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Quiasmos de incredulidade

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Quiasmos de incredulidade

“Meu abismo luzente – Meditação de um crente moderno” é uma preciosa meditação do poeta norte-americano Christian Wiman (My bright abyss – Meditation of a modern believer, Farrar, Straus & Giroux, Nova Iorque, 2013, pp. 182). Aqui o cristianismo torna-se poesia dramática, ação e decisão diante do mal físico que o autor descreve autobiograficamente. O mal nas suas diversas manifestações – físico, moral, psíquico ou social – continua a ser motivo de escândalo e de crítica para todas as teodiceias que visam a simples justificabilidade no limite da razão. O ponto crítico é a incurabilidade desse mal, é a falência dos absolutos científicos, ideológicos ou religiosos.

A preciosidade do livro de Wiman está na construção paradoxal da narrativa que cruza sabiamente poesia, espiritualidade, literatura, filosofia e teologia. A reflexão de Christian Wiman está ao nível da grande literatura cristã. Variadas e ricas são as suas fontes, como Paul Celan, George Herbert, R. Ammons, William Wordsworth, Rainer Maria Rilke e Eugenio Montale… A figura do paradoxo é a forma escolhida para abrir o significado dos diversos quiasmos da existência crente. A experiência de Wiman é uma travessia que encontra no seu cancro incurável o motivo mais profundo da vida. Esta travessia passa no centro crítico onde o mal não se dissolve com a anestesiante e rápida solução da vida eterna. Wiman atravessa o drama para o habitar e compreender com outra claridade (my bright abyss), a da fé invisível, subtil, sóbria.

Na recensão à obra no New York Times, Kathleen Norris escreve que «este é um livro ousado e urgente, escrito após o autor saber que tinha um cancro raro e incurável e imprevisível. Mas não é um livro convencional de memórias de doença e tratamento». É uma «cura através da fé», o que é bem diferente! A meditação deste crente moderno enxerga aos ombros os gigantes da literatura espiritual e mística do cristianismo. Não é o registo de um entusiasta neoconvertido por uma aparição mirabolante ou extraordinária; ou então de um ateu que chega à fé tocado pela estética religiosa. Tudo menos história edificante romântica! Trata-se de uma meditação paradoxal, de alguém que encontrou na vulnerabilidade física radical um «abismo luzente».

O paradoxo dessa luz na escuridão é evocado no título My bright abyss. É uma narrativa vivida na primeira pessoa (My) mas sem o típico estilo lamuriento ou argumentativo que procura a todo o custo convencer da bondade da experiência. Tudo porque, como escreve Wiman, «a fé não pode salvar-te das reivindicações da razão». Nesta narrativa pessoal e transmissível é o ordinário que faz o extraordinário, onde é dada atenção à irrupção do inesperado. A «fé em Deus é fé na vida». Uma transfiguração do quotidiano a partir da transcendência do amor nupcial, que envolve eroticamente a gratuidade da existência como abertura a qualquer alteridade interpelante.

A nossa vida de criaturas crentes oscila entre o «queira Deus que não tenha dúvidas!» e «graças a Deus que tenho dúvidas!». A junção quiástica resulta mais significativa do que a sua separação. Ambos exclamativos e suplicantes. A palavra «Deus» é aqui fundamental. Na dúvida ou na claridade, na transparência ou na opacidade há uma permanência desassossegante. Deus é este desassossego que nos desassossega quando idolatricamente dizemos que o encontramos. E se o encontrássemos seria Deus ou um deus? É destas extravagâncias religiosas que o Nazareno pede distância aos seus discípulos (cf. Mateus 7,15).

É precioso o desabafo de Wiman: «Senhor, eu posso aproximar-me de ti somente pelos significados da minha consciência. Eu não tenho esperança de fazer experiência de ti como faço experiência do mundo – direta, imediata […] Estou tão contente de ter fome de ti – ou isto é a evidência da tua fome por mim?» A pergunta é radical: é o homem que procura Deus ou é Deus que procura o homem? É lapidar a frase do romance Os demónios, de Fiódor Dostoiévski: «E aquele que não tem povo também não tem Deus». A experiência de Deus passa inevitavelmente pelo modo como habitamos relacionalmente a existência e a interpretamos porque «nós dependemos dos outros para a nossa fé» e «o amor humano catalisa o amor de Cristo». O «amor não foi somente dado por Deus, ele é sustentado por Ele».

A experiência crente de Deus precisa de repensar o assentimento de fé a atributos divinos contraditórios com a figura do Deus bíblico. «Omnipotente, eterno, omnisciente, Todo-Poderoso» contrastam significativamente com a dimensão contingencial e kenótica da existência do Galileu. Assumir a contingência de Cristo é atravessar a nossa própria animalidade, o caos e a pulsionalidade da nossa organicidade para fundar o humano tout court. Sem esta travessia, o cristianismo torna-se facilmente uma caricatura angélica das realidades ultraterrenas. Aliás, crítica essa levantada pelos chamados «mestres da suspeita» (Nietzsche, Marx, Freud), não sem razão! Ou então pela voz dos poetas que, no fundo, colocam sempre Deus como «a questão» subtil de todo a existencialidade.

Sem atravessar em pleno as dores da carnalidade, como escrevem os autores da antologia Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa, «o cristianismo é em muitos poemas um facto cultural, sociológico; não um assunto íntimo e grave, mas uma linguagem, uma memória de infância, um aspeto quase folclórico, um ritual laicizado, ou então uma referência pictórica, arquitetónica, musical». Mas não será precisamente essa a mais sábia caracterização do cristianismo enquanto religião sistémica e funcional em que se pode facilmente perverter? Não terá o cristianismo ou o homem crente cristão voltado as costas à «questão» assegurando-se em respostas de fácil consolação ou ao estilo folclórico de uma determinada forma de viver/pensar o cristianismo?

Se «Cristo é contingência» a essência da incarnação está em assumir a nossa corporeidade em sua radicalidade carnal. Aqui se abre a possibilidade da presença, da admiração e da transfiguração da matéria como manifestação de uma alteridade estimulante e surpreendente. Neste modo novo de entender, o cristianismo implica um entre parêntesis da teologia ou da religião explicativa que tem a pretensão de tudo explicar objetivando Deus num culto regional, ou pior ainda, numa moral extravagante a que só alguns iluminados e ascéticos poderão aceder! Mas depois disso continuarão a ser humanos?

Como sentencia Christian Wiman «cada singular expressão de fé é provisional» e a «fé em Deus é fé em mudança». É um pouco como o grão de mostarda da parábola bíblica. A fé cresce ou diminui conforme a nossa existência. A ideia de que a fé é imutável, uniforme e absoluta, uma vez para sempre, não é para humanos mas para máquinas programadas para serem perfeitas. Mas nós não somos máquinas, somos vulneráveis, como frágil é a nossa fé-confiança na vida. Por isso a nossa fé é provisória, contextual, interpretativa da nossa existência em devir.

A dissimetria entre a constância/permanência de Deus e a transitoriedade das nossas experiências é essencial para manter a dissemelhança. Os nossos «fugitivos instantes de apreensão» do Absoluto são sempre fugazes. A manifestabilidade dos traços de Deus exige a mobilização da sensibilidade para apreensão, uma disposição atenciosa feita de silêncios oracionais. A potência da vulnerabilidade desta fé está na abertura que dispõe para a alteridade. O reconhecimento de sermos frágeis como essência do humano torna-nos dispostos para acolher a irrupção do outro na nossa existência e para a sua aceitação como alguém ou algo digno da nossa confiança e amizade.

Na memória narrante de Wiman, Deus é bem mais uma presença imanente e permanente na fugacidade transitória das coisas do que uma transcendência abstrata e mítica. No fundo, Deus é uma presença incarnada na fragilidade dos «fugitivos instantes de apreensão». É na travessia da fragilidade do corpo que o poeta pode escrever o poema com que termina este memorável livro:

My God my bright abyss
Into which all my longing will not go
Once more I come to the edge of all I know
And believing nothing believe in this.

 

João Paulo Costa
Publicado em 08.10.2014

 

 
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Não é o registo de um entusiasta neoconvertido por uma aparição mirabolante ou extraordinária; ou então de um ateu que chega à fé tocado pela estética religiosa. Tudo menos história edificante romântica! Trata-se de uma meditação paradoxal, de alguém que encontrou na vulnerabilidade física radical um «abismo luzente»
Assumir a contingência de Cristo é atravessar a nossa própria animalidade, o caos e a pulsionalidade da nossa organicidade para fundar o humano
Neste modo novo de entender, o cristianismo implica um entre parêntesis da teologia ou da religião explicativa que tem a pretensão de tudo explicar objetivando Deus num culto regional, ou pior ainda, numa moral extravagante a que só alguns iluminados e ascéticos poderão aceder
A ideia de que a fé é imutável, uniforme e absoluta, uma vez para sempre, não é para humanos mas para máquinas programadas para serem perfeitas. Mas nós não somos máquinas, somos vulneráveis, como frágil é a nossa fé-confiança na vida
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