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"Silêncio": Um filme muito duro...

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Imagem "Silêncio" | Martin Scorsese | D.R.

O tema crucial do filme de Scorcese é o da barreira cultural entre uma religião estrangeira e a cultura japonesa. O «Silêncio» é um filme difícil como o romance de Shusako Endo. Há uma grande fidelidade à obra, que foi recebida com reticências pelos cristãos japoneses. Graham Greene considerou, no entanto, o romance uma obra-prima.

O cristianismo nipónico é heterogéneo e surpreendente – os mártires coexistem com os cristãos escondidos, os que preferiram o testemunho público e os que mergulharam na sociedade, divididos entre as fidelidades do gesto e do princípio. A dúvida liga-se ao remorso. E Cristo representado no fumie, a pequena placa usada para consumar a apostasia, diz: «Podes pisar-me!». Afinal, o mistério do silêncio está no centro desta reflexão, como ausência de palavras, audição do universo e fidelidade íntima. Vem à lembrança a negação de Pedro, a pedra em que assentou a Igreja. A distância cultural torna-se mais forte que os julgamentos precipitados de traição. Cristóvão Ferreira é obrigado a defrontar-se com as consequências de uma opção limite em que a fé pessoal está ligada ao destino de muitos cristãos japoneses condenados ao sacrifício supremo pelo qual ele se sente também responsável. E neste ponto não pode deixar de se lembrar a meditação angustiosa sobre o porquê da missão de Judas, porquê haver um apóstolo condenado à partida pelo facto de lhe caber a tarefa necessária de entregar o Mestre por trinta dinheiros. Quantos dramas pessoais repetem esse exemplo evangélico? «Basta, Senhor, basta! É agora o momento de quebrares o silêncio. Já não te podes calar por mais tempo. Mostra que és a justiça, a bondade, o amor por excelência. Tens de dizer alguma coisa para que o mundo saiba que existes.» Esse silêncio pesado domina o drama de quem tem de escolher entre o amor e a morte, sem saber exatamente onde estão um e o outro. A pressão é máxima, desde a culpa à dúvida, do silêncio ao amor. A apostasia concretizava-se pisando a imagem de Cristo. «Por amor deles, até o próprio Cristo teria apostatado.» E Ferreira dirá ao ouvido do novo apóstata: «Você vai agora realizar o mais doloroso ato de amor de que jamais alguém foi capaz.» Afinal: «Quando o padre assentou o pé no fumie nascia a manhã. Ao longe, um galo cantou»… 

O drama existencial é tratado magistralmente, não devendo apenas situar-se num momento histórico, projeta-se numa tensão civilizacional, entre as tradições milenares do Japão, o culto dos antepassados e o sincretismo religioso. «O problema da reconciliação do Catolicismo com o meu sangue japonês… ensinou-me uma coisa (diz Endo): que o homem japonês tem de absorver o Cristianismo sem o suporte de uma tradição, de uma história, de um legado, ou de uma sensibilidade cristãs. Que resistências, que angústias e sofrimentos tem custado esse esforço! Todavia é impossível resistir-lhe fechando os olhos às dificuldades. Não há dúvida: esta é a cruz peculiar reservada por Deus aos japoneses.»



 

Guilherme d'Oliveira Martins
Fundação Calouste Gulbenkian, Centro Nacional de Cultura
Publicado em 16.01.2017

 

 
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