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Ser católico na política é pormo-nos no lugar dos outros, ter a noção de que não vale tudo, combater as desigualdades e aceitar perder

Imagem Assembleia da República, Lisboa | D.R.

Ser católico na política é pormo-nos no lugar dos outros, ter a noção de que não vale tudo, combater as desigualdades e aceitar perder

Saber «ver de todos os lados» e estar aberto à diferença constituem características que um católico deve manifestar na vida política, considera Paulo Melo, que tem na sua biografia a participação na Juventude Escolar Católica (JEC), no associativismo estudantil, no mundo sindical e na esfera partidária.

É preciso «aceitar a complexidade do real, desconfiar de caminhos únicos, visões unilaterais, verdades incontestáveis, soluções simples», sem deixar de «enunciar, propor e agir», mesmo que «contra o expectável», sublinhou no testemunho que proferiu este sábado, no Porto, durante o 2.º Encontro Nacional de Leigos.

O professor considera que é preciso respeitar as instituições democráticas, pelo que «não vale tudo»: «A democracia requer aprendizagem e paciência. Lidar com o tempo. Não se compadece com pôr tudo em causa a cada momento, com consultas permanentes para que as decisões exprimam vontades maioritárias conjunturais».

A democracia «requer participação constante, mas também aceitação e respeito por funções de chefia e coordenação», além de pressupor «controlo das emoções, distinguir entre contestação de orientações e ataques às pessoas, sentido institucional».

Paulo Melo vincou que «os eleitos ou nomeados são mais do que as suas decisões conjunturais», que «devem ser fundamentadas e podem ser contestadas e debatidas num quadro de funcionamento democrático das instituições, mas não objeto de guerrilha permanente, que tudo põe em causa a cada momento».

«O combate político pode ser contundente, mas para ser intelectualmente sério há de evitar o rebaixamento gratuito do adversário. A expressão “direito à indignação” tem dado cobertura a processos de combate político que não são toleráveis na medida em que põem em causa a dignidade do adversário e rebaixa quem os usa», apontou.

Combater as desigualdades é igualmente um princípio defendido por Paulo Melo na atividade política: «Podemos mesmo desenvolver o nosso dia-a-dia em círculos restritos, em que o convívio e o conhecimento direto das realidades da vida, das alegrias e sofrimentos da maioria da população é limitado. E, no entanto, somos chamados, enquanto crentes, a ter essas realidades presentes nas nossas opções e decisões».

"A minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro" é uma das ideias geralmente aceites que, para o docente, contraria o Evangelho porque «obedece ao pressuposto de que é do livre jogo da luta por interesses individuais que resulta o bem comum».

Para Paulo Melo, a perspetiva evangélica certifica que a liberdade pessoal «é acrescentada pela liberdade dos outros»: «É na relação com outros livres e iguais que sou mais pessoa, ser em relação», e é por isso que, salienta, «a perda de laços relacionais nas sociedades contemporâneas, do cuidado dos outros» é um empobrecimento que a todos afeta.

«Aumentar sempre o horizonte de conhecimento, de escolhas de cada pessoa, isto é combater a ignorância e o monolitismo cultural, aceitar pôr em questão as nossas certezas e aprender com os outros. Num bom debate, com intenso confronto de perspetivas, ninguém perde, todos ganham, porque já não fazem sentido as categorias do perder e ganhar. Todos nos tornamos melhores, mais livres, mais conscientes», frisou.

Paulo Melo criticou também a convicção de que «é necessário modernizar a economia sanear as contas públicas, aumentar a rendibilidade do trabalho para distribuir melhor, para aumentar a oferta de emprego diminuir a pobreza».

«É urgente e um dever das mulheres e homens de boa vontade combater este discurso. Não, não vale continuar a defender ingenuamente que o problema é a existência de pobres e não a de ricos. Tomara que houvesse muitos muito ricos para investirem, consumirem darem trabalho aos desempregados, ouve-se com frequência», declarou.

