Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Retalhos da vida de um padre, jornalista, escritor

Imagem Piero Gheddi | D.R.

Retalhos da vida de um padre, jornalista, escritor

Fui educado «no tempo das certezas» e nunca tive verdadeiras crises de fé, mas vivi momentos de dificuldade, enfrentei riscos e provações. Em várias ocasiões vi de perto a miséria mais desumana, a atrocidade das guerras e das violências. Alguns perguntaram-me: «Nunca te saiu, de dentro, o grito “Deus, onde estás?”, perante certos trágicos espetáculos?». Em 1969 visitei pela primeira vez Uganda, com Paulo VI. Fui hóspede dos Combonianos, que me levaram a Karamoja, a região que os ingleses não colonizaram, deixando-a na condição ancestral, quase um museu antropológico a céu aberto. É um ano de seca e a população tem fome. Na “capital”, Moroto, uma cidade nascida poucos anos antes, no vasto terreno envolvido pela missão são acolhidos mil ou mais karimojong.

Já tinha visto a fome na Índia, mas não nesta situação terrível: homens, mulheres, crianças, idosos, sentados por terra em todas as construções, nos corredores, nos quartos, nos pátios sob um sol impiedoso, para ter duas vezes ao dia uma fatia de polenta, farinha de milho cozida em água, mais um pouco de pimenta e um litro de água por família. A fome autêntica (que depois experimentarei em Angola) torce o estômago, torna o homem desumano. Pensei em Jesus crucificado. Estes pobres esqueletos humanos estão na cruz com Jesus. Sinto-me culpado, responsável por aquela tragédia. Penso em tudo o que Deus me deu e nada àqueles pobres na cruz com Jesus. Experimento vergonha, choro e rezo por eles. Em 1985 visito, para o jornal “Avvenire”, o Burkina Faso. São os anos da grande seca e carestia no Sahel, logo abaixo do Saara. Vejo fileiras de camponeses em fuga para o Sul e os campos de refugiados da Cruz Vermelha, da ONU e da Cáritas.

Um missionário francês leva-me de jipe para o grande Norte: vilas abandonadas, poços sem água, campos queimados pelo sol. Chegamos à fazenda-escola de Nanoró, da estepe pré-desértica, onde desde há meio século os Irmãos da Sagrada Família de Chieri (Itália) ensinam à população como reter a água com canais e pequenos lagos artificiais. Uma manhã, no pátio da missão, vou com um irmão para a igreja, para celebrar a missa, quando, na luz do sol nascente, dois homens e uma mulher idosa com um embrulho nos braços vêm ao nosso encontro. Caminharam horas durante a noite. A mulher abre as faixas do embrulho: é um bebé tuaregue de poucos meses que está a morrer porque, morta a mãe há alguns dias, deixou de ter leite. As irmãs acolhem a avó e os dois homens, dão de comer e de beber aos adultos, e duas irmãs mergulham o bebé numa bacia de água morna, friccionam-no para o fazer sorrir, metem na sua boquinha um pouco de açúcar e depois o biberão com o leite, dão-lhe uma injeção de água nas veias.

O pequenino tem algumas reações e sorri, mas depois morre à tarde. Enquanto o observo impotente na sua agonia, pobre aranhinha pele e ossos, comovo-me e rezo: «Pai nosso, que estais nos Céus, criaste este pobre bebé, como a mim me criaste. Porque é que a mim deste tanto e a este pequeno homem nada deste? Não somos ambos filhos teus do mesmo modo? Eu recebi tudo e ele nada… Mas tu, Pai santo, queres bem a ele como a mim?».

Crises e sofrimentos tive alguns por causa de ataques pessoais. São coisas passadas, quase não merecem ser recordadas. Mas, depois da primeira viagem ao Vietname (1967-1968), a publicação da “Humanae vitae”, de Paulo VI (1968) e o “Sessenta e Oito”, fui asperamente contestado, ridicularizado e, às vezes, insultado e humilhado como «papazinho», porque dava sempre razão ao papa e aos bispos. Andava contracorrente e pagava o preço. Em 1972 pedi a mons. Aristide Pirovano, superior geral do Instituto Pontifício das Missões Exteriores, para ir em missão, porque também me contestavam não poucos irmãos. Pirovano disse para seguir em frente: estava de acordo com Paulo VI e com ele, e isso devia bastar-me.

Como sacerdote atravessei a forte crise do ativismo: deixei-me arrastar por uma tal imparável engrenagem de atividade, cada vez mais urgentes, que coloquei em segundo plano a oração e a procura da intimidade com Jesus Cristo. Pelos fins dos anos 60 e início dos 70 assumi demasiados compromissos. As minhas atividades frenéticas tornaram-se mais expressões de mim próprio do que de um fogo interior, amor a Cristo e às almas. Depois da primeira viagem ao Vaticano publicai “Católicos e budistas no Vietname”, a minha obra mais exigente (traduzida em inglês, francês e alemão e, reduzida, em vietnamita). Nesses anos estava aceso o debate sobre a guerra vietnamita e as peças que enviava para Itália eram publicadas com destaque.

São dois os fatores da crise: o excesso de trabalho daqueles anos e, depois, factos como este, que indicam tendências minimalistas no clero sobre as práticas de piedade: em janeiro de 1968 estou nas Filipinas com o padre Secondo Einaudi, superior do Instituto Pontifício das Missões Exteriores de Hong-Kong, enviado de mons. Pirovano. Estivemos alguns dias numa casa de religiosos nas margens do oceano Pacífico. Na segunda-feira nenhum padre celebra missa: é o “day off”, dia de repouso absoluto. A missa, a liturgia das horas e o terço estão fora de discussão. Esse facto escandaliza-me muito, mas inocula em mim a dúvida de que a minha mentalidade não é de todo adequada ao tempo que estamos a viver.

De 1968 até 1973-74 acontece-me negligenciar a liturgia das horas, o terço, a confissão, não celebrar a missa todos os dias… Estou de tal maneira pressionado pelos compromissos que me parece lógico não dar demasiado peso às práticas de piedade, porque me iludo pensando: Jesus sabe que mais cedo ou mais tarde voltarei a estas práticas. Pela graça de Deus e intercessão dos meus santos no céu (antes de todos o meu pai e a minha mãe) não creio de ter alguma vez tido dúvidas sobre a fé e nem sequer sobre a autoridade da Igreja em falar em nome de Jesus Cristo.

 

Piero Gheddo
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 26.09.2016

 

 
Imagem Piero Gheddi | D.R.
É um bebé tuaregue de poucos meses que está a morrer porque, morta a mãe há alguns dias, deixou de ter leite. As irmãs acolhem a avó e os dois homens, dão de comer e de beber aos adultos, e duas irmãs mergulham o bebé numa bacia de água morna, friccionam-no para o fazer sorrir, metem na sua boquinha um pouco de açúcar e depois o biberão com o leite, dão-lhe uma injeção de água nas veias
Em 1972 pedi ao meu superior-geral para ir em missão, porque também me contestavam não poucos irmãos. Pirovano disse para seguir em frente: estava de acordo com Paulo VI e com ele, e isso devia bastar-me
Como sacerdote atravessei a forte crise do ativismo: deixei-me arrastar por uma tal imparável engrenagem de atividade, cada vez mais urgentes, que coloquei em segundo plano a oração e a procura da intimidade com Jesus Cristo
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos