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Quem tem medo dos pobres

Não é fácil explicar como se formam os medos na nossa mente. Em geral pensa-se que tudo parte dos sentidos, mas, diferentemente dos medos antigos, os contemporâneas tendem a ser difíceis de identificar, isto é, dar-lhes um nome, compreender-lhes a proveniência, a conotação. São imprecisos e evasivos, alimentam-se de um sentido de precariedade difuso que cria contágio e que induz visões apocalípticas numa angústia sem fim. Os sociólogos chamam-lhe “síndrome da insegurança de viver”, que se espalhou e tornou quase normal na nossa sociedade.

Pensam-se as palavras para desenrodilhar o novelo de sensações heterogéneas e dar uma fisionomia concreta ao mal-estar, legitimando inclusive palavras que a história acreditava ter engolido para sempre (raça, fronteiras, muros). Palavras que incarnam uma versão atualizada de tudo o que coletivamente mais tememos: a crise planetária, a impossibilidade de realizar projetos, o alarme económico, o risco do terrorismo, o futuro dos nossos filhos e sobretudo o medo do outro.

E assim, na procura de conceitos que permitam uma correspondência entre linguagem e realidade quotidiana, a palavra de 2017 em Espanha é “aporofobia”, ou seja, o medo, a repugnância ou a aversão pelos pobres, É um neologismo cunhado no livro “Aporofobia, a rejeição do pobre”, da filósofa espanhola Adele Cortina – provém do grego “áporos” (sem recursos) e “phóbos” (temor, medo) –, para identificar uma atitude negativa muito difusa de hostilidade para com os migrantes, que no entanto é distinta do racismo e da xenofobia. O termo foi incorporado no célebre dicionário da Real Academia, responsável por elaborar as regras linguísticas da língua espanhola.

Para Adele Cortina, o que cria rejeição não é a proveniência dos migrantes, isto é, a sua condição de estrangeiros, mas a pobreza, entendida não só como indigência mas também como falta de definição de um papel social, ou seja, o vazio sociopolítico em que vivem. A sua condição existencial incarna a incerteza humana, são pessoas que não sabem o que lhes acontecerá e quanto a sua condição temporária, provisória ou suspensa, se pode revelar definitiva.



«Não sou racista, mas…», «primeiro nós depois os outros», «porque fazem tantos filhos se são pobres?» são frases que revelam muitas vezes uma rejeição da presença dos refugiados, migrantes, mas também dos desempregados, dos jovens em situação de precariedade



Cortina, porém, não fica refém dos estereótipos mediáticