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Roberto e Rosário Carneiro: «Os valores de família impuseram-se como a coisa mais sólida, fundamental e insubstituível»

Imagem Maria do Rosário e Roberto Carneiro | Nuno Ferreira Santos/Público | D.R.

Roberto e Rosário Carneiro: «Os valores de família impuseram-se como a coisa mais sólida, fundamental e insubstituível»

«Que eles descubram, como nós descobrimos, que a felicidade está na relação com o outro. Dar, dar, dar é o lema de vida. Dar sem limites e sem esperar reciprocidade nem contabilizar perdas e ganhos.»

Este é parte do retrato que Roberto e Maria do Rosário Carneiro, pais de nove filhos, esperam que os netos façam quando, daqui a alguns anos, lerem a entrevista ao jornal "Público" que o casal deu à pela jornalista Anabela Mota Ribeiro.

«Recebemos também dos nossos filhos e dos nossos netos, e das pessoas com quem nos relacionamos. Esta cadeia do dar e receber, isso sim, é uma maré que vai e vem. Mas temos de a alimentar. Se nada se envia, nada retorna», sublinha, por seu lado, Maria do Rosário.

Roberto Carneiro fala da esperança que de que os netos descubram que para os avós «os valores de família se impuseram como a coisa mais sólida, fundamental e insubstituível na formação de personalidades plenas, íntegras e solidárias».

Rosário, que agradece a «sorte» de, à semelhança marido, «ter participado na sociedade, em tantos projetos», nasceu em 1948, um ano depois de Roberto. Ambos se empenharam civicamente, antes e depois da revolução de 25 de abril de 1974, nomeadamente a nível político, mantendo como alicerce o catolicismo.

Hoje têm nove filhos, mas ao princípio o sonho era «ter uma equipa de râguebi, 15. Passámos para 11, uma equipa de futebol», diz Roberto.

«Foi um projeto nosso, ainda não nos tínhamos casado, de que havíamos de ter muitos filhos. Ele porque não tinha irmãos, e se calhar queria ter irmãos. Eu porque tinha dois irmãos mais velhos a arengarem-me o juízo», completa Rosário, acrescentando que a ideia da grande família era uma tradução de felicidade.

Pergunta Anabela Mota Ribeiro: «Como é que passaram a cada filho a noção de que eram únicos, no sentido de haver um tempo só deles, uma dedicação e uma atenção que os preenchia?».

«Tentámos que nos quartos, que eram partilhados, houvesse zonas próprias, intocáveis, de cada um. Nisso era muito rigorosa. Aprender que há um espaço próprio, que não pode ser violado, é uma aquisição básica na vida. Passa-se do físico para o espiritual. E tentámos encontrar momentos de saída, de reflexão com cada um. Adoptei o sistema de um almoço fora, por semana, com cada um», explica Rosário.

À mesa, a casa transformava-se numa «Babilónia»: «Às refeições era péssimo, mas era tão bom. Às vezes, o Roberto dizia: “Vou levar não sei quem para jantar”, e as pessoas ficavam atónitas. As conversas cruzavam-se de uma ponta para a outra da mesa. E havia momentos em que estavam todos e não havia barulho nenhum».

Nem sempre é fácil - por vezes, é preciso saber escapar, para depois regressar: «Também me lembro de chegar a casa e de estarem nove à espera que eu chegasse. E todos a querer dizer qualquer coisa. Eu olhava para eles, fechava a porta e ia-me embora. Dava uma volta ao quarteirão [risos]», refere Rosario.

Tempo a sós para o casal é indispensável: «Fazíamos, pelo menos, uma viagem por ano. Nas minhas múltiplas deambulações profissionais pelo mundo, a minha mulher ia comigo uma semana, duas semanas», afirma Roberto.

«Muito cedo realizei que a minha cabeça, para se manter saudável, precisava nem que fosse de 24 horas fora. Essas viagens eram um bom tempo para estarmos juntos. Também com regularidade íamos jantar só os dois», lembra Rosário; e o marido complementa: «Senão pirávamos».

Por vezes havia quem perguntasse a Rosário como é que conseguia ter «tantos filhos»: «É uma pergunta chata, mas arranjei uma maneira parva de responder: “É tudo uma questão de organização”».

É também a mãe a evocar o filho que morreu, o quarto, aos cinco meses: «Aprende-se a superar. E mais do que a superar, aprende-se imenso para a vida. No meu caso, foi de tal forma terrível essa perda, de um ponto de vista físico, que aprendi como é bom estar vivo. Aprendi a não ter medo da morte».

Depois disso tiveram seis bebés, «graças a Deus», assinala Roberto, que fala das implicações da sua vida profissional na família: «Uma enorme perda para mim, uma grande falta para eles. Fui obrigado a pagar um preço elevado por estar ausente de casa, por longas temporadas, em período formativo essencial dos nossos três filhos mais velhos».

A ginástica financeira: «Quando o Roberto foi ministro, já tínhamos oito filhos. A nossa conta bancária descia, descia... (...). Lembro-me de ter pago pão com cartão de crédito. Mas não digo isto de um ponto de vista miserabilista. Foi o resultado das nossas opções», vinca Rosário

«A abastança não faz bem. As pessoas ficam muito acomodadas. Tem de se viver confortável, mas dinheiro de mais não presta», considera Roberto; Rosário completa: «O que é de mais entope. O que os filhos, sobretudo, nos suscitaram foi uma enorme criatividade em encontrar soluções».

 

Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 02.12.2014

 

 

 
Imagem Maria do Rosário e Roberto Carneiro | Nuno Ferreira Santos/Público | D.R.
Tentámos que nos quartos, que eram partilhados, houvesse zonas próprias, intocáveis, de cada um. Nisso era muito rigorosa. Aprender que há um espaço próprio, que não pode ser violado, é uma aquisição básica na vida. Passa-se do físico para o espiritual
Muito cedo realizei que a minha cabeça, para se manter saudável, precisava nem que fosse de 24 horas fora. Essas viagens eram um bom tempo para estarmos juntos. Também com regularidade íamos jantar só os dois», lembra Rosário; e Roberto complementa: «Senão pirávamos»
Quando o Roberto foi ministro, já tínhamos oito filhos. A nossa conta bancária descia, descia... (...). Lembro-me de ter pago pão com cartão de crédito. Mas não digo isto de um ponto de vista miserabilista. Foi o resultado das nossas opções
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