O seguimento de Cristo, que implica «simplicidade» e «frugalidade por opção», exige afirmações inequívocas: «Devemos dizer com clareza e coragem que há rendimentos, que nada justifica, que são escandalosos, que nos últimos anos as desigualdades entre quadros de gestão e trabalhadores comuns aumentaram de forma injustificada e que é legítimo e necessário, em nome da justiça, que os Estados e as instâncias internacionais adotem políticas de socialização dessa riqueza para a pôr ao serviço do bem comum».

Depois de referir que no partido de que faz parte se tem batido por esta opinião, mas «com pouco acolhimento», Paulo Melo afirmou que «recolocar o Homem no centro da sociedade implica fazer do combate à pobreza e às desigualdades que põem em causa a dignidade humana a prioridade da atividade económica e política, sem adiamentos».

«Pode-se distribuir melhor o que já se produz, pagando melhores salários, assegurando serviços públicos mais sensíveis à diferença e disponíveis para a discriminação positiva, promovendo políticas ativas de inclusão social, recusando uma economia que ao mesmo tempo que aumenta horários e ritmos de trabalho, convive com desemprego estrutural acima dos 10%. Combater a exclusão é economicamente rentável», destacou.

Testemunhar o cristianismo passa também por «aceitar perder», referiu Paulo Melo, que apresentou uma síntese do seu envolvimento partidário: «Apesar de ter integrado órgãos de direção na secção de educação a nível distrital, nunca pus a atividade partidária à frente dos meus compromissos profissionais, familiares e eclesiais, mesmo em períodos de campanha eleitoral. Portanto, nunca fiz vida de sede ou promovi tendências, listas».

E quais têm sido os efeitos do envolvimento na política? «Participo nas reuniões, assembleias e atos eleitorais internos, defendendo as minhas perspetivas, mas é pouco para determinar rumos e opções. Presumo que os meus camaradas me veem como um tipo que diz umas coisas, faz umas perguntas interessantes, mas pouco relevantes para o que interessa, ganhar eleições».

Segundo Paulo Melo, «a atividade partidária tal como se pratica em Portugal é exigente em tempo e disponibilidade mental se se quer de facto contribuir para a mudança. Requer determinação persistência e é pouco compatível com os ciclos mais exigentes da vida profissional e familiar».

Por outro lado, acrescentou, «a forma de funcionamento, os processos de tomada decisão nos partidos com vocação de poder em Portugal é pouco favorável à participação consequente dos cidadãos e deve ser reformulada, também com o contributo dos recursos digitais, de modo a reforçá-la».

«O distanciamento crítico, o desprendimento do poder, a recusa de caminhos únicos são, a meu ver, virtudes na ação política. Mas a fronteira com o diletantismo ineficaz, com o aliviar a consciência é, porém, ténue e esse é o dilema com que me confronto», assinalou.

A concluir, Paulo Melo sugeriu que «nos movimentos e comunidades paroquiais se promovam momentos de reflexão sobre a organização da sociedade» e «sobre o exercício do poder», favorecendo deste modo «a consciência crítica, sem visões únicas, nem fanatismos ideológicos de modo a recolocar o Homem no centro da sociedade, do pensamento e da vida».

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 25.01.2015

 

 
Imagem Assembleia da República, Lisboa | D.R.
Devemos dizer com clareza e coragem que há rendimentos, que nada justifica, que são escandalosos, que nos últimos anos as desigualdades entre quadros de gestão e trabalhadores comuns aumentaram de forma injustificada
A atividade partidária tal como se pratica em Portugal é exigente em tempo e disponibilidade mental se se quer de facto contribuir para a mudança. Requer determinação persistência e é pouco compatível com os ciclos mais exigentes da vida profissional e familiar
O distanciamento crítico, o desprendimento do poder, a recusa de caminhos únicos são, a meu ver, virtudes na ação política. Mas a fronteira com o diletantismo ineficaz, com o aliviar a consciência é, porém, ténue e esse é o dilema com que me confronto
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