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Reduções jesuíticas na América do Sul: O «triunfo da Humanidade»

Imagem D.R.

Reduções jesuíticas na América do Sul: O «triunfo da Humanidade»

Passando recentemente por várias universidades do Rio Grande do Sul, pude testemunhar o esforço meritório que nos últimos anos tem sido desenvolvido pela Unesco e pelo Mercosul Cultural no sentido do reconhecimento da importância histórica da região dos 30 Povos, erguidos e mantidos pelos jesuítas entre 1609 e 1767 no sistema fluvial dos rios Uruguai e Paraná, a que o insuspeito Voltaire se referiu como assinalando o «triunfo da Humanidade».

Destruídos por sucessivas disputas fronteiriças entre os impérios português e espanhol a partir do Tratado de Madrid (1750), pelas "guerras guaraníticas" (1756) e sobretudo pela expulsão dos jesuítas de Portugal (1759) e de Espanha (1767), deram corpo a uma experiência histórica ímpar, só vencida por ação de factores externos, mas que durante mais de século e meio ergueu uma sociedade inaudita, composta por populações guaranis protegidas do sistema de "encomiendas" do lado espanhol e do trabalho escravo do lado português. Em suma: o argumento ideal para que Pombal acusasse os jesuítas de quererem erguer um novo império por eles senhoreado.

No entanto, pese embora o eco de muitos mitos em torno da interpretação desta experiência sócio-religiosa, a utopia teve, nestes Povos (ou Reduções), um espaço próprio, negando o seu significado etimológico de não-lugar, abrindo-se à concretização dos sempre almejados ideais de justiça e paz. Isto mediante um sistema político-religioso que se queria à medida do Novo Mundo, uma experiência de vida cristã e comunitária, distante dos padrões individualistas e liberais da Europa moderna, mas cujos autores não pretenderam estender para além dos limites sul-americanos em que se situou, razão por que não estávamos perante um quadro doutrinal de reorganização da história universal, à maneira das grandes filosofias da história da modernidade.

Ao longo da décadas, constitui-se uma rede integrada de Povos, em bases igualitárias, regulados pela virtude da temperança, sem uso de dinheiro, mas com significativo progresso material e espiritual, erguidos a partir da confluência de ideais evangélicos e de traços sócio-culturais indígenas fortemente arraigados. Não se tratou de uma inspiração em utopias do Renascimento, como as de Thomas Morus ou Campanella, mas de um avisado pragmatismo, sem desembocar em contexto relativista quanto ao essencial dos princípios cristãos.

Com o objetivo de enquadramento social e espiritual, depararam-se os jesuítas com um povo possuidor de uma cultura baseada numa língua poderosa, numa espiritualidade fundada na palavra e não na imagem tão cultivada na Europa barroca, e com um sistema económico fundado na reciprocidade solidária, sem lugar para a compra ou venda de produtos. Aliás, para os guaranis vender significava vingança, pelo que nos viam a nós, europeus, como uma sociedade em estado de permanente vingança. Enquadrar esta realidade em princípios evangélicos implicou seguramente uma procura permanente de soluções que abrigassem, sob o manto de Cristo, o imenso labirinto dos homens, seja retirando estes povos da jurisdição do Santo Ofício seja respeitando a língua nativa, recusando a imposição da predicação em espanhol, a despeito das ordens reais em contrário.

Estas Reduções começaram por traduzir soluções urbanísticas e enquadramentos geográficos dignos de nota. Em primeiro lugar, os jesuítas não descuraram o conhecimento prévio das condições de sustentabilidade ambiental das regiões em que se implantavam, mediante aturado trabalho de cartografia que os permitiu distinguir de outras ordens religiosas então já implantadas, tanto mais que, para se distanciarem dos territórios já povoados por colonos e "encomenderos", procuraram regiões remotas. Fácil terá sido o ponto de encontro com idêntica preocupação das culturas indígenas perante a sustentabilidade ambiental, levando ao que foi certamente o feliz encontro dos jesuítas, "operários do Novo Mundo", com os "teólogos da selva", designação pela qual ficaram conhecidos os povos guaranis.

