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Música: Se permitimos que o Deus da esperança nos leve para frente

Música: Se permitimos que o Deus da esperança nos leve para frente

Imagem Coro de Câmara de Gotemburgo | Capela Imaculada, Braga | Junho 2017 | D.R.

Quando a vida mostra não ser o que pensávamos
o que fazemos da nossa amargura e vergonha?
Se permitimos que o Deus da esperança nos leve para frente
nova vida pode brotar da mesma forma.

Por esta estrofe de uma canção sueca, com música de Ingmar Wendschlag e arranjo de Gunnar Eriksson, fazemos memória de um ciclo de concertos realizados pelo Coro de Câmara de Gotemburgo, entre 22 e 25 do mês de junho. O desejo de saber mais, despertado na estrofe, não precisará de mais ‘letra’ depois deste levantamento? Sim, claro, e do refrão em particular, nesta forma repetido: «Iremos bravamente para novos encontros / nem que seja para sermos traídos mais uma vez. / Mas a confiança que Cristo ganhou para nós / é maior do que o Mal ou o Bom pode medir.» Em sueco, poucos chegariam ao sentido das palavras, mas, através da música, mergulhamos nesta confiança e lançamo-nos na cultura dos novos encontros.









Durante o advento e festejos sanjoaninos, o Coro de Câmara de Gotemburgo, Suécia, realizou uma digressão pelo Norte de Portugal, com vários concertos nas cidades de Vila Nova de Gaia, Guimarães e Braga, e, nos arredores desta, na paróquia de Real. No seu reportório, este coro é conhecido por interpretar música de diferentes estilos, desde a coral clássica e contemporânea até à jazz e folclórica. Desta última, distingue-se por explorar os timbres musicais próprios da música folclórica nórdica e escandinava.

Acompanhava os coralistas o seu director, Gunnar Eriksson, com os seus 82 anos de idade.  Formou-se no Real Colégio de Música de Estocolmo, com o renomado e agraciado (v.g., Polar Music Prize) Professor Eric Ericson (1918-2013). Além de dirigir o coro, Gunnar Eriksson é professor de Direcção Coral na Högskolan för scen och musik, Universidade de Gotemburgo, Academia de Música e Drama. Requisitado por inúmeras instituições, fez viagens pelo mundo, dirigindo e ensinando gerações de coros, além dos seus maestros. Para informação completa, diga-se que é director de dois coros, o Rilke Ensemble, um grupo que ele formou em 1980 e, por mais de cinquenta anos, o Coro de Câmara de Gotemburgo. Em 1988, recebeu o prémio sueco de "Director de Coro do Ano" e, desde 1994, é membro da Royal Swedish Academy of Music. Além de director, é também autor, com muitos arranjos musicais, por exemplo. No seu livro Kör ad lib, podemos colher uma óptima descrição da sua filosofia e abordagem: «A ideia deste livro é fornecer ao director coral e ao coro um caminho para uma maneira um pouco mais livre de trabalhar menos ligada às partituras. Ou, se desejar: deixe os ouvidos serem mais importantes do que os olhos e o corpo mais importante do que o cérebro no primeiro encontro com a música. Apresento algumas ideias simples, mais ou menos antigas, sobre composição e improvisação colectiva. Tu podes criar os teus próprios ‘kits’ de construção, que, por sua vez, podem transformar-se em paisagens sonoras. Isso também pode servir como um convite para o coro, de maneira divertida, abordar a música contemporânea e as suas formas de expressão.»

O primeiro concerto sucedeu na igreja da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia. Nas difíceis condições acústicas, devido à prolongada reverberação, Gunnar ensaiou o Coro durante mais de duas horas e meia seguidas, para tirar partido do lugar na melhor performance possível da paisagem sonora e dos movimentos no espaço. Tanto trabalho para que o diálogo entre coristas e ouvintes fosse elevado às exigências e desafios comuns. E assim foi reconhecido, nos aplausos intermédios e finais, bem como na expressão do Pe. Arlindo Cunha que, por momentos extasiado, pensou terem os Anjos perdido um caderno de músicas celestiais na Terra. Gratidão endereçada a ele, que abriu as portas da melhor das varandas sobre o Porto, e àquelas que prepararam a mesa do ágape final. Bem mereceram a canção a elas dedicada, como se a música dilatasse o ‘obrigado’.









Em Guimarães, o primeiro momento musical teve lugar no Santa Luzia Arthotel, uma espécie de ‘casa das artes’, localizado no centro histórico da cidade, património da UNESCO. Foi um momento sublime, protagonizado pelos cantores, descontraidamente sentados no chão da sala central, em diálogo de vozes com o guitarrista Manuel de Oliveira, um vimaranense que conta com um reportório distinto, quer do ponto de vista nacional, quer internacional. De facto, muitos recordarão a sua  presença em vários festivais, como o Emociona Jazz, em Madrid, ou o Coulers Jazz, em França, e as suas actuações com, por exemplo, Brad Mehldau, Chic Corea, Mike Stern, Richard Galiano, entre outros.

Após esta ‘estação’, seguiu-se na igreja da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira novo concerto. Desta vez, tudo começou, numa ritualidade inabitual de partilha e convite, com uma canção para a praça, sem que ninguém a esperasse. As mesas das esplanadas estavam repletas de turistas e havia passantes que se demoraram nesta participação ocasional. Em pura aceitação, muitos mostravam-se sensíveis ao que acontecia, aos dons de uma igreja de porta aberta, que não abdicou da sua missão para cuidar o espaço público. A música tem, entre tantas capacidades, a delicadeza de enriquecer as sonoridades urbanas, muitas vezes saturadas de ruídos, mesmo que com licenças pagas para isso. Entretanto, já no interior da igreja, para onde foram convidadas as pessoas, encontrava-se o Coro  Vilancico, criado em 2004, no seio da Academia de Música Valentim Moreira de Sá / Sociedade Musical de Guimarães. Como formação a capella, que se dedica ao estudo e interpretação de música vocal dos períodos da Idade Média e da Renascença, deliciou os ouvintes com uma breve seleção musical deste período, na primeira parte; a segunda, por sua vez, foi protagonizada pelo coro sueco.

