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Cinema: Realizador e produtores de "O caso Spotlight" críticos com a Igreja mas com palavras de esperança

Imagem Póster de "O caso Spotlight" (det.) | D.R.

Cinema: Realizador e produtores de "O caso Spotlight" críticos com a Igreja mas com palavras de esperança

O realizador e os produtores de "O caso Spotlight", que no domingo ganhou os Óscares para Melhor Filme e Melhor Argumento Original, criticaram a Igreja católica quanto ao abuso sexual de crianças por parte de membros do clero, um dos temas da película, ao mesmo tempo que expressaram palavras de esperança num futuro sem mais casos.

«Este filme deu voz aos sobreviventes, e este Óscar amplifica essa voz, que nós esperamos que se torne num coro que ressoe diretamente até ao Vaticano», acentuou o coprodutor Michael Sugar ao receber a estatueta, em Los Angeles, acrescentando um apelo: «Papa Francisco, está na hora de proteger as crianças e restaurar a fé».

«Não estaríamos aqui hoje sem o esforço heróico dos nossos repórteres», sublinhou, por seu lado, Blye Pagon Faust, também coprodutor, referindo-se aos jornalistas do "The Boston Globe's", responsáveis pela revelação de factos ocultados durante décadas pela Igreja.

Em janeiro de 2002 o jornal norte-americano publicou a primeira peça assinada pela equipa de jornalistas responsáveis pela investigação do abuso sexual de menores na arquidiocese de Boston.

As reportagens que se seguiram contribuíram para colocar o tema no centro dos debates, dentro e fora dos EUA, ao mesmo tempo que ecoaram os trabalhos jornalísticos sobre o assunto que desde há anos estavam a ser revelados por publicações de menor difusão, como o "National Catholic Reporter", que em 1985 publicou a primeira peça sobre o assunto.

Antes da cerimónia de entrega dos Óscares, membros da equipa do filme, incluindo o realizador, Tom McCarthy, um dos protagonistas, Mark Ruffalo, e o coargumentista Josh Singer participaram num protesto promovido no exterior da catedral de Los Angeles por um grupo organizado de pessoas vítimas de abusos sexuais por parte de sacerdotes.

Independentemente da atribuíção dos Óscares, salientava uma declaração assinada pela fundadora do movimento, Barbara Blaine, «as crianças são as verdadeiras vencedoras»: «Elas estão mais seguras porque "O caso Spotlight" desencadeou centenas de milhares a pensar, falar e tomar medidas em relação aos crimes de abuso sexual de crianças e aos encobrimentos, inclusive ou especialmente em instituições de confiança».

O filme expressa a perspetiva do realizador quanto à génese dos abusos: «A Igreja é uma instituição dirigida por homens, e os homens são falíveis. Julgo que por esse motivo todos nós temos de permanecer muito vigilantes, e essa é a nossa responsabilidade. Não é só seguir ordens ou obedecer a comandos, mas também participar na comunidade».

Em entrevista realizada em novembro de 2015 pela revista católica "America", Tom McCarthy, que foi educado num colégio de Jesuítas, em Boston, considera que a arquidiocese foi cúmplice dos abusos ao «encobri-los e não fazer mais para prevenir que voltassem a acontecer».

«A resposta da comunidade católica foi largamente muito positiva, e eu continuo muito ligado à comunidade católica pela família e amigos», apontou.

"O caso Spotlight", «verdadeiramente complexo e emocional», prosseguiu o cineasta, «não é um filme a preto e branco»: «Não é sobre uma pessoa má. Em alguns casos é sobre muitas pessoas boas, com as melhores intenções, que agiram erradamente. Há este instinto, que eu conheço muito bem, de proteger a instituição. Seja na Igreja católica, num liceu, numa universidade, num jornal, há esta tendência de cerrar fileiras».

Tom McCarthy mencionou também o exemplo de fé dos pais, católicos devotos, com quem não foi fácil discutir o tema dos abusos sexuais: «Quem é que quer falar sobre isto? É uma coisa muito difícil e dolorosa para falar, mas às vezes vale a pena falar dessas questões. Ao fazê-lo, estamos certos de fazermos o nosso melhor para prevenir que voltem a acontecer. Julgo que essas discussões são muito importantes e julgo que os meus pais veem isso agora. Infelizmente, o meu pai morreu antes de eu acabar o filme».

«A minha mãe foi à estreia e, para ser honesto, foi muito difícil para ela. Penso que, de alguma forma, ficou um pouco esmagada pelo filme ao princípio, e balançava entre ser a minha mãe e querer estar orgulhosa de mim, e ter de digerir o filme. Ela disse "deixa-me ir pensar um bocadinho sobre isto", e foi-se embora [deixando a cerimónia de estreia sem ver o filme]», contou o realizador.

