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Revista da Faculdade de Teologia analisa “mundialização e valores cristãos para a casa comum”

Imagem Vitral (det.) | Marc Chagall | Igreja de Santo Estêvão, Mainz, Alemanha | D.R.

Revista da Faculdade de Teologia analisa “mundialização e valores cristãos para a casa comum”

A mais recente edição da “Didaskalia”, revista publicada pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa) está centrada no tema “Mundialização e valores cristãos para a casa comum”.

«Num mundo que sonhava tornar-se uma “aldeia global”, a todos nos preocupa o que está a suceder à “casa comum” que o Criador nos confiou para dela cuidarmos», refere a nota de apresentação.

As intervenções do papa Francisco, especialmente na encíclica “Louvado sejas”, «desafiam a reflexão cristã e teológica a repensar mais uma vez o papel da Igreja e o contributo dos valores cristãos para um mundo mais justo e uma “ecologia integral”».

«Se a mundialização, acompanhada de profundas transformações e todo o tipo de mobilidade, exige uma educação para a interculturalidade e um ecumenismo dos valores, a Igreja e os cristãos não podem alhear-se de tal repto», acentua o texto introdutório da publicação dirigida por Isidro Lamelas.

O primeiro fascículo de 2016 da “Didaskalia”, que se publica semestralmente, procura «oferecer ao leitor uma abordagem “intercultural” e “católica” das questões levantadas» na atualidade.

No primeiro estudo, “Uma ética universal a partir do Antigo Testamento?”, o autor, Francolino J. Gonçalves analisa «as leis do Pentateuco, os Provérbios e os livros de Amós e Isaías 1-39», concluindo que «neles se expressam dois sistemas éticos, de que Iavé é autor, fundamento e garante».

«Um funda-se na criação, obra de Iavé, sendo por natureza universal. É o único que se lê nos escritos sapienciais mais antigos e nos discursos de Amós e Isaías. O outro funda-se na história das relações entre Iavé e o seu povo, Israel, sendo por natureza particular. Expressa-se sobretudo nas leis do Pentateuco, mas também nos livros históricos e nalguns livros proféticos», salienta o biblista.

Em “Il ruolo del Magistero sociale di Benedetto XVI e di Papa Francesco nella governance globale” (“O papel do Magistério social de Bento XVI e papa Francisco no governo global”), Gianni Manzone frisa que os dois pontífices «têm advertido para a necessidade de uma “governance” que uma certa globalização pode pôr em causa».

«Uma vez afirmada a necessidade de uma “governance” da globalização, que contributo pode dar a doutrina social da Igreja? É para esta pergunta que procuramos uma resposta. Na verdade, a Igreja dispõe de uma sólida reflexão e doutrina que pode e deve ajudar na configuração de uma consciência e responsabilidade global cada vez mais urgente», defende o texto.

Guillermo Kerber, no artigo “Ética social ecuménica y Laudato Si’” recorre à metodologia do “Ver-Julgar-Agir” para interpretar a encíclica “Louvado sejas”, argumentando que os dois conteúdos fundamentais do documento são o cuidado da criação e a justiça para os pobres.

O autor também apresenta a Ética Social Ecuménica, verificando como aquelas prioridades são por ela estudados, concluindo com a apresentação de reações de líderes cristãos à encíclica e apontando ações que podem ser concretizadas no âmbito das Igrejas cristãs.

“Desafíos éticos globales a la luz de la encíclica Laudato Si’ y del Jubileo de la Misericordia”, assinado por Martín Carbajo Núñez, «analisa alguns desafios éticos globais que refletem um mundo sem misericórdia e propõe uma série de sugestões para um novo modo de viver fundamentado na misericórdia, gratuitidade, fraternidade, e no bem comum».

«Sublinha-se que a família humana “é a primeira e mais importante escola da misericórdia”, bem como a necessidade de pôr em prática essa forma de relacionamento misericordioso que costumamos viver em casa ao longo da infância e que nos ajuda a descobrir a verdadeira face do nosso Pai celestial», refere o resumo do artigo.

José Antonio Merino salienta, no seu estudo, que o atual papa, ao escolher o nome Francisco, «quis sobretudo propor um programa renovador da Igreja e do mundo», como se comprova pela encíclica “Louvado sejas”.

«Inspirando-se no santo que o Papa João Paulo II proclamou patrono da ecologia, o santo Padre retoma a escola franciscana para repropor a todos uma nova relação com as criaturas e a nossa “casa comum”», assinala a sinopse de “Ecología y fraternidad global”, que se propõe «revisitar os elementos essenciais da ecologia franciscana que se revelam de tal atualidade».

“Globalizzazione e Vangelo. Per un cristianesimo interculturale” (“Globalização e Evangelho. Para um cristianismo intercultural”, de Carmelo Dotolo sustenta que apesar das teses em favor da «impossibilidade de uma convivialidade das diferenças», «não há alternativa ao encontro intercultural».

«Neste sentido, a responsabilidade da teologia é ainda mais evidente: a mensagem cristã busca a liberdade e a justiça para todos, no desenvolvimento da cultura do reconhecimento dos outros na sua condição de “outros”. Nesta mesma linha, o processo de comunicação do Evangelho move-se no terreno da interculturalidade que, ao mesmo tempo que afirma a potencial universalidade das culturas e religiões, convida estas a uma abertura recíproca, numa tensão fecunda que reconhece valor à verdade, à solidariedade e ao amor», frisa o autor.

