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Redes sociais, palácios de vidro sem piedade

Imagem D.R.

Redes sociais, palácios de vidro sem piedade

Uma jovem mulher suicida-se depois que o vídeo de uma sua relação sexual é espalhado por quem devia tê-lo para si, tornando-se viral. Raiva, vergonha, incredulidade pela paródia e a total falta de solidariedade e desdém por este escárnio digital estilhaçaram uma vida talvez já frágil.

É fácil dizer agora que não deveria ter-se deixado filmar, e sobretudo não deveria ter partilhado a filmagem com aqueles que depois não hesitaram em torná-la chacota da internet.

Digamos também, à margem, que nem sempre, e esta é uma prova flagrante, os conteúdos gerados pelo utilizador são uma conquista e um motivo de orgulho: podem tornar-se «produtos de alta contaminação social».

Mas para além desta amarga mistura de tristeza e indignação pela violência simbólica (que tem sempre efeitos muito concretos) e do «podia ter-se evitado», é preciso procurar aprender alguma coisa deste triste acontecimento, que não dignifica ninguém.

Parar para pensar. "Thinking what we are doing", como convidava a fazer Hannah Arendt, em tempos sombrios, para não sucumbir ao mal envolvente. Este caso, na sua trágica concretude, pode fazer-nos refletir sobre processos mais gerais, nos quais estamos mergulhados também como parte ativa, mas muitas vezes demasiado pouco consciente. Menciono três, sobre os quais este acontecimento, e muitos outros que se lhe assemelham, nos devem fazer meditar.

O primeiro remonta à televisão, que deu início a uma reconfiguração da geografia da vida social, rescrevendo os modos de proximidade e distanciamento, tornando público o privado.

Com as redes sociais este processo radicaliza-se: desejamos contar-nos (a atitude de "extimidade" e extroversão, que é o contrário da intimidade) e pensamos estar num quarto a falar com os nossos amigos, quando, na verdade, estamos num palco sem fronteiras.

Vivemos como num palácio de vidro, onde todos veem todos. E isto cria um problema. Nós negociamos a nossa identidade nas relações com os outros, em contextos diversos que requerem uma capacidade de se sintonizar e assumir comportamentos apropriados; e isto implica a possibilidade de se revelar seletivamente aos diferentes "públicos". Não é, note-se bem, uma forma de hipocrisia, mas de consciência das diferenças. Não se está na família como no trabalho, não se se comporta numa festa como num funeral.

Hoje a gestão consciente do ocultar/mostrar tornou-se muito mais difícil. E não é por acaso que o universo social está a privilegiar as aplicações que permitem uma interação mais "privada", mais íntima, mais semelhante aos tradicionais contextos face a face: a tentativa é subdividir de novo em quartos separados os espaços abertos criados pelas redes sociais, restabelecer a pluralidade dos contextos.

Mas ainda estamos longe, e não faltam riscos. Com as redes sociais, em todo o caso, a difusão de si alcança uma escala muito ampla, deixando rastos permanentes e recuperáveis no tempo, e cuja acessibilidade está fora do nosso controlo. Estar consciente disto é fundamental.

Um segundo ponto a que se deve prestar atenção é de que a comunicação social é uma mistura entre conteúdos produzidos pelo utilizador e outros conteúdos (imagens a que se podem impor "tags" (etiquetas), comentários, etc.).

As audiências para os conteúdos criados e partilhados são múltiplas, interligadas e invisíveis, potencialmente ilimitadas. E incontroláveis. O que nós produzimos deixa de nos pertencer e pode ser usado contra nós. A ilusão de se ser "proprietário" do que publicámos, dos nossos traços na internet, é verdadeiramente perigosa, como se demonstra.

E por fim, mesmo que as questões sejam ainda muitas, o risco da perda da realidade, que nos torna desumanos. A mediação do dispositivo que "documenta para partilhar" arrisca-se a anestesiar-nos, se nos conformamos simplesmente à lógica da factibilidade. Onde tudo é possível, nada existe verdadeiramente, escrevia Benasayag. Onde tudo é transformável em "post" e capitalizável em "gostos", nada existe verdadeiramente fora desta lógica.

O "capitalismo das emoções" leva-nos a produzir, mesmo cinicamente, conteúdos que podem tornar-se rapidamente virais, sem outra ordem de considerações a não ser a quantitativa, em perspetiva autorreferencial. Sim, porque tudo isto, mesmo que não nos agrade ouvir dizer, é filho de um individualismo radical onde já nada conta verdadeiramente, para além de mim. Portanto não há solidariedade, compaixão, respeito. Nenhuma razão para colocar um limite às nossas ações.

Perda da realidade, anestesia, ser-se "quantificado": não são efeitos necessários mas riscos em que se cai sem se dar conta, se não se pensa no que se está a fazer. Se não se sai da lógica daquilo de que o dispositivo torna possível, tornando-se puros executores de instruções escritas por outros, reféns da necessidade excessiva de se ser visto.

É por isso que, para citar outro caso neste seguimento, se chega ao ponto de filmar, troçando, a amiga violada na casa de banho da discoteca. Provavelmente pensando em quantas visualizações terá o vídeo. Porque o nosso eu tem necessidade de reconhecimento e de relação. E no contexto do individualismo absoluto essa necessidade assume formas pervertidas e desumanas.

É notícia destes dias. As mulheres, vítimas, chegam a fazer-se, irrefletidamente, cúmplices dos carrascos. A tecnologia não liberta nada se não lhe compreendemos o sentido, podendo ser transformada em formas manipuladoras e cada vez mais perversas de humilhação e violência. Pensemos no que estamos a fazer, para onde estamos a caminhar, onde está o sentido. Para fazer com que a dor não seja inútil. Para não tornar vã esta triste morte. Que Tiziana, agora, repouse em paz.

 

Chiara Giaccardi
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 16.09.2016

 

 
Imagem D.R.
Com as redes sociais, em todo o caso, a difusão de si alcança uma escala muito ampla, deixando rastos permanentes e recuperáveis no tempo, e cuja acessibilidade está fora do nosso controlo. Estar consciente disto é fundamental
A mediação do dispositivo que "documenta para partilhar" arrisca-se a anestesiar-nos, se nos conformamos simplesmente à lógica da factibilidade. Onde tudo é possível, nada existe verdadeiramente, escrevia Benasayag. Onde tudo é transformável em "post" e capitalizável em "gostos", nada existe verdadeiramente fora desta lógica
A tecnologia não liberta nada se não lhe compreendemos o sentido, podendo ser transformada em formas manipuladoras e cada vez mais perversas de humilhação e violência. Pensemos no que estamos a fazer, para onde estamos a caminhar, onde está o sentido. Para fazer com que a dor não seja inútil
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