados, da «menina fora do comum», mas «a procura da verdade» e «o amor pelos deserdados deste mundo» revestiram tonalidades distintas no de curso da sua curta e intensa história de vida. Assinalaria como acontecimento crucial a experiência mística de Deus, na sequência do que Simone descreve como «contatos com o catolicismo verdadeiramente significativos» – viagem a Portugal (1935), a Assis (1937), ofícios pascais em Solesmes (1938), recitação do poema «Amor» nesse mesmo ano –, factos estes posteriores às suas diversificadas atividades, a partir de 1931 (início da carreira docente, em Le Puy), como professora de Filosofia e como militante sindicalista, empenhada nas questões sociais e políticas. No âmbito destes compromissos, «ao encontro dos pobres», destaca-se, no plano teórico, "Réflexions sur les causes de la liberté et de l’oppression sociale" (a «grande obra», publicada em 1934) e, no plano prático, a experiência como trabalhadora fabril, vivida entre 1934-35, que lhe deixou marcas indeléveis de sofrimento e «desventura» (descritas no seu «diário» e noutros textos). Em 1941, Simone viria a alargar a sua vivência de trabalho num contexto rural, na faina das vindimas, através da mediação amistosa de Gustave Thibon.

Ora, «a interseção entre o compromisso político e a experiência mística» constitui, segundo Maria Clara Bingemer, «a originalidade primeira» de Simone: «Nos anos 40, enquanto a Europa se desmoronava sob o cruel genocídio nazi, dez anos antes de os sacerdotes operários ingressarem no submundo das fábricas modernas, para anunciar a partir dali o Evangelho da justiça, e trinta anos antes que na América Latina a teologia da libertação proclamasse que o encontro mais profundo com Deus só pode dar-se no rosto do pobre, Simone Weil antecipou essas intuições. E não apenas as imaginou, como também as viveu».

Com efeito, «a compaixão e a solidariedade para com o sofrimento humano nas suas mais dolorosas manifestações» foram, para Simone Weil, «a escola da qual recebeu séria formação desde os seus mais tenros anos e na qual permaneceu até à morte». A «compaixão, estilo de vida» foi parte integrante de si mesma. Gostaria de me deter sobre as reflexões que Simone desenvolve a propósito do que se entende por «verdadeira compaixão», o que identifica o amor do próximo com a «justiça», o que distingue o sofrimento da «desdita», havendo manifestamente um plano de fundo teológico nestas considerações. Na compaixão, tal como no amor ao próximo, não se trata de dar coisas materiais, de prescindir do supérfluo a favor do outro, mas em assumir uma atenção criativa que põe em jogo a fé em Deus: «A atenção criativa para com aquele que sofre é [...] algo análogo ao génio, uma vez que faz existir o que antes não existia. [...] O pobre, o desventurado, é invisível. A fé inspirada pelo amor é capaz de visibilizá-lo. E fá-lo porque Deus mesmo está presente no que atua em favor do outro e no desventurado. É um facto amoroso que só existe e acontece em Deus e por Deus». Mais adiante, o conceito de «pobre» é definido como sinónimo de «oprimi do», abrindo-se nesta aceção semântica aos que são vítimas de «uma injusta organização do mundo e, portanto, não correspondente ao querer de Deus». Simone Weil sublinha repetidamente que a caridade não se confunde com a justiça: «Nenhuma bondade, com o risco de constituir uma falta sob a falsa aparência de bondade, pode ir mais longe do que a justiça». Somente a prática da justiça «pode tornar efetiva a igualdade entre os seres humanos: entre o forte e o fraco, entre o poderoso e o desventurado».

Na já citada «autobiografia espiritual», Simone descreve, em moldes pungentes, o que vivenciou no seu «ano de fábrica», sublinhando que não se tratava de um sofrimento físico, mas de uma desventura/desdita ("malheur") que tinha uma dimensão psicológica e social: «Sabia bem que havia muita desventura no mundo, estava obcecada por isso, mas nunca o tinha constatado através de um contacto prolongado. Na fábrica, confundida aos olhos de todos e a meus próprios olhos com a massa anónima, a desventura dos outros entrou na minha carne e na minha alma. Nada me separava dela, porque tinha realmente esquecido o meu passado, não aguardava qualquer futuro e dificilmente conseguia imaginar a possibilidade de sobreviver àquelas fadigas.» Os termos em que evoca a sua experiência da «desdita» remetem para a análise que Simone levará a cabo das formas de «desenraizamento» (que alastra como uma doença contagiosa, afetando trabalhadores fabris e rurais), na obra "L’Enracinement", em que propõe como «antídoto» uma revolução baseada na espiritualização do trabalho.