Uma perspetiva a partir de África é a proposta de “Création et vision de l’homme. Une lecture africaine de Laudato Si’” (“Criação e visão do homem. Uma leitura africana de ‘Laudato si’”), de Yvon Christian Elenga, para quem há dois pontos «essenciais» na receção da encíclica: «A herança religiosa das diversas tradições e o contexto económico-político atual».

«Sem entrar numa fusão completa das cosmologias, a ideia de uma reconciliação harmónica de Deus, do homem e do mundo vem ao encontro da conceção cosmoteantropológica tão típica das tradições religiosas africanas. Para a teologia cristã, é em Jesus Cristo que se realiza esta reconciliação, uma vez que a salvação que nele se consuma é a realidade da criação renovada. É neste elo entre criação e salvação que a teologia africana deve encontrar os fundamentos da sua abordagem à crise ecológica», salienta o investigador.

Continuando no mesmo continente, Augustin Ramazani Bishwende apresenta o artigo “L’éthique chrétienne africaine entre clientélisme et télescopage” (“A ética cristã africana entre clientelismo e interpenetração”, que «visa mostrar como o cristianismo e as Igrejas de África continuam a ser vítimas de formas de colonialismo que as têm impedido de se afirmar como verdadeira encarnação do Evangelho».

«Continuando a carregar o pesado fardo da sua história, as Igrejas de África enfrentam o sempre difícil desafio da fidelidade ao Evangelho e às gentes e culturas africanas. Só a partir daí será possível falar de uma verdadeira ética cristã africana, tal como se falou durante séculos de uma ética cristã a partir da Europa mediterrânica», sustenta o estudo.

Em “L’Église dans l’espace public: représentations et situations de parole” (“A Igreja no espaço público: representações e situações de palavra” Guy Jobin dá conta «das mutações que marcaram as representações eclesiais da relação Igreja/comunidade política com e no Vaticano II» e mostra «como a palavra política eclesial se ajustou» àquelas transformações.

«Uma análise do conceito e do fenómeno da secularização, defendendo que o cristianismo, na sua mensagem e experiência radicais, não é, em nenhum sentido, secularizável» é a tese apresentada por Pedro Vistas no texto “Do insecularizável cristianismo: Uma leitura radical”.

«Após uma pesquisa conceptual e a consequente primeira definição de secularização como dessacralização, foca-se a “Verweltlichung” de Hegel e as suas consequências», «confrontando-as com a visão do cristianismo católico», prosseguindo o estudo com a avaliação do «conceito de secularização através de um ponto de vista etimológico», examinando nos Evangelhos, e concluindo-se com «uma discussão ponderada sobre a filosofia e sobre o cristianismo, num momento histórico tão apartado de quaisquer caminhos espirituais».

“Religião e multiculturalidade: entre moçárabes e cristãos médio-orientais” é o tema desenvolvido por Adel Sidarus, que, «perante a situação atual no mundo islâmico, a onda de atentados e a crise planetária dos refugiados», ensaia uma interrogação da história «sem preconceitos para evitar análises simplistas ou “essencialistas” e o fomento do confronto entre povos, religiões e culturas».

«Percorrendo e comparando algumas épocas de convívio e intercâmbio cultural envolvendo cristãos e muçulmanos – e judeus também – na Península Ibérica e no Médio Oriente, pretende-se medir o grau e alcance daquelas trocas historicamente documentadas», lê-se na síntese do artigo.

Frédéric Manns detém-se sobre uma destacada figura da Igreja nascente no texto “L’ «Excellent Théophile» de Luc, personnage fictif ou historique?” (“O «excelente Teófilo» de Lucas, personagem fictícia ou histórica?”): «Estamos perante um personagem fictício à maneira dos hábitos da literatura grega ou de uma figura histórica concreta? Neste texto, são apresentados novos elementos para uma resposta a esta importante questão».

Entre os artigos desta edição da “Didaskalia” (344 páginas, 19.95 €) inclui-se o texto “A hospitalidade na construção da identidade cristã - Uma leitura de Lc 24, 13-35 em chave narrativa”, de João Alberto Correia.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 05.08.2016

 

 

 
Imagem Vitral (det.) | Marc Chagall | Igreja de Santo Estêvão, Mainz, Alemanha | D.R.
“Desafíos éticos globais à luz da encíclica "Laudato Si'" e do Jubileu da Misericórdia" «analisa alguns desafios éticos globais que refletem um mundo sem misericórdia e propõe uma série de sugestões para um novo modo de viver fundamentado na misericórdia, gratuitidade, fraternidade, e no bem comum»
O processo de comunicação do Evangelho move-se no terreno da interculturalidade que, ao mesmo tempo que afirma a potencial universalidade das culturas e religiões, convida estas a uma abertura recíproca, numa tensão fecunda que reconhece valor à verdade, à solidariedade e ao amor
«Uma análise do conceito e do fenómeno da secularização, defendendo que o cristianismo, na sua mensagem e experiência radicais, não é, em nenhum sentido, secularizável» é a tese apresentada no texto “Do insecularizável cristianismo: Uma leitura radical”
“Religião e multiculturalidade: entre moçárabes e cristãos médio-orientais” é o tema desenvolvido por Adel Sidarus, que, «perante a situação atual no mundo islâmico, a onda de atentados e a crise planetária dos refugiados», ensaia uma interrogação da história «sem preconceitos para evitar análises simplistas ou “essencialistas” e o fomento do confronto entre povos, religiões e culturas»
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