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Santuários, onde a autêntica revolução cultural pode começar

Tornou-se uma expressão comum a do papa Francisco que identifica a Igreja como um hospital de campanha. A imagem tem o seu próprio valor expressivo. Provoca para verificar, em alguns aspectos, a relação Igreja-mundo e a missão que a comunidade de crentes possui hoje diante de uma passagem epocal que manifesta os traços de uma mudança radical de cultura. Essa perspectiva, no entanto, não nos deve fazer esquecer uma questão fundamental: se o nosso contemporâneo tem a consciência de estar realmente ferido, mutilado e doente, ao ponto de precisar de cuidados médicos.

Temo que o nosso contemporâneo não se sinta necessitado de cuidados e quando sente a sua necessidade, não pensa em primeiro lugar na fé e na religião católica. Num contexto de supermercado da oferta religiosa, a Igreja Católica surge, provavelmente, como a menos apetecível. Este facto é certamente visível num contexto como o do Ocidente em geral, que ainda vive sob o primado do secularismo. A conquista tecnológica, o progresso das ciências e a convicção declarada de independência e autonomia de toda a forma de autoridade – em primeiro lugar a religiosa – conduzem a uma escolha diferente.

A Igreja, por isso, tem a obrigação de manter o olhar atento sobre os fenómenos culturais que vive, porque esta é a condição do seu estar inserida na história e ter a responsabilidade de permanecer ao longo dos séculos como mediação fiel da revelação. É na medida em que se conhecem os fenómenos, que se compreendem a analisam, que se torna também possível orientá-los para salvaguardar o ser humano e promovê-lo para formas de existência pessoal que o realizam, libertando-o das formas reais de aniquilação às quais ele é certamente submetido.



Quando se trabalha num santuário, é decisivo conhecer a atitude cultural do peregrino, que é de facto um filho do seu tempo e que não pode livrar-se da cultura da qual vive, sob pena da impossibilidade de autocompreensão



Mas não só. Uma genuína obra de evangelização dirigida às pessoas de nosso tempo só pode ser realizada na medida em que se transmite a riqueza do passado que criou tradição e cultura. As pessoas parecem hoje encontrar-se numa situação flutuante; faltam pontos de referência estáveis e indicações seguras que possam permitir um caminho de identidade madura. De certa forma, estamos perante uma fluidez que deriva da "sociedade líquida" incapaz de produzir formas alternativas.

Uma pastoral que queira ser eficaz precisa de confrontar-se também com essas realidades, que não são de todo isoladas porque pertencem a uma vasta área da população, inclusive crente. Quando se trabalha num santuário, é decisivo conhecer a atitude cultural do peregrino, que é de facto um filho do seu tempo e que não pode livrar-se da cultura da qual vive, sob pena da impossibilidade de autocompreensão. Parece-me importante, portanto, que o santuário se exprima, antes de tudo, como um lugar para recuperar a esperança cristã; isto é, a capacidade de olhar para o futuro como compromisso de vida, mas partindo do presente como fidelidade ao realismo evangélico.

No santuário é necessário que se respire esse ar de credibilidade no encontro com quem trabalha lá. A oração que é celebrada requer um acompanhamento constante e pessoal com a Palavra de Deus, para tornar-se gradualmente uma contemplação do mistério que se respira entre as paredes do santuário. Educar para o sentido do mistério, porque isso pertence ao homem, e o homem confia-se ao mistério para encontrar uma resposta que esteja repleta de sentido, sem o deixar no vazio da incerteza que cria medo. Da mesma forma, o mistério impede cair nas mãos de um pensamento que tende a explicar tudo, sem sequer se ser capaz de compreender até ao fundo o que ele está a pensar e a refletir. Não menos importante, o mistério evita a precipitação em formas pseudo-religiosas ou de superstição que se fazem fortes do excesso de sentimentalismo fanático ou, inversamente, de teorias de matriz reencarnacionista que anulam a personalidade, negando a própria identidade. Educar para acolher com seriedade o mistério equivale a colocar o peregrino num caminho árduo, mas não menos necessário e decisivo para a fé. Ele percorre algumas etapas que, de tempos a tempos, marcam o percurso completo.



Num período como o nosso, muitas vezes caracterizado pelo fechamento do indivíduo em si mesmo, sem possibilidade alguma de relação, e onde a delegação parece prevalecer sobre a forma direta de participação, o chamamento à responsabilidade implica um testemunho que se encarrega do irmão com maior necessidade de ajuda



Uma primeira etapa impõe que se saiba olhar para a realidade, ainda que a sua representação apareça muitas vezes como enigmática, velada e oculta. O que conhecemos, além disso, de uma aparição ou acontecimento sobrenatural? Uma segunda é saber enfrentar o desafio da razão que interroga e coloca perguntas, mesmo na consciência de que o mesmo intelecto tem um horizonte finito e limitado, mas não é por isso que é renunciante. Uma terceira, procura descobrir as "razões do coração", para entrever entre as dobras se esse mistério é plausível e, ainda mais, credível e que dá sentido à vida, sobretudo no momento que se experimenta e que levou a pessoa a colocar-se em peregrinação para o santuário. Uma quarta etapa sabe fazer da contemplação a via privilegiada para se inserir com coerência no interior do próprio mistério e constatar assim a sua eficácia. Finalmente, uma última pede o ato de abandono como exercício último de liberdade; chega à conclusão de um caminho em que tudo foi verificado. Em suma, experimenta-se a própria pobreza, mas deposta nas mãos de um Deus que vive de misericórdia.

Por fim, um espaço especial da pastoral no santuário é certamente o âmbito da caridade. Num período como o nosso, muitas vezes caracterizado pelo fechamento do indivíduo em si mesmo, sem possibilidade alguma de relação, e onde a delegação parece prevalecer sobre a forma direta de participação, o chamamento à responsabilidade implica um testemunho que se encarrega do irmão com maior necessidade de ajuda. O doente crónico, o moribundo, o marginalizado, o portador de deficiência e quantos outros exprimem aos olhos do mundo a falta de futuro e de esperança encontram o compromisso dos cristãos. Temos exemplos que exortam fortemente à santidade de homens e mulheres que fizeram deste programa o anúncio concreto do Evangelho de Jesus Cristo e, com ele, o início de uma autêntica revolução cultural. Diante dessa santidade, cai todo o possível álibi. A utopia dá lugar à credibilidade e a paixão pela verdade e pela liberdade encontram síntese no amor oferecido sem nada pedir em troca.


 

D. Rino Fisichella
Presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: tagore75/Bigstock.com
Publicado em 29.08.2018

 

 
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