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S. João de Deus: de pastor, soldado e livreiro a convertido, compadecido e cativado

A Ordem Hospitaleira de S. João de Deus foi fundada por João Cidade, nascido em Montemor-o-Novo por volta de 1495 e falecido em Granada em 1550.

João Cidade, mais tarde S. João de Deus, saiu de Portugal para Espanha aos oito anos para uma vida de aventura, tendo sido pastor em Oropesa, por duas vezes, e outras tantas soldado: a primeira vez na guerra de Carlos V contra Francisco I de França e a segunda em Viena contra os turcos.

Após algum tempo a trabalhar nas muralhas de Ceuta, em que se prodigalizou a socorrer uma família aristocrata ali exilada, foi livreiro ambulante no Sul de Espanha, fixando-se com essa profissão em Granada, cerca de 1537.

Pelo ano de 1538 converteu-se a uma vida cristã radical ao ouvir um sermão de S. João de Ávila. Abraçou, com muita emoção, comportamentos penitenciais que alguns interpretaram como loucura, levando-o a ser internado no Hospital Real de Granada, onde foi tratado com os métodos violentos da época.

A experiência de ver tratar tão mal os loucos do Hospital Real maturou o desejo de os vir a tratar com humanidade. Após peregrinação a Guadalupe, dedicou-se a assistir pobres e doentes sem abrigo. Contra todas as práticas da época passou a assisti-los num pequeno hospital na R. Lucena, o qual, por se tornar pequeno para os 120 doentes e pobres, teve de ser mudado para outro edifício, em que pôde assistir 200 internados.

Eram hospitais não apenas para assistência mas para tratamentos. Tinham médico, boticário (farmacêutico), enfermeiros e capelães. O Hospital de S. João de Deus, por dispor deste corpo de profissionais, pela separação dos doentes por doenças e pela atribuição de uma cama por doente, é justamente considerado um hospital moderno.

Pelo êxito assistencial que ia ganhando forma na Andaluzia foram-se agregando ao santo alguns companheiros de hábito, que formaram o núcleo fundador da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus. Esta teve a sua primeira aprovação em 1 de janeiro de 1572 por Pio V como congregação. Sisto V, em 1 de outubro de 1586, aprovou-a com o estatuto de Ordem Mendicante, apesar de ser formada por irmãos leigos.

Ainda no final do séc. XVI os Hospitaleiros começaram rapidamente a difundir-se pelas cidades de Andaluzia chegando até Madrid.

S. João de Deus é proclamado, em 27 de maio de 1886, em conjunto com S. Camilo de Lélis, patrono dos doentes e seus hospitais e, em 28 de agosto de 1930, igualmente com S. Camilo de Lélis, patrono dos enfermeiros e suas associações. Beatificado em 1630 e canonizado em 1690, é liturgicamente evocado a 8 de março.

«Conheceis a resposta que S. João de Deus deu ao arcebispo de Granada, que o exortava a "limpar o Hospital", pondo fora alguns doentes indisciplinados e bulhentos. O biógrafo refere que o santo "ouviu com muita atenção tudo o que o seu prelado lhe dizia, e com muita humildade e mansidão lhe respondeu: 'Pai meu e bom prelado, só eu sou o mau, o incorrigível e inútil, que mereço ser expulso da casa de Deus. Os pobres que estão no hospital são bons, e de nenhum deles conheço qualquer vício. Depois, já que Deus tolera os maus e os bons, e cada, dia faz nascer sobre todos o seu sol, não é razoável expulsar os abandonados e os aflitos, da própria casa deles' "», afirmou o papa S. João Paulo em 1981.

A Ordem está hoje presente em 50 países dos cinco continentes, com cerca de 300 hospitais e obras assistenciais.

 

Das Cartas de S. João de Deus

Vêm aqui tantos pobres, que até eu me espanto como é possível sustentar a todos; mas Jesus Cristo a tudo provê e a todos alimenta. Vêm muitos pobres à casa de Deus, porque a cidade de Granada é muito fria, e mais agora que estamos no inverno. Entre todos – doentes e sãos, gente de serviço e peregrinos – há aqui mais de cento e dez pessoas. Como esta casa é geral, recebe doentes de todos os géneros e condições: tolhidos, mancos, leprosos, mudos, dementes, paralíticos, tinhosos, alguns já muito velhos e outros muito crianças ainda, e por cima disto muitos peregrinos e viajantes, que cá chegam e aqui encontram lume, água, sal e vasilhas para cozinhar os alimentos. E para tudo isto não se recebe renda especial, mas Cristo a tudo provê.

Desta maneira estou aqui muito empenhado e prisioneiro por amor de Jesus Cristo. Vendo-me tão carregado de dívidas que já mal me atrevo a sair de casa, e vendo tantos pobres, irmãos e próximos meus, sofrerem para além das suas forças e serem oprimidos por tantos infortúnios no corpo ou na alma, sinto profunda tristeza por não poder socorrê-los, mas confio em Cristo, que conhece o meu coração. Por isso digo: maldito o homem que confia nos homens e não em Cristo somente; porque dos homens hás de ser separado, queiras ou não queiras; mas Cristo é fiel e permanece para sempre, Cristo tudo provê. A Ele se deem graças para sempre. Ámen.



 

Resenha histórica: A.M.Borges, A. Gameiro
In "O esplendor da austeridade", ed. INCM
Texto de S. João de Deus: Secretariado Nacional de Liturgia
Imagem: "S. João de Deus" (det.) | Bartolomé Esteban Murillo | C. 1672 | Hospital da Caridade, Sevilha, Espanha
Publicado em 08.03.2018

 

 
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