Os pontos de vista de Simone Weil irão encontrar grande eco, algumas décadas depois, na teologia da libertação na América Latina, constituindo objeto de consenso a afirmação de que «a opção pelos pobres é teocêntrica».

As vivências religiosas da «mística de fronteira» são analisadas no contexto da reflexão teológica atual, fazendo uso do esquema tomista em três etapas (vias purgativa, iluminativa e unitiva), à luz do qual Maria Clara Bingemer reconstitui o que sabemos da progressão espiritual de Simone e das dificuldades que impediram a sua adesão à Igreja. De facto, Simone salienta que nunca procurou Deus e que o próprio Cristo desceu até ela e a tomou (cf. «autobiografia espiritual»). Sustenta, no entanto, que o seu caso ilustra um exemplo concreto de «fé implícita», não obstante ter sido criada pelos seus pais e pelo seu irmão num agnosticismo completo, sem fazer o mínimo esforço para dele sair. É muito expressivo o texto em que Simone Weil reclama não ter recebido informação quanto ao posto de filosofia a que se habilitara, porventura abrangida pelo decreto antijudaico entretanto promulgado (o «Estatuto dos Judeus», publicado a 3 de outubro de 1940). Simone reconhece-se como francesa, herdeira da tradição helénica e dos valores cristãos, sem assumir qualquer vínculo específico à condição judaica: «tendo aprendido a ler nos escritores franceses do século XVII, em Racine, em Pascal, com o espírito impregnado destes, numa idade em que nunca tinha ouvido falar dos judeus, se há uma tradição religiosa que considero como meu património, é a tradição católica. A tradição cristã, francesa, helénica, é a minha; a tradição hebraica é-me estranha».

Os problemas de Simone em se propor ao Batismo ligam-se, antes de mais, com a probidade de subordinar as crenças aos juízos da inteligência e aos imperativos da sua consciência: «Nunca tive, mes mo que por uma vez, a sensação de que Deus me quer na Igreja» (estas citações e as seguintes reportam-se à «autobiografia espiritual»). A que acrescenta dificuldades atinentes à instituição: «O Cristianismo deve conter nele todas as vocações sem exceção, pois que é católico. Por conseguinte, também a Igreja. Mas, a meu ver, o Cristianismo é católico apenas de direito, e não de facto. Tanta coisa que se encontra fora dele, tanta coisa que eu amo e não quero abandonar, tanta coisa que Deus ama, pois de outro modo não teria existência.» Pensa que a obrigação dos dois ou três próximos anos, obrigação de tal modo estrita que não lhe podemos faltar sem traição, «é a de fazer patente ao público a possibilidade de um cristianismo verdadeiramente encarnado. [...] Mas tudo está de tal maneira ligado a tudo, que o cristianismo só pode chegar a encarnar verdadeiramente se for católico, no sentido que acabo de definir». No entanto, há um obstáculo inultrapassável à encarnação do cristianismo: «O uso destas duas pequenas palavras "anathema sit". Não a sua existência, mas o uso que até aqui lhe tem sido dado.» A religião suscetível de encontrar um lugar central na sociedade deverá ser "fonte de inspiração" em vez de "ortodoxia", "luz" em vez de "dogma".

Quanto às objeções da «mística de fronteira» relativamente à tradição judaico-cristã e a questões doutrinais, as mesmas estão profusamente elencadas na carta ao padre Couturier, redigida em Nova Iorque, em 1942 ("Lettre à un religieux", Paris, Gallimard, 1951) e foram objeto de inúmeros estudos e apreciações díspares. Sobre este tema, veja-se o prefácio de José Tolentino Mendonça à obra de Cristina Campo, "Os "Imperdoáveis (Assírio & Alvim, 2005), em que refere as críticas feitas por esta autora às razões apresentadas por Simone Weil como impeditivas da adesão à Igreja, alegando eventuais falhas na sua iniciação catequética. O texto de Cristina Campo (publicado antes sob pseudónimo) veio a integrar a coletânea intitulada "Sob um Falso Nome", editada também pela Assírio & Alvim, em 2008 (pp. 145-156). Apesar de tanta resistência, Simone teria sido finalmente batizada por uma amiga, Simone Dietz, «pouco antes da sua morte, a seu pedido e com total lucidez».

