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Shakespeare para um caminho espiritual

A caminhada espiritual é um terreno complexo, tantas voltas e reviravoltas, tantas montanhas e vales, tantas incógnitas e emoções. A pessoa sábia procura um guia.

As pessoas em medicina, economia ou tecnologia procuram mentores para desvendar os princípios básicos e práticas desses campos. Viajar sozinho é perigoso. Então,  para quem nos devemos dirigir na nossa jornada do eu para Deus?

Os Franciscanos voltam-se para S. Francisco e Santa Clara. Os Carmelitas lêem as obras de S. João da Cruz, Santa Teresa de Ávila e Santa Teresa de Lisieux. E as pessoas que não foram chamadas a uma forma específica de espiritualidade? Existem diretores espirituais para o "homem ou mulher comum" imerso no nosso mundo atarefado?

E William Shakespeare? O bardo de Avon tem algumas perceções profundas sobre realidades centrais na vida espiritual: oração, perdão, compaixão e amor.

 

Oração

«As minhas palavras voam para cima, os meus pensamentos permanecem no chão.
Palavras sem pensamentos nunca para o céu vão»
(“Hamlet”, Ato 3, Cena 3).

O pai de Hamlet, o rei Cláudio, ajoelha-se em oração com a esperança de fugir com os seus pecados, não para pedir perdão pelos crimes. O rei percebe, na passagem acima, que a sua oração é basicamente inválida. É simplesmente uma série de palavras sem remorso pelos seus pecados.

Na nossa vida de oração pessoal, existe o perigo de que as palavras estejam separadas dos nossos pensamentos e afeições. Ao proferir o Pai-nosso, podemos estar a pensar no que vamos preparar para a ceia ou se a nossa equipa favorita vai fazer um jogo bem sucedido. Palavras, meras palavras. Shakespeare afirma que isso desconecta os curtos circuitos da autêntica oração.

 

Perdão

«Isso não pode ser, já que eu ainda sou possuído
Pelos efeitos pelos quais cometi o assassínio:
Minha coroa, minha própria ambição, e minha rainha.
Pode-se ser perdoado e reter a ofensa?»
(“Hamlet”, Ato 3, Cena 3).

O pai de Hamlet entendeu algo da natureza do perdão. A menos que se arrependa da sua ambição que o levou a matar o irmão e depois casar-se com a esposa dele, não experimentará misericórdia. Mas ele não podia soltar-se dos efeitos dos seus pecados. Ele não teve o remorso que abriria a sua alma para receber a misericórdia que Deus espera dar.

O perdão espera por todos nós. Todos precisamos de um redentor para restaurar os nossos relacionamentos fraturados. O Deus revelado em Jesus é um Deus de amor e misericórdia. Embora essa misericórdia e amor sejam incondicionais, devemos ser recetivos para obter essa graça. O rei não estava devidamente disposto para tal cura.

 

Amor

«Não deixes que a união de almas fiéis
Admita impedimentos. Amor não é amor
se muda quando uma mudança encontra»
(Soneto 116).

O mistério do amor está no centro da espiritualidade. Esta é uma vida de dádiva de si, de morrer para o egoísmo e ser para os outros. O nosso Batismo convida-nos para o mistério pascal, a morte e ressurreição de Jesus por nós. Ser "para" e "com" outros nas suas necessidades cumpre o mandamento básico do Senhor.

A perceção de Shakespeare é de que o amor autêntico não altera ou admite impedimentos. Testemunhamos este tipo de amor numa esposa que continua a visitar diariamente, mesmo durante por anos, um marido casado que sofre de demência. O amor conjugal não é diminuído mesmo que o parceiro doente não consiga comunicar. Graça maravilhosa!

 

Conselho sábio

Ao longo das suas peças e sonetos, o bardo oferece pepitas de conselhos para nós, peregrinos espirituais. Em "O mercador de Veneza" ouvimos atentamente Portia: «Em casa aquela luz/ Como chega longe a pequena candeia com os seus raios!/ Então brilha uma boa ação num mundo corrompido» (Ato 5, Cena 1). Um ato de bondade pode transformar uma vida.

Em "Rei Lear", o monarca grita: «Exponha-se a sentir o que os miseráveis ​​sentem» (Ato 3, Cena 4). O papa Francisco tem estado a apelar a todos nós para essa compaixão. Vá para as margens e acompanhe aqueles em extrema necessidade.

No “Soneto 73” Shakespeare descreve o fim das coisas: o outono, um dia, um incêndio incandescente. São imagens que encontram a nossa mortalidade. O soneto conclui: «De tudo isto te dás conta. O teu amor faz-se mais forte/ para amar ternamente o que terás de deixar aqui para sempre». Mais uma vez, o belo chamamento à fidelidade diante da morte.

Shakespeare conhecia bem o coração humano e as qualidades da jornada espiritual - oração, perdão, amor, bondade, compaixão. As perceções guardadas nas suas tragédias, comédias e sonetos falam profundamente da nossa jornada espiritual.



 

D. Robert Morneau
Bispo auxiliar emérito de Green Bay, EUA
In National Catholic Reporter
Trad.: SNPC
Publicado em 06.03.2018

 

 
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