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São Job: A humildade da confiança contra a resignação

Imagem Job em desespero (det.) | Marc Chagall | Museu Nacional da Mensagem Bíblica, Nice, França | D.R.

São Job: A humildade da confiança contra a resignação

Viveu na terra de Uce (cf. Job 1,1), que muitos autores identificam com a região entre a Idumeia e a Arábia setentrional. Estava no auge da riqueza quando, imprevistamente, foi atingido por uma série de desgraças que depressa o provaram de todos os seus bens e até dos filhos (cf. 1,13-19).

Todos experimentámos, pelo menos uma vez na vida, a sensação que invade Job diante das numerosas desgraças que o aniquilaram, fazendo-o perder riquezas e afetos. E a figura deste santo do Antigo Testamento, protagonista do livro homónimo, homem talvez não judeu mas decerto «íntegro e reto», «que teme a Deus» (Job 1,1; 2,3) mostra-nos o caminho a seguir nos momentos em nos parece que "o mundo nos cai em cima".

Atingido por uma doença que o reduz a uma chaga, não perde a calma, nem sequer diante do escárnio e da derisão da mulher (cf. 2,7-10). Expulso de casa, é obrigado a passar os seus dias entre a imundície. É aí que o encontram três amigos que, informados da sua desgraça, vão ao seu encontro para o confortar.

É a partir daqui que o livro introduz um longuíssimo diálogo (cf. 3-41) que discute de forma altamente poética o problema da dor no mundo. A vida de Job após a provação é depois resumida pelo livro em pouquíssimos versículos (cf. 42,11-17). Readquire os seus bens, gerou sete filhos e três filhas e vive durante mais 140 anos.

Job vive tudo não numa passiva resignação acomodada, mas na humildade de um enorme ato de confiança: tudo é dado por Deus, afirma: «O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou: bendito seja o nome do Senhor» (1,21). Por isso nada nos pertence, nem sequer a nossa vida, que é a maior «graça» recebida sem que algum mérito tivéssemos.

«Mesmo quando a doença, a solidão e a incapacidade levam a melhor sobre a nossa vida de doação, a experiência do sofrimento pode tornar-se lugar privilegiado da transmissão da graça e fonte para adquirir e fortalecer a “sapientia cordis” [sabedoria do coração]. Por isso se compreende como Job, no fim da sua experiência, pôde afirmar dirigindo-se a Deus: «Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora vêem-te os meus próprios olhos» (42,5). Também as pessoas imersas no mistério do sofrimento e da dor, se acolhido na fé, podem tornar-se testemunhas vivas duma fé que permite abraçar o próprio sofrimento, ainda que o homem não seja capaz, pela própria inteligência, de o compreender até ao fundo», escreveu o papa Francisco.

O papa S. João Paulo II, por seu lado, ao dirigir-se aos artistas, sublinhava que uma figura como a de Job, «com a problemática pungente e sempre atual da dor, continua a suscitar conjuntamente interesse filosófico, literário e artístico».

Noutra ocasião, escreveu: «Job, na profundidade da sua dor, detém-se a contemplar a obra de Deus na miraculosa formação do seu corpo no ventre da mãe, retirando daí motivo de confiança e exprimindo a certeza da existência de um projeto divino para a sua vida: “As tuas mãos formaram-me e fizeram-me e, de repente, vais aniquilar-me? Lembra-Te que me formaste com o barro; far-me-ás, agora, voltar ao pó? Não me espremeste como o leite e coalhaste como o queijo? De pele e de carne me revestiste, de ossos e de nervos me consolidaste. Deste-me a vida e favoreceste-me; a tua providência conservou o meu espírito” (10, 8-12)».

O exemplo de Job, por isso, é o de um homem sábio que sabe confiar-se ao Senhor até ao fim. E foi assim que encontrou a autêntica felicidade, a verdadeira vida em plenitude.

 

Com "Avvenire"
Redação: Rui Jorge Martins
Publicado em 10.05.2016

 

 
Imagem Job em desespero (det.) | Marc Chagall | Museu Nacional da Mensagem Bíblica, Nice, França | D.R.
Job vive tudo não numa passiva resignação acomodada, mas na humildade de um enorme ato de confiança: tudo é dado por Deus, afirma: «O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou: bendito seja o nome do Senhor» (1,21). Por isso nada nos pertence
Job, na profundidade da sua dor, detém-se a contemplar a obra de Deus na miraculosa formação do seu corpo no ventre da mãe, retirando daí motivo de confiança e exprimindo a certeza da existência de um projeto divino para a sua vida
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