No âmbito das questões abordadas no capítulo «A mística crística e o êxodo do eu», na convergência dos caminhos da razão e da fé, avultam os grandes temas teológicos da Criação, Encarnação, Redenção, e só à sua luz se pode entender o que significa para Simone Weil a noção de alma «descriada» ou «desconstruída», indissociável do «êxodo do eu». Com efeito, no plano divino, a Criação traduziu-se na abdicação ou na negação de Deus: «A Criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de retraimento, de renúncia. Deus e todas as criaturas, isso é menos do que Deus apenas. Deus aceitou essa diminuição. Esvaziou de si uma parte do ser» («Formas do Amor implícito a Deus», in "Espera de Deus", Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, p. 152). A justificação última desta aparente loucura está no Amor: «Deus criou por amor, para o amor. Deus não criou mais do que o amor e os meios do amor. Ele criou todas as formas do amor. Ele criou seres capazes de amor a todas as distâncias possíveis. Ele mesmo foi, porque ninguém mais o poderia fazer, à distância máxima, a distância infinita. Esta distância infinita entre Deus e Deus, dilaceração suprema, dor que de nenhuma outra se aproxima, maravilha do amor, é a crucifixão». Deu a existência a todos os seres que, enquanto criaturas, estão submetidos à necessidade que comanda a natureza e, no caso específico dos seres humanos, dispõem de livre-arbítrio e se regem pela autonomia. No mistério de Deus, uno e trino, manifestam-se no grau supremo de plenitude a generosidade e a compaixão: com efeito, Deus «permitiu que existissem outras coisas distintas dele e valendo infinitamente menos do que Ele. Pelo ato criador, Ele negou-se a si mesmo, tal como Cristo nos prescreveu que nos negássemos a nós mesmos. Deus negou-se em atenção a nós para nos dar a possibilidade de nos negarmos por Ele».

Em que sentido Simone Weil fala da exigência de «uma nova santidade» nos escritos de Marselha (1940-1942) e na sua segunda «grande obra», elaborada nos últimos meses de vida em Londres, que viria a ser publicada por Albert Camus em 1949, com o título "L’Enracinement" (na Gallimard, coleção «Espoir»)? Na verdade, trata-se de uma espécie de legado espiritual, em que são retomadas as grandes temáticas weilianas respeitantes à filosofia e às preocupações sociais e políticas, visando constituir o «Prelúdio a uma declaração dos deveres para com o ser humano». Para Simone, a sabedoria filosófica centra-se na reflexão sobre os valores e implica uma representação do mundo que abarca «leituras » resultantes de muitos pelouros (ciência, religião, mito, literatura, folclores, tradições populares). O que está em causa na referida obra é o fundamento da legitimidade dos deveres para com o ser humano que Simone encontra «na exigência de bem absoluto que está sempre no coração de todos os homens». Esse Bem absoluto, que não é expressamente nomeado como Deus, corresponde «a uma realidade situada fora do mundo e que escapa a todas as faculdades humanas, exceto à atenção e ao amor», sendo essa realidade transcendente o princípio fundante de «todo o bem, toda a beleza, toda a verdade, toda a justiça, toda a legitimidade, toda a ordem, toda a subordinação da conduta humana a obrigações». A referida «santidade» manifesta-se na sabedoria encarnada em formas de vida, pautada por uma ideia de perfeição radicada na natureza das coisas, requisito para a esperança num mundo melhor. Na formulação sintética de Simone, «quatro obstáculos nos separam sobretudo de uma civilização suscetível de valer alguma coisa: a nossa falsa conceção de grandeza; a degradação do sentido de justiça; a nossa idolatria do dinheiro; e a ausência em nós de inspiração religiosa». Urge alertar não os indivíduos isolados, mas a totalidade de um povo, para o facto de que a nossa época tem como missão própria «a constituição de uma civilização fundada sobre a espiritualidade do trabalho», em que se ultrapasse a fragmentação das tarefas e o divórcio entre o trabalho manual e a cultura. A herança helénica é uma constante no «platonismo cristão» da nossa filósofa mística: no ensaio "A Ilíada ou o poema da Força", escrito na atmosfera de tensão que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, sublinha-se dramaticamente o confronto entre a lógica da violência, baseada na força, e a justiça, radicada no equilíbrio (a unidade como proporção de opostos, como harmonia, objeto por excelência da sabedoria pitagórico-platónica).

São particularmente sugestivos os dois pequenos fragmentos que Maria Clara Bingemer nos propõe para sintetizar o «testemunho para tempos difíceis» da «mística de fronteira».

Simone afirma, dirigindo-se a si mesma: «Não poderias desejar ter nascido numa época melhor do que esta, em que se perdeu tudo» ("Tu ne pourrais pas désirer d’être née à une meilleure époque que celle-ci, où on a tout perdu").

E argumenta, quanto ao estatuto do devedor: «Se tenho devedores, só pode ser sem o saber. A quem pagaria então uma dívida? Quanto a mim, não tenho qualquer dívida, eu sou uma dívida» ("Si j’ai des débiteurs, ce ne peut être qu’à mon insu. Quant à moi, je n’ai pas de dette, je suis une dette").

