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Silêncio de ouro e silêncios de chumbo

Silêncio de ouro e silêncios de chumbo

Imagem ficmadur/Bigstock.com

Silêncio. Escava-se com as mãos nas colinas de Méto, arredores de Zinder, a segunda maior cidade do Níger. Corria o rumor que ali se encontrava ouro em quantidade. Milhares deslocaram-se à procura daquilo que lhes parecia um dom da areia. O ouro está em todo o lado, diziam as vozes do povo do Sahel. Em poucos dias mais de duas mil pessoas ocuparam o lugar com mãos, pás, picaretas e machados.

Nada de dourado apareceu no horizonte das colinas e depois de um par de semanas os buscadores de ouro voltaram à vida de sempre. Camponeses de areia e de pedras não auríferas. O primeiro silêncio é o dos pobres. Dura uma eternidade e transmite-se como um segredo de uma geração à outra. Um silêncio obstinado e cheio de dignidade que poucos até agora souberam escutar. Dizia com sabedoria Ivan Illic que não é das palavras mas dos silêncios do povo que é preciso aprender. O silêncio dos pobres que semeiam a dor nos solos secos pelo vento e pelo tempo. De ouro, para quem é conhecedor, é o seu silêncio, grito de dignidade.

O balanço oficial apresentado pelas autoridades fala de um estudante morto, 88 feridos e 313 interrogados. Trata-se dos alunos da Universidade Estatal Abdou Moumouni, de Niamey. A 10 de abril os militares responderam à manifestação estudantil com gás lacrimogéneo, bastonadas, intimidações, ocupação do espaço da universidade e vários roubos. Vinte e três mil estudantes foram expulsos do "campus" e sobrevivem como podem. As escolas primárias, secundárias e superiores estão à deriva. Em todo o caso, o ano escolar não começou. Os alunos fazem greve porque os professores fazem greve porque faltam o salário, as aulas, os equipamentos, e o ano escolar também falta. O segundo silêncio é o dos partidos, dos sindicatos, dos pais, das agências humanitárias de cooperação, das embaixadas e dos cidadãos comuns. É também o silêncio cúmplice de quem, entretanto, colocou os filhos em segurança nas universidades e escolas para ricos.

Morre-se de meningite na região de Diffa, no Níger profundo provado pelo terrorismo do Boko Haram. São milhares os deslocados e refugiados da vizinha Nigéria e do lago Chade, abandonado pelos autóctones. Desaparecem sem deixar rasto os migrantes entre o mar, a areia, a Líbia dos campos de escravidão e eliminação e os voos "charter" para os merecedores de regresso assistido. Cala-se também Deus. É o terceiro silêncio de Niamey. Ele, que se sabe fazer pequeno, gostaria também de dizer a sua palavra, aliás, podemos dizer que já a disse. São os outros que o calam. Aqueles que o controlam, o seguem às ocultas, o observam, o têm como um refém a negociar. Não é Ele que cala, mas os religiosos que estão à sua volta. Silenciosos diante dos massacres, da impunidade, da eliminação dos simples à tirania dos poderosos. O Deus qualquer de Niamey faz o seu melhor entre os minaretes, as cruzes das farmácias e os cemitérios da cidade. Fala-se dele e há quem o defenda como se precisasse. O terceiro silêncio é o dos religiosos que insistem em despertá-lo, em vão, de manhãzinha cedo.

Há, por fim, o silêncio dos intelectuais. Os da consciência crítica, em termos cristãos os da parresia paulina ou de Foucauld. Os intelectuais. Os cães de guarda que ladram aos ladrões. A voz livre de quem não tem nada a perder além da dignidade e da paz consigo. Que sabem entrever onde bate o coração do futuro. Esses que se ligam ao povo como com o cordão umbilical. Em vez disso, atualmente descobrem-se assalariados, vendidos ou em fase de extinção como espécies raras. Depois do tempo da independência assistem ao nascimento das repúblicas das bananas e tornam-se cúmplices de eleições tropicalizadas. Eles, os intelectuais, ausentes de tudo quanto pode criar conflitos com o poder. Mercenários de meia-tigela que combatem pela posição e traem com monótona regularidade as promessas de um mundo sem colónias. Estudam no estrangeiro e perpetuam o poder dos poucos que ultrapassam as rédeas da arrogância financeira. Viajam muito e fingem que são importantes quando voltam ao país. O quarto silêncio é talvez o mais ensurdecedor, porque cava a sepultura da democracia.



 

Mauro Armanino
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 29.04.2017

 

 
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