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S. Bruno, fundador da Ordem Cartuxa: «Vida escondida» que é «eloquente contestação das lógicas de rendimento e de eficácia»

Imagem S. Bruno em oração no deserto (det.) | Nicolas Mignard | 1628 | Museu Calvet, Avignon, França

S. Bruno, fundador da Ordem Cartuxa: «Vida escondida» que é «eloquente contestação das lógicas de rendimento e de eficácia»

Nascido na atual Alemanha em 1030, e vivendo depois entre o seu país, a França e a Itália, onde morre 1101, Bruno, professor de Teologia e Filosofia, escolhe bem cedo o caminho da vida eremítica.

Encontra seis companheiros que pensavam como ele e o bispo Hugo, de Grenoble, ajuda-os a estabelecerem-se numa localização selvagem dita "cartuxa", "chartreuse" em francês. Os monges criam então um espaço para a oração comum, e sete barracas onde cada um vive rezando e trabalhando: uma vida de eremitas com momentos comunitários.

Quando Bruno ensinava em Reims, um dos seus alunos era o beneditino Oddone de Châtillon, que em 1088 é eleito papa com o nome de Urbano II. Dois anos depois, o pontífice escolhe Bruno para conselheiro, e este obtém do primeiro reconhecimento e autonomia para o mosteiro fundado perto de Grenoble, que veio a ser conhecido como a Grande Cartuxa ("Grande Chartreuse").

Bruno virá a fundar uma nova comunidade na atual província de Vibo Valentia, na Calábria, em Itália, com o mesmo rigor da original. Mais tarde, a pouca distância, construirá outro mosteiro para a vida comunitária, tendo como destinatários aqueles que, não se adaptando à aspereza eremítica, prefere viver em comunidade.

Os seus poucos confrades (não gosta de estar rodeado de muita gente) devem estar prontos para a dureza de uma vida que Bruno ensina com o conselho e com instruções escritas, notas que depois da sua morte serão codificadas na Regra, aprovada em 1176 pela Santa Sé.

A existência segundo a Cartuxa segue o modelo da Igreja primitiva, na pobreza e na alegria, cantando louvores a Deus e servindo com o trabalho. S. Bruno morre a 6 de outubro de 1101. O seu culto foi aprovado pelo papa Leão X (1513-1521) e confirmado por Gregório XV (1621-1623).

O papa Francisco enviou em 2014 uma carta ao ministro-geral da Ordem dos Cartuxos, P. François-Marie Velut, por ocasião do 500º aniversário da canonização equipolente de São Bruno, celebrada a 4 de junho desse ano.

Na mensagem, Francisco enaltece a «bela e irradiante figura, cuja vida, moldada pelo Evangelho, continua a inspirar homens e mulheres desejosos de seguir de maneira particular a Jesus orante e que se oferece para a salvação do mundo».

S. Bruno continua a ser «uma estrela brilhante no horizonte, para a Igreja e para o mundo, pela densidade de sua existência, dedicada toda ela a uma procura assídua de Deus e à comunhão com Ele», realçou Francisco.

Ao recordar a visita de Bento XVI à Cartuxa de "Serra San Bruno", em 2011, o papa recordou as as palavras do seu predecessor, reafirmando «que a situação sócio-cultural atual, caracterizada pelo ruído ou, ao contrário, por uma solidão individualista, põe em evidência o carisma específico da Cartuxa como um dom precioso para a Igreja e para o mundo, um dom que encerra uma mensagem profunda para (...) a vida e para a humanidade».

«Abandonar as realidades fugazes e procurar capturar o eterno. Nesta expressão da carta que o vosso Fundador dirigiu ao Abade de Reims, Rodolfo, está encerrado o núcleo da vossa espiritualidade: o forte desejo de entrar em união de vida com Deus, abandonando tudo o resto, tudo aquilo que impede esta comunhão, e deixando-se capturar pelo amor imenso de Deus, para viver só deste amor. Caros irmãos, vós encontrastes o tesouro escondido, a pérola de grande valor», afirmou na ocasião o papa emérito.

Para Bento XVI, o chamamento de Deus a cada pessoa, a vocação, e em particular a dos Cartuxos, «encontra resposta num caminho, na busca de uma vida inteira. Com efeito, não é suficiente retirar-se num lugar como este para aprender a estar na presença de Deus. Assim como no matrimónio não basta celebrar o sacramento para se tornar efectivamente um só, mas é necessário deixar que a graça de Deus aja e percorrer juntos a quotidianidade da vida conjugal, também o tornar-se monge exige tempo, exercício e paciência, "numa vigilância divina perseverante" — como afirmava são Bruno».

«A Igreja tem necessidade de vós, e que vós precisais da Igreja. O vosso lugar não é marginal: nenhuma vocação é marginal no Povo de Deus: somos um único corpo, em que cada membro é importante e tem a mesma dignidade, e é inseparável do todo. Também vós, que viveis em isolamento voluntário, estais realmente no coração da Igreja, e fazeis correr nas suas veias o sangue puro da contemplação e do amor de Deus», vincou Bento XVI durante a sua visita.

Por seu lado, S. João Paulo II, declarou que a pobreza dos Cartuxos, «oferecida para a glória de Deus e a salvação do mundo, é uma eloquente contestação das lógicas de rendimento e de eficácia que, muitas vezes, fecham o coração dos homens e das nações às verdadeiras necessidades dos seus irmãos».

«A vossa vida escondida com Cristo, como a Cruz silenciosa plantada no coração da humanidade redimida, permanece de facto para a Igreja e para o mundo o sinal eloquente e o chamamento permanente do facto que cada ser, hoje como ontem, se pode deixar prender por Aquele que é amor», escreveu o papa polaco em 2001 na mensagem aos membros da Família dos Cartuxos, no nono centenário da morte de S. Bruno.

Os seguidores de S. Bruno estão presentes em Portugal com uma comunidade em Évora, na Cartuxa Santa Maria Scala Coeli (Escada do Céu), vivendo diariamente a convicção expressa pelo lema da congregação: "Stat Crux dum volvitur orbis", que tem o significado aproximado à expressão "a Cruz permanece firme enquanto o mundo gira".

 

Domenico Agasso, SNPC
Publicado em 06.10.2015

 

 

 
Imagem S. Bruno em oração no deserto (det.) | Nicolas Mignard | 1628 | Museu Calvet, Avignon, França
Abandonar as realidades fugazes e procurar capturar o eterno. Nesta expressão de uma carta do vosso Fundador está encerrado o núcleo da vossa espiritualidade: o forte desejo de entrar em união de vida com Deus, abandonando tudo o resto, tudo aquilo que impede esta comunhão, e deixando-se capturar pelo amor imenso de Deus, para viver só deste amor
Também vós, que viveis em isolamento voluntário, estais realmente no coração da Igreja, e fazeis correr nas suas veias o sangue puro da contemplação e do amor de Deus
A vossa vida escondida com Cristo, como a Cruz silenciosa plantada no coração da humanidade redimida, permanece de facto para a Igreja e para o mundo o sinal eloquente e o chamamento permanente do facto que cada ser, hoje como ontem, se pode deixar prender por Aquele que é amor
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