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Rui Chafes, René Girard, Ramalho Ortigão e José Luís Peixoto na "Brotéria"

Imagem Rui Chafes | Gonçalo Rosa da Silva/Expresso | D.R.

Rui Chafes, René Girard, Ramalho Ortigão e José Luís Peixoto na "Brotéria"

A revista "Brotéria", publicada desde 1902 pelos Jesuítas portugueses, apresenta na sua edição mais recente artigos centrados no percurso artístico de Rui Chafes, René Girard, Ramalho Ortigão e José Luís Peixoto.

Referindo-se à atribuição ao escultor Rui Chafes do Prémio Pessoa 2015, João Sarmento, S.J. sublinha que desde 1990 a distinção não era concedida a uma figura ligada às artes plásticas, pelo que a escolha «surpreendeu o país quando olhou para um dos atores mais completos mas também mais complexos da produção plástica contemporânea portuguesa».

«Estamos diante de uma figura profundamente enigmática que, aos 49 anos de idade, consegue já reunir sobre si uma atmosfera mitológica - mesmo que seja seu desejo - que de algum modo condiciona, ou informa, os modos de "ver" o seu trabalho», considera o religioso.

João Sarmento defende que só é possível compreender Rui Chafes «sobre o plano de divergência com as práticas de um plasticismo sem pensamento, de uma oligarquia do "design", do esteticismo que condena a ética na cadeira elétrica da banalidade. "O rei vai nu", porque a absoluta exterioridade é a mais irreal e ridícula das formas de "fazer mundo"».

«Para Rui Chafes a "intemporalidade nunca é pacífica". E, por isso, ele mesmo relata inesperadamente a seguinte lenda: "Uma noite, há muitos anos, parti um cristal da maior pureza. Fizeram-me prometer, nessa noite longínqua, que passaria o resto da minha vida a tentar reconstruí-lo. É o que tenho vindo a fazer, ano após ano. Trago essa noite em mim como uma cicatriz". Mais que o plano metafórico, a efetivação da sutura, da reparação desta noite, sacraliza o gesto e faz do cristal a "estrela" de um caminho pouco percorrido. Voltar à irradiação da luz dessa massa vítrea é fazer o Ícone que abole o ídolo, "fazer signo" novo e primordial», conclui João Sarmento.

Guilherme d'Oliveira Martins evoca René Girard (1923-2015), «um dos pensadores contemporâneos mais estimulantes, que dedicou parte importante da sua vida intelectual à análise da violência e da sua superação».

«A partir da noção de "violência mimética", da leitura da Bíblia e da influência do cristianismo, o autor de "La bouc émissaire" (Grasset, 1982) procurou uma explicação para a evolução divergente entre as religiões arcaicas e a judaico-cristã no tocante aos mitos violentos originais. Num tempo em que o tema da escalada da violência está na ordem do dia, a obra de Girard ganha um sentido muito especial», considera o administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.

O ex-presidente do Centro Nacional de Cultura acentua num período marcado por «intensas perplexidades a propósito da violência que suscita e agrava a violência, importa recordar, com Girard, "que toda a violência doravante revela o que fica revelado pelo lugar essencial da paixão de Cristo, a génese imbecil dos ídolos sangrentos, de todos os falsos deuses das religiões, das políticas e das ideologias". Trata-se, no fundo, de contrapor uma resposta centrada no respeito mútuo e na dignidade humana, por contraponto às diversas formas de idolatria».

O centenário da morte de Ramalho Ortigão, ocorrido em 2015, e os 120 anos da publicação de "O culto da arte em Portugal", do mesmo autor, estão no centro do artigo de Nuno Sotto Mayor Ferrão, para quem o livro «soube despertar a consciência histórica e estética da elite portuguesa para a necessidade de se preservar o património histórico-artístico português, tão maltratdo ao longo do regime da monarquia liberal».

«Neste livro sublime, Ramalho Ortigão descreve o desmazelo que as autoridades nacionais e os privados tiveram ao longo da História pelo legado patrimonial da arte portuguesa, em particular dos bens históricos-artísticos ligados à epopeia heroica dos Descobrimentos Marítimos Portugueses, que deviam ser, no seu ponto de vista, fonte de orgulho e de inspiração para os portugueses do seu tempo e das gerações vindouras», sustenta o mestre em História Contemporânea.

Mário Garcia, S.J. analisa a novela "Eu teu ventre", de José Luís Peixoto, «inspirada nas Aparições de Fátima», vincando que «o que mais impressiona» na obra «são as vozes». O que torna o livro «novo» é «o coração de leão de uma criança; a verdade que se expande sem ruído; a distância, afinal, da terra ao céu, que não se encurta, mas cada vez mais se alarga. E tudo isto sem eloquência».

«"Em teu ventre" não pretende ser uma obra ficcional, isto é, puramente fruto da imaginação, sobre as Aparições de Fátima, mas a verdade da receção delas por uma mentalidade que as acolhe. Nunca se põem em causa os factos e, quando eles estão errados, corrigem-se com outros factos. A verdade da ficção, ou a "liberdade livre" (Rimbaud) da poesia, permite a José Luís Peixoto interpretá-los, através de uma "ideia" ou de uma "hipótese", nunca deturpá-los ou destruí-los, aponta o mestre em Literatura.

José Luís Peixoto «intuiu bem, na força do olhar puro, a "adoração". Como Moisés, diante da "sarça ardente", descalça-se, beija a terra, prostra-se e pronuncia diante do Sagrado esta espécie de oração: "Entre o infinito do céu e o infinito da terra, existe o teu infinito, igualmente desmedido e ilimitado. Mãe, o tempo não é capaz de conter-te. Mãe, morte e amor. Mães, esperança" (p. 163). São as últimas palavras do livro, que tocam nas primeiras: "Tudo começa pela esperança" (p. 11)», termina Mário Garcia.

A edição de fevereiro da "Brotéria" compreende também os artigos "A representação de Jeanne d'Arc no cinema, Do drama de consciência ao conflito como espetáculo" (Carlos Capucho), "Frei Miguel Contreiras. A construção retórica de um mito fundacional das Misericórdias Portuguesas" (Joana Balsa de Pinho), "Portugal: necessidade de arrependimento e de conversão coletivos" (Manuel Braga da Cruz), "Aristíteles em Coimbra. Um novo livro sobre os Conimbricenses" (Francisco Romeiras) e "Eutanásia: mais do mesmo?" (Walter Osswald) (cf. Artigos relacionados).

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 01.05.2016

 

 

 
Imagem Rui Chafes | Gonçalo Rosa da Silva/Expresso | D.R.
Só é possível compreender Rui Chafes «sobre o plano de divergência com as práticas de um plasticismo sem pensamento, de uma oligarquia do "design", do esteticismo que condena a ética na cadeira elétrica da banalidade»
Guilherme d'Oliveira Martins evoca René Girard (1923-2015), «um dos pensadores contemporâneos mais estimulantes, que dedicou parte importante da sua vida intelectual à análise da violência e da sua superação»
«Neste livro sublime, Ramalho Ortigão descreve o desmazelo que as autoridades nacionais e os privados tiveram ao longo da História pelo legado patrimonial da arte portuguesa, em particular dos bens históricos-artísticos ligados à epopeia heroica dos Descobrimentos Marítimos Portugueses»
«"Em teu ventre" não pretende ser uma obra ficcional, isto é, puramente fruto da imaginação, sobre as Aparições de Fátima, mas a verdade da receção delas por uma mentalidade que as acolhe»
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