Em primeiro lugar, Simone aceita como missão os desafios com que se enfrenta nos tempos em que lhe tocou viver, em sintonia com a dimensão da «obediência» ou «consentimento» que sempre assumiu como a liberdade específica dos seres racionais. Em segundo lugar, reconhece a sua própria identidade na «dívida» para com o amor de Deus, uno e trino, criador e redentor, Cristo crucificado. Tudo é dom, tudo é graça. Sobreleva, no entanto, a responsabilidade da resposta amorosa ao que é gratuito.

«Testemunha do e no seu tempo», Maria Clara Bingemer releva que, entre os contributos de Simone Weil para a nossa contemporaneidade, se destaca a importância da «intimidade com Deus e da necessidade do êxodo interior, de sair de nós mesmos e oferecer a própria vida para que outros vivam». Como ela, muitos outros homens e mulheres, «cristãos sem Igreja», podem ser figuras paradigmáticas «no caminho errático e escuro no qual o ser humano é forçado a viver, num mundo que perdeu o sentido do absoluto e da vida». «Mística do Amor», Simone Weil «pode seguir inspirando hoje quem experimenta a fé no Outro que vem ao seu encontro e a traduz em serviço radical, desde dentro ou fora de qual quer instituição».

 

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Esta transcrição omite notas de referência do texto original.

 

Publicado em 02.06.2016

 

Título: Simone Weil - Mística de fronteira
Autora: Mria Clara Bingemer
Editora: Paulinas
Páginas: 216
Preço: 14,00 €
ISBN: 978-989-673-524-1

 

 
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O que se destaca no perfil de Simone para fazer dela uma «menina fora do comum»? Em primeiro lugar, a precocidade da sua inteligência e a enorme abrangência dos seus interesses; em segundo lugar, «a compaixão pelo sofrimento humano, a solidariedade e um desapego até ao esquecimento de si foram uma realidade sempre presente»
Assinalaria como acontecimento crucial a experiência mística de Deus, na sequência do que Simone descreve como «contatos com o catolicismo verdadeiramente significativos» – viagem a Portugal (1935), a Assis (1937), ofícios pascais em Solesmes (1938), recitação do poema «Amor» nesse mesmo ano –, factos estes posteriores às suas diversificadas atividades, a partir de 1931 (início da carreira docente, em Le Puy), como professora de Filosofia e como militante sindicalista, empenhada nas questões sociais e políticas
«Nos anos 40, enquanto a Europa se desmoronava sob o cruel genocídio nazi, dez anos antes de os sacerdotes operários ingressarem no submundo das fábricas modernas, para anunciar a partir dali o Evangelho da justiça, e trinta anos antes que na América Latina a teologia da libertação proclamasse que o encontro mais profundo com Deus só pode dar-se no rosto do pobre, Simone Weil antecipou essas intuições»
«A compaixão e a solidariedade para com o sofrimento humano nas suas mais dolorosas manifestações» foram, para Simone Weil, «a escola da qual recebeu séria formação desde os seus mais tenros anos e na qual permaneceu até à morte». A «compaixão, estilo de vida» foi parte integrante de si mesma
«A atenção criativa para com aquele que sofre é [...] algo análogo ao génio, uma vez que faz existir o que antes não existia. [...] O pobre, o desventurado, é invisível. A fé inspirada pelo amor é capaz de visibilizá-lo. E fá-lo porque Deus mesmo está presente no que atua em favor do outro e no desventurado. É um facto amoroso que só existe e acontece em Deus e por Deus»
Apesar de tanta resistência, Simone teria sido finalmente batizada por uma amiga, Simone Dietz, «pouco antes da sua morte, a seu pedido e com total lucidez»
«Deus criou por amor, para o amor. Deus não criou mais do que o amor e os meios do amor. Ele criou todas as formas do amor. Ele criou seres capazes de amor a todas as distâncias possíveis. Ele mesmo foi, porque ninguém mais o poderia fazer, à distância máxima, a distância infinita. Esta distância infinita entre Deus e Deus, dilaceração suprema, dor que de nenhuma outra se aproxima, maravilha do amor, é a crucifixão»
Na formulação sintética de Simone, «quatro obstáculos nos separam sobretudo de uma civilização suscetível de valer alguma coisa: a nossa falsa conceção de grandeza; a degradação do sentido de justiça; a nossa idolatria do dinheiro; e a ausência em nós de inspiração religiosa»
Urge alertar não os indivíduos isolados, mas a totalidade de um povo, para o facto de que a nossa época tem como missão própria «a constituição de uma civilização fundada sobre a espiritualidade do trabalho», em que se ultrapasse a fragmentação das tarefas e o divórcio entre o trabalho manual e a cultura
«Se tenho devedores, só pode ser sem o saber. A quem pagaria então uma dívida? Quanto a mim, não tenho qualquer dívida, eu sou uma dívida»
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