As soluções urbanísticas traduziam uma sociedade igualitária e sem excluídos, um cosmo organizado por princípios de solidariedade comunitária, esforço próprio e trabalho em comum. Corporizavam um urbanismo que conciliava o modelo barroco da praça central, onde se situava o templo, o colégio-residência dos jesuítas (apenas dois por Redução) e o cemitério, com uma distribuição uniforme de casas por ruas de igual largura e dimensão, ao longo dos outros três lados de um quadrado.

Naturalmente, os hábitos de vida em comum dos ameríndios obrigaram os párocos a um longo processo de ensinamento para a criação de habitações de matriz monogâmica, de pequena dimensão, construídas por todos os habitantes, pertencentes à comunidade e distribuídas de acordo com as necessidades de cada família, não havendo distinções relevantes entre as casas dos caciques (situadas nos limites laterais da praça central) e as dos membros da sua parcialidade.

Acrescia uma casa para os visitantes estanhos à comunidade, que apenas poderiam permanecer três dias, e uma casa para as mulheres de índios que estivessem em trabalhos distantes de serviço à comunidade. Quanto à praça, era o "Teatro do Mundo", o lugar de encontro, de celebração e festa. Numa palavra, um cosmo perfeito, para o que contribuía ainda a preocupação demográfica, atinente à determinação de um número ideal de habitantes fixado nos 3500, mas não necessariamente respeitado. Em 1767 o maior destes Povos, o de Santos Reyes, tinha 7947 pessoas e o menor, o de San Lorenzo, 1242, oscilando os demais entre três e quatro mil, num total que, no conjunto dos 30, ultrapassava seguramente os cem mil.

Não deixa de surpreender que sobre este modelo de planificação urbana se erguesse outro de planificação económica, fazendo com que as comunidades se relacionassem em rede, sem procurarem autossuficiência para cada uma. Ou por iniciativa dos missionários ou por sugestão dos próprios guaranis cada Redução especializava-se numa determinada área económica, incluindo ofícios mecânicos, procedendo-se a um sistema solidário de troca intra e intercomunitário. Mais tarde, após a expulsão dos jesuítas, as autoridades coloniais espanholas impuseram a autossuficiência de cada povoação, acabando por provocar a ruína generalizada.

Não menos interessante era a questão do domínio de propriedade da terra numa sociedade em que a agricultura e a pecuária ocupavam lugar de relevo. Note-se que os jesuítas conseguiram retirar estes povos ao regime das "encomiendas" mediante compromisso de pagamento de tributo ao rei, obrigando-se à criação regular de excedentes. Pontificava um regime misto de domínio da terra, em termos públicos e privados, resultando na inexistência de mendigos, pois quem não podia trabalhar era sustentado pelos bens públicos, mas se, podendo, não quisesse, a tal era obrigado. Se recusasse, era expulso da comunidade.

A cada um era atribuído um pedaço de terra, cultivado individualmente e para uso privado; a par deste regime havia campos comunitários, onde todos os habitantes, incluindo autoridades e o alcaide, trabalhavam certos dias da semana, e do produto deste trabalho era retirado um excedente para pagamento de tributo ao rei e para obras de assistência aos necessitados e de utilidade pública, ou para compra de artefactos necessários. Estes excedentes eram conduzidos às cidades coloniais e aí vendidos, em troca de dinheiro, daí se pagando o referido tributo. Todavia, no interior das Reduções, por norma, não havia dinheiro, nem comércio com particulares ou vendedores ambulantes estrangeiros, por não serem aí admitidos.

No contexto dos fins almejados estava o imperativo da educação entendida como direito universal, antecipando em mais de um século idêntico quadro europeu. Partindo de uma base de leitura, escrita e cálculo, os párocos assinalavam as vocações para os diversos ofícios e profissões, sendo relevante o facto de estas comunidades possuírem bibliotecas bem maiores do que as existentes nas cidades coloniais. No contexto educativo, a questão da arte (música e escultura) teve seguramente um relevo acentuado, aproveitando a conhecida aptidão destes povos para a música, formando coros religiosos, pequenas orquestras e oficinas de instrumentos, em tradição que hoje perdura e que os vários museus entretanto criados vão procurando preservar.

O exercício da autoridade pública fundava-se, pragmaticamente, em princípios que chamaríamos teocráticos, mas mais por pragmatismo vivido do que por filiação doutrinal. Os cargos públicos intermédios, fixados pelas Leis das Índias do império espanhol, eram exercidos pelos próprios guaranis, escolhidos anualmente pelo conjunto dos que no ano anterior exerceram os mesmos cargos, com a prévia anuência dos párocos a respeito da probidade moral dos escolhidos e empossados em cerimónia pública na praça central. Mas a administração da justiça competia aos párocos, cabendo-lhes a determinação de práticas públicas, em forma de regras ou prescrições, que a experiência ditava serem apropriadas ao bem comum, com aprovação dos superiores da Companhia de Jesus. Governados pelos princípios cristãos, no quadro do preceito paulino de que «ninguém pode pôr outro fundamento para além do que foi posto, isto é, Jesus Cristo» (1 Cor 3, 11), não admira, pois, que as cerimónias do culto no templo ocupassem também um lugar central, marcando o ritmo e a sucessão dos dias, em plano de esplendor e decoro, que se queria fosse, por isso, de brilho e devoção, mobilizando o conjunto da comunidade.

Triunfo da Humanidade? Porventura, pois não reza a história destes 30 Povos, congregando sempre mais de cem mil indivíduos de fortes tradições guerreiras, que alguma destas comunidades se erguesse em armas contra outra, tendo permanecido mais de século e meio em paz e sem indícios assinaláveis de sedição ou resistência interna, a não ser quando os exércitos de Portugal e Espanha, em 1756, se uniram para esmagar a resistência dos sete Povos das missões, que o Tratado de Madrid determinara ficarem fo lado português da fronteira, no atual Rio Grande o Sul.

 

Pedro Calafate
Professor catedrático do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
In "Jornal de Letras", 13.5.2015
Publicado em 16.06.2015

 

 
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Com o objetivo de enquadramento social e espiritual, depararam-se os jesuítas com um povo possuidor de uma cultura baseada numa língua poderosa, numa espiritualidade fundada na palavra e não na imagem tão cultivada na Europa barroca, e com um sistema económico fundado na reciprocidade solidária, sem lugar para a compra ou venda de produtos
As soluções urbanísticas traduziam uma sociedade igualitária e sem excluídos, um cosmo organizado por princípios de solidariedade comunitária, esforço próprio e trabalho em comum. Corporizavam um urbanismo que conciliava o modelo barroco da praça central, onde se situava o templo, o colégio-residência dos jesuítas (apenas dois por Redução) e o cemitério, com uma distribuição uniforme de casas por ruas de igual largura e dimensão
Não deixa de surpreender que sobre este modelo de planificação urbana se erguesse outro de planificação económica, fazendo com que as comunidades se relacionassem em rede, sem procurarem autossuficiência para cada uma
A cada um era atribuído um pedaço de terra, cultivado individualmente e para uso privado; a par deste regime havia campos comunitários, onde todos os habitantes, incluindo autoridades e o alcaide, trabalhavam certos dias da semana, e do produto deste trabalho era retirado um excedente para pagamento de tributo ao rei e para obras de assistência aos necessitados
No contexto dos fins almejados estava o imperativo da educação entendida como direito universal, antecipando em mais de um século idêntico quadro europeu. Partindo de uma base de leitura, escrita e cálculo, os párocos assinalavam as vocações para os diversos ofícios e profissões, sendo relevante o facto de estas comunidades possuírem bibliotecas bem maiores do que as existentes nas cidades coloniais
Triunfo da Humanidade? Porventura, pois não reza a história destes 30 Povos, congregando sempre mais de cem mil indivíduos de fortes tradições guerreiras, que alguma destas comunidades se erguesse em armas contra outra, tendo permanecido mais de século e meio em paz e sem indícios assinaláveis de sedição ou resistência interna
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