O dia seguinte foi reservado para a Capela Imaculada, em Braga. Executado em todos os locais, o programa das músicas, deve dizer-se, foi preparado em função do espaço desta capela e, também por isso, dedicado a Maria, Mãe de Jesus. Nessa medida, na primeira parte, o coro interpretou hinos a Nossa Senhora partindo de cânticos e poemas suecos: Limu, Limu, Lima – Cântico tradicional; Kristallen den fina – Arr.: Gunnar Eriksson; Flos ut rosa floruit – M.: Per Nøgård; Madonna over Bølgerne – P. E. Lange-Müller; Virgo Gloriosa – M.: A. Söderman; Till Österland vill jag fara – Arr.: Gunnar Eriksson; Som ett blommande mandelträd – M.: Hildor Lundvik; Folkvisa från Gotland – Arr.: Hugo Alfven. Depois, na segunda parte, foi evocado o Cântico dos Cânticos, cuja espiritualidade, desde a Idade Média, foi associada a Nossa Senhora, mulher amante: Dyningar – M.: Lars Gullin; Nocturne – Arr.: Gunnar Eriksson; Bossa på tå(b) – .: Lars Gullin / Arr.: Gunnar Eriksson. Houve ainda tempo para a música sacra litúrgica: Audivi vocem de caelo – M.: Duarte Lobo; Benedictus – M.: Sördeman; Agnus Dei – M.: Lars Erik Larsson; Salve Regina para as mães do Brasil – M.: Lars Janson / Arr.: Gunnar Eriksson; Se, vi gå upp till Jerusalem – M.: Hino tradicional da Igreja Luterana sueca. E, ainda dentro desta abrangente associação, mas de natureza mais cósmica e estacional, evocaram ainda temas da Primavera: Våren – M.: Sven E. Bäck;  Den Blida vår är inne – M.: Gunnar Eriksson. E porque vale mais ouvir do que ler esta crónica, fazemos aqui a partilha de duas peças extraordinárias: Audivi vocem de caelo, do compositor português Duarte Lobo (c. 1565-24 setembro de 1646); e, com uma história belíssima na sua raiz, que não nos cabe contá-la aqui, a Salve Regina dedicada às mães do Brasil, com arranjo do próprio Gunnar Eriksson.









Na transição entre partes, Eduardo Amaral disse o poema «Arcos românicos», da autoria de Tomas Tranströmer, poeta sueco, presente na obra The Wild Market Square (Det vilda torget), escrita em 1983; recorde-se que ele foi Prémio Nobel da Literatura em 2011. Seguramente lembramos ainda que escreveu sobre as cidades de Lisboa e Funchal. Segundo o poeta Casimiro de Brito, que por ocasião da sua morte escreveu para a Lusa, Tranströmer era «o maior ou um dos maiores poetas do mundo».

Eis o poema na íntegra, para terminar esta crónica:

«Turistas amontoados no lusco-fusco da grande igreja românica.
Nave após nave se abria sem perspectiva. Algumas chamas de velas tremulando.

Um anjo cujo rosto não vi abraçava-me
e o murmúrio dele trespassava-me o corpo:
“Não tenhas vergonha de seres um ser humano, tem orgulho!
Em ti se abre uma nave após outra sem fim.
Nunca serás concluído, e é assim que tem de ser.”
Lágrimas cegavam-me
enquanto éramos levados para a intensa praça iluminada
na companhia de Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e Signora Sabatini;

em cada um deles nave após nave se abria sem fim.»

(Feira Livre, 1983, a partir da versão inglesa de Robert Bly)









Não foi entre arcos românicos que o Coro de Câmara de Gotemburgo deu o seu último concerto nesta digressão a Portugal, mas na igreja barroca de S. Jerónimo de Real, bem ao lado de uma das mais belas construções do período visigótico, a Capela de São Frutuoso, ou de Montélios, cuja primitiva edificação terá sido inspirada nos mausoléus de estilo ravenaico-bizantino.

Entre os promotores deste ciclo de concertos, devem salientar-se e agradecer-se os esforços do Pe. Hermenegildo Faria, ao serviço desta paróquia, o escultor Asbjørn Andresen e sua esposa Lisa Sigfridsson, da Suécia, bem como os Seminários de Braga, onde Gunnar Eriksson e os membros do coro foram acolhidos na mais familiar hospitalidade. Através deles, procura o Seminário Conciliar promover o encontro de culturas tão diversas como são a escandinava e a ibérica, ambas marcadas por uma profunda espiritualidade cristã, ao serviço da promoção da música, também a litúrgica, que pode beneficiar de contactos internacionais e do diálogo aberto na partilha de experiências e desafios. Enfim, os compromissos estabelecem-se e as novas criações aparecem naturalmente.

Por fim mesmo, mais uma estrofe, da canção do início, a reforçar a esperança que nunca falha: «Existe uma fonte de esperança que nunca falha / apesar de todas as cicatrizes amargas e doloridas / uma esperança não necessária aos poderes que existem / mas às crianças cuja voz sobe ao longe.»













 

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