Sobre o papa Francisco, o cineasta declarou-se entusiasmado pelo seu pensamento avançado, inclusivo e dirigido para as reformas, e considerou que a sua visita aos EUA foi «significativa de muitas maneiras».

Todavia, Tom McCarthy está consciente de que o papa está à frente de uma «instituição que não muda muito rapidamente»: «As palavras são boas. Mas todos sabemos que as palavras são apenas palavras até vermos realmente a mudança a acontecer. Sei o que digo, não julgo que um problema desta envergadura desapareça de um dia para o outro. E dez anos é um dia para outro neste problema particular porque existiu durante muito tempo, e penso que temos de permanecer vigilantes para que não volte a acontecer a uma única criança, seja quando e onde for. Uma é demais, e eu penso que ele está determinado a isso e julgo que, em grande parte, a Igreja também».

«Penso que as pessoas no outro lado, especialmente sobreviventes, precisam de ser ouvidas. E não só as suas histórias, porque julgo que elas são muito claras quanto às suas necessidades: mais ação e mais transparência», o que «é difícil para uma instituição como a Igreja católica», que não «trabalha com transparência, não é o seu método», e que, em «grande parte, trabalhou com impunidade», afirmou Tom McCarthy, que não obstante as críticas, espera «pelo melhor».

Na edição desta segunda-feira do jornal do Vaticano, Lucetta Scaraffia escreve que "O caso Spotlight" «não é um filme anticatólico porque dá voz ao choque e à dor profunda dos fiéis» perante a descoberta de uma «horrível realidade».

«É verdade que na narrativa não é dado espaço à longa e tenaz luta que Joseph Ratzinger, como prefeito da Congregação Para a Doutrina da Fé e como papa, empreendeu contra a pedofilia na Igreja. Mas num filme não se pode dizer tudo, e as dificuldades que Ratzinger encontrou não fazem senão confirmar a tese do filme, ou seja, que demasiadas vezes a instituição eclesiástica não soube reagir com a necessária determinação perante estes crimes», assinala o texto do "Osservatore Romano".

Hoje, continua o artigo, «é claro que na Igreja demasiadas pessoas se preocuparam mais com a imagem da instituição do que com a gravidade do ato».

«Tudo isto não pode justificar a culpa gravíssima de quem, visto como representante de Deus, se serve dessa reputação e autoridade para se aproveitar dos inocentes. Isto no filme é bem contado, dando espaço à devastação interior que estes atos causam nas vítimas», refere a autora.

O apelo ao papa Francisco por parte de um dos coprodutores do filme ao receber o Óscar «deve ser visto como um sinal positivo: há ainda confiança na instituição, há confiança num papa que está a continuar a limpeza iniciada pelo seu antecessor já como cardeal. Há ainda confiança numa fé que tem no seu coração a defesa das vítimas, a proteção dos inocentes», conclui Lucetta Scaraffia.

 




 

Fontes: "National Catholic Reporter", "America", "L'Osservatore Romano"
Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 29.02.2016

 

 
Imagem Póster de "O caso Spotlight" (det.) | D.R.
«A Igreja é uma instituição dirigida por homens, e os homens são falíveis. Julgo que por esse motivo todos nós temos de permanecer muito vigilantes, e essa é a nossa responsabilidade. Não é só seguir ordens ou obedecer a comandos, mas também participar na comunidade»
«Quem é que quer falar sobre isto? É uma coisa muito difícil e dolorosa para falar, mas às vezes vale a pena falar dessas questões. Ao fazê-lo, estamos certos de fazermos o nosso melhor para prevenir que voltem a acontecer»
«As palavras são boas. Mas todos sabemos que as palavras são apenas palavras até vermos realmente a mudança a acontecer. Sei o que digo, não julgo que um problema desta envergadura desapareça de um dia para o outro. E dez anos é um dia para outro neste problema particular porque existiu durante muito tempo»
«É verdade que na narrativa não é dado espaço à longa e tenaz luta que Joseph Ratzinger, como prefeito da Congregação Para a Doutrina da Fé e como papa, empreendeu contra a pedofilia na Igreja. Mas num filme não se pode dizer tudo, e as dificuldades que Ratzinger encontrou não fazem senão confirmar a tese do filme, ou seja, que demasiadas vezes a instituição eclesiástica não soube reagir com a necessária determinação perante estes crimes»
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