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"Ringue": Iconografia rara inspira «oração coreográfica» em igreja histórica

"Ringue": Iconografia rara inspira «oração coreográfica» em igreja histórica

Imagem Ringue | Fotografia: Clara Antunes

"Ringue", a «oração coreográfica» que Madalena Victorino concebeu para a igreja de S. Cristóvão, no bairro da Mouraria, em Lisboa, vai ser apresentada este domingo pela última vez.

A peça parte do quadro presente na sacristia da igreja, “A morte de S. José”, de Bento Coelho da Silveira, que, «numa iconografia rara», representou Jesus a acompanhar o seu pai idoso na morte, explica o texto de apresentação.

«Ritual coreográfico, "Ringue" visita temas bíblicos naquilo que eles têm de mais atual na realidade perturbante que vivemos hoje. O ringue como metáfora: uma Ágora de luta real pela vida. É o teatro do combate franco que se faz face a face com o desconhecido», lê-se na nota de enquadramento.

A obra, co-criação com André Amálio, Bruno Freitas, Michel, Pedro Salvador, Ricardo Machado e Tereza Havlickova, introduz os espectadores nas «pedras frias e despidas da igreja», onde personagens multiformes «embarcam juntos numa viagem com múltiplos caminhos: o da vida, o da morte, o da passagem».

Apresentada às 18h00, 19h00 e 20h00, a coreografia, com a duração de 30 minutos, assume-se como metáfora da viagem enquanto «caminho interior», numa «oração/manifestação que usa o corpo para falar».

A música que acompanha a peça, "Credo", tem direção musical e artística do italiano Mario Tronco, com arranjos do próprio e dos compatriotas Leandro Piccioni e Pino Pecorelli, e textos de José Tolentino Mendonça. Participam na coreografia Catarina Alfaia e Céline Tschachtli, bem como alunas de 1.º Ano Escola Superior de Educadores de Infância Maria Ulrich.




Imagem Ringue | Fotografia: Clara Antunes

No âmbito do projeto "Arte por São Cristóvão", nascido de uma candidatura ao Orçamento Participativo da Câmara Municipal de Lisboa para a reabilitação da igreja de São Cristóvão, Madalena Victorino foi convidada por Paulo Pires do Vale a programar a primeira etapa de um projeto expositivo denominado "Não te faltará a distância", refere a Agenda Cultural de Lisboa.

"Ringue" marca o arranque de "Vão", conjunto de eventos em torno da igreja erigida em meados do século XVII, e um dos poucos que sobreviveu ao grande terramoto de 1755.

Em entrevista à publicação autárquica, Madalena Victorino afirmou que "A morte de S. José" «é uma espécie de "Pietà" no masculino». «A partir dali pensei que poderia trabalhar a ideia do tempo nos corpos: o homem mais velho que se prepara para morrer e o muito jovem que o cuida na morte. Assim, o elenco central são os dois homens, o velho e o jovem, secundados por homens de meia-idade e mulheres que acompanham esse ritual ou oração coreográfica.»

A coreógrafa inspirou-se «na ideia do peso e da leveza e da viagem, presentes na lenda de S. Cristóvão», e recuperou «memórias pessoais de alguém que provém de uma família católica». «O resultado é uma peça curta, que usa cinco temas musicais, provenientes de um espetáculo que abriu o último "Festival Todos", compostos pelo maestro Mário Tronco com libreto do padre Tolentino de Mendonça», acrescentou.




Imagem Ringue | Fotografia: Clara Antunes

«Não sou católica praticante, mas a educação que recebi balizou-se em valores e princípios que prezo muito: a verdade, o gosto de estar com as pessoas (muito presente no meu trabalho), a simplicidade, a ambição da felicidade pela vivência com os outros, o prazer de dar… Isso são princípios que a minha família católica me legou e que transporto para o meu trabalho artístico», assinalou Madalena Victorino.

É a primeira vez que a coreógrafa desenvolve um trabalho dentro de um templo católico: «Criar e programar para uma igreja sacralizada é-me completamente inédito. Antes de mais, é uma oportunidade rara, e isso honra-me muito».

O projeto "Vão" prosseguirá com outras iniciativas: «A seguir a "Ringue" vamos ter uma peça vocal, um coral criado pela Margarida Mestre [Corações ao Alto], que traça um percurso que fizemos por várias religiões presentes na cidade de Lisboa. É, no fundo, um apanhado de sonoridades religiosas que se unem num tom cristão que vai ecoar dentro da igreja».

A iniciativa comporta também «visitas participativas para crianças», que poderão «dançar, recuperar antigos rituais e conhecer» a igreja de S. Cristóvão «como se fosse um livro ilustrado».

A 27 de fevereiro, Madalena Victorino junta-se ao curador do programa para uma conversa intitulada "O corpo, o lugar e a distância".

«Se a dança conforme a entendo está intimamente ligada com a vida, com os nossos movimentos quotidianos, aqui proponho-me passá-los para o campo da oração. Esta conversa vai cruzar ideias sobre isso mesmo», concluiu.




Imagem "A morte de S. José" | D.R.

"Vão", forma verbal do verbo "ir" e também palavra que designa um lugar da casa que não é cuidado por ninguém e que a ninguém atrai, é um programa que assenta sobre uma ideia de «transporte e transformação».

«O transporte dos corpos para viagens de queda e de voo. A transformação do cheio em vazio - despojamos a igreja dos seus habituais ornamentos e mobiliário -, vazio que é condição para acolher. Assentam também sobre habitar o espaço com o corpo, dando às coisas a sua voz e o seu silêncio», aponta a apresentação.

Composta por performances, visitas e conversas, a programação de "Vão" é dirigida a «um público transversal que convoca o movimento face a um lugar esquecido, dado a conhecer com outros olhos. Ou com outro corpo».

Até julho, a igreja vizinha ao Largo do Caldas recebe a exposição "Não te faltará a distância", comissariada por Paulo Pires do Vale, «que mostra olhares contemporâneos sobre temas inspirados na hagiografia de São Cristóvão». Além de Madalena Victorino, foram convocadas peças de Francis Alÿs, Rui Chafes, Martin Monchicourt e Agnès Martin.

Esta semana a igreja de S. Cristóvão foi visitada pelo Ministro da Cultura, João Soares, que foi acolhido pelo pároco, P. Edgar Clara.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 13.02.2016

 

 

 
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