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Salvaguardar é preciso

Nunca estaremos suficientemente gratos aos colecionadores de arte sacra do nosso país. Pensemos o que pensarmos sobre o seu amor às peças que foram e vão juntando ao longo de uma vida, quantas vezes com sacrifício pessoal, temos de reconhecer que graças à sua atividade se salvaram e salvam muitas obras da nossa cultura. Essa gratidão deve ser ainda maior quando alguns deles, em determinado momento da sua vida, se sentiram na obrigação de devolver as peças adquiridas ao usufruto público, cedendo-as ou vendendo-as a museus ou a outras instituições. Asseguram assim a continuidade da sua salvaguarda daqueles objetos, onde as mãos dos criadores humanos tentaram expressar a sua interpretação da palavra de Deus, da religiosidade humana ou das figuras e narrativas que, ao longo de séculos, edificaram a história religiosa de Portugal e de outras paragens.

Homens como José Régio, Ruy Sequeira, Ernesto Vilhena, António Miranda, Pe. Francisco Belo, Francisco Ernesto de Oliveira Martins, António Capucho, Medeiros e Almeida, Júlio Reis Pereira e alguns mais cumpriram um papel importantíssimo na nossa cultura. Podemos discutir os seus métodos e o seu sentido de oportunidade, o cuidado que nem sempre tiveram no registo da proveniência das obras de arte que foram comprando, mas temos de nos vergar à lógica da sua atuação e à maneira como, depois, devolveram o património, no fundo comum, ao público mais ou menos crente.

Nunca é demais lembrar as palavras do Papa Francisco que, num livro intitulado “La Mia Idea di Arte” (infelizmente indisponível em português), sublinha o papel evangelizador da pintura, da escultura, da arquitetura, da música e de outras artes, ao serem, mais do que muitos discursos teológicos, vias eloquentes de interpretação da revelação apostólica. Essa sua capacidade não se esbate nem desaparece quando as peças, levadas por circunstâncias diversas, saem dos edifícios religiosos. Tornam-se antes vias especiais que continuam a levar, subtilmente, mesmo aos descrentes, a mensagem divina.



Dizia-me há anos um importante responsável eclesiástico que, “muitas vezes, os ladrões valorizam mais as peças que a Igreja possui do que muitos dos seus detentores, cuja única preocupação é vender ou atirar para o lixo o que parece velho e inadequado à sua miopia



Não devemos ainda esquecer que, já no século VIII, há mais de mil e duzentos anos (!), se considerava perigosa a hierarquia estabelecida por alguns entre as obras de arte religiosa, em função da mestria artística com que haviam sido executadas ou da sua adequação ao gosto do tempo e dos grupos, mais ou menos fechados. Num texto importante da época (o “Capitulare de Imaginibus”), nunca renegado pela Igreja, chegaram a apontar-se, com fundamento, alguns fumos de heresia nessa postura: “se as mais preciosas são as que merecem ser honradas, a honra recai sobre o labor artístico e a qualidade do material, não sobre o fervor da devoção”. Todas – “formosas ou disformes”, aí se escreve – são instrumentos eloquentes que nos recordam os mistérios da Fé e as narrativas do percurso dos seus protagonistas. Quem assim não compreenda, está a agir ao arrepio das Escrituras, louvando as criaturas e desprezando o Criador que a todos pegou na mão, sem distinções.

Não podemos esquecer o quanto devemos agradecer aos colecionadores “de santos”. Sem eles, muito património ter-se-ia perdido. Teria sido levado pela ignorância e pela arrogância dos homens (clérigos e leigos), pela ambição ou pela estupidez que moveu tantas épocas da nossa História, pelas “modas” que, frequentemente, lançaram para a poeira das arrecadações das igrejas esculturas, pinturas, livros, alfaias e outros objetos valiosíssimos e belíssimos, só porque não correspondiam aos padrões “estéticos” daqueles que eram os seus fiéis depositários (e não seus donos!) ou à visão fechada, fundamentalista e anti-histórica de algumas “seitas” de outros e do nosso tempo.

Dizia-me há anos um importante responsável eclesiástico que, “muitas vezes, os ladrões valorizam mais as peças que a Igreja possui do que muitos dos seus detentores, cuja única preocupação é vender ou atirar para o lixo o que parece velho e inadequado à sua miopia, mandando repintar nos santeiros de Braga ou de Fátima as peças que os nossos antepassados nos legaram e eles, no fundo, detestam…” Acrescentava: “Pelo menos os ladrões e os colecionadores dão valor ao que temos…”

Na altura, as suas palavras deixaram-me sem resposta e puseram-me a pensar. Embora reconhecendo as várias exceções que há pelo país, cujo mérito nunca será demais realçar (sobretudo perante os que agem de outro modo, vandalizando ou pretendendo vandalizar o que no fundo não lhes pertence), vi-me obrigado a concordar com esse prelado. E, cá entre nós, o tempo tem-lhe dado razão.

(para Albino Fialho, colecionador)  

 

 

Ruy Ventura
Poeta, investigador
Imagem: D.R.
Publicado em 01.10.2018

 

 
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