Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Shakespeare: 400 anos depois, uma herança incomparável

Imagem William Shakespeare

Shakespeare: 400 anos depois, uma herança incomparável

Um "penny". Era este o preço do bilhete no "Wooden 'O'" ("'O' de madeira"), como tinha sido rebatizado o Globe Theatre nos tempos de Shakespeare. Um preço contido que todavia garantia o acesso apenas à área junto ao palco. Aqui o público menos privilegiado - os que podiam pagar dois "penny" tinham acesso às tribunas elevadas - não tinha à disposição cadeiras ou bancos e simplesmente assistia de pé aos espetáculos, que muitas vezes começavam à tarde e se prolongavam até à noite.

E além de se apreciar a representação, concedia-se uma refeição ligeira, ainda assim substancial, sem dúvida necessária tendo em conta a duração da encenação. Com efeito, alguns estudos arqueológicos recentes provaram que os "groundlings" (assim eram chamados, não sem algum desprezo, os espetadores de um "penny") gostavam de trincar nozes e amendoins de vário género, antepassados das atuais pipocas. Por seu lado, o público sentado nas galerias aplacava o apetite consumindo frutos do mar e fruta seca importada, tudo de alto preço. Além disso, em todos os teatros era permitido fumar cachimbo, recentemente chegado das Américas juntamente com o tabaco, não obstante o evidente risco de incêndio. Mas o que mais conta é que o público, e sobretudo os "groundlings", participava no espetáculo de maneira para nós totalmente estranha, isto é, comentando em voz alta a ação no palco e interagindo diretamente com os atores, numa espécie de desafio mútuo.

Um género muito popular, portanto, o teatro elisabetiano. No Globe o aborrecimento não existia e o público não cedia ao sono. Não porque fosse obrigado a estar de pé, mas porque experimentava um autêntico envolvimento emotivo, a uma distância de séculos do tédio de muitos teatros atuais, pontuados por cabeças reclinadas.

Era este o habitat natural de William Shakespeare (c. abril 1564 - 23.4.1616). Neste ambiente, barulhento, fumarento e cheio de odores, refinou a sua incomparável arte, que ainda hoje, 400 anos depois da sua morte, o torna, em absoluto, o mais conhecido escritor de língua inglesa e um dos autores mais geniais na história da literatura mundial.

William era filho genuíno do seu tempo, uma época em que o teatro era um género muito popular, também graças à produção de uma fileira de autores. Mas se não se pode certamente negar a capacidade, e em alguns casos também a genialidade, de argumentistas como Ben Jonson ou Christopher Marlowe, ninguém pode comparar a sua produção à de Shakespeare, quer pela qualidade quer pela perspetiva. E foram precisamente os autores contemporâneos de Shakespeare, com Jonson a ser o primeiro entre todos, a reconhecer-lhe uma grandeza superior.

Por isso é preciso perguntar o que é que torna Shakespeare único. Porque é que só um dos muitos escritores teatrais da Londres da passagem entre os séculos XVI e XVII conseguiu verdadeiramente sobreviver, através da sua obra, à inexorável passagem do tempo? E como é que todo o pequeno particular da sua vida, verdadeiro ou presumido que seja, é estudado numa quantidade de textos que a cada ano supera milhares de vezes a produção shakespeariana?

Rios de tinta foram, com efeito, derramados para investigar a identidade do escritor, a sua pertença política, o seu credo religioso. Muito menos se escreveu sobre a sua capacidade, verdadeiramente única, de usar o teatro - entendido como espaço físico - como lugar privilegiado para indagar sobre as forças interiores que agitam e movem o ser humano. Uma espécie de laboratório no qual faz confluir, para depois analisar, as paixões humanas. As dúvidas de Hamlet, a crueldade de Ricardo III, as ambições de Macbeth, a sensação de perda de Lear, a inveja de Iago e o ciúme de Otelo, o amor incondicional de Romeu e Julieta, o desejo de vingança de Calibã, mas também a jubilosa ligeireza de Áriel, são estados de ânimo que congregam todos e nos quais todos se podem reconhecer.

Shakespeare, simplesmente, compreendeu-o e nas suas obras não faz mais do que colocar o espetador diante de si próprio. Numa espécie de jogo de espelhos amplificado pelo poder do instrumento teatral, que como um catalisador - para citar Thomas Stearns Elliot - adensa a matéria e deixa diante dos olhos do público só o necessário: a verdade sobre o homem.

O autor era portanto consciente e tinha grande confiança na capacidade de indagação do teatro. Aqui reside a verdadeira grandeza do escritor inglês: o que o torna único é, definitivamente, a sua capacidade de fazer do teatro um incomparável instrumento para escrutinar a alma humana e para dela colher a realidade. Porque, como referia o moto do Globe Theatre, "totus mundus agit histrionen" ("todo o mundo representa", ou, noutra tradução corrente, "todo o mundo é um palco").

 

Giuseppe Fiorentino
In "L'Osservatore Romano", 23.4.2016
Trad./adapt.: Rui Jorge Martins
Publicado em 23.04.2016

 

 
Imagem William Shakespeare
As dúvidas de Hamlet, a crueldade de Ricardo III, as ambições de Macbeth, a sensação de perda de Lear, a inveja de Iago e o ciúme de Otelo, o amor incondicional de Romeu e Julieta, o desejo de vingança de Calibã, mas também a jubilosa ligeireza de Áriel, são estados de ânimo que congregam todos e nos quais todos se podem reconhecer
Aqui reside a verdadeira grandeza do escritor inglês: o que o torna único é, definitivamente, a sua capacidade de fazer do teatro um incomparável instrumento para escrutinar a alma humana e para dela colher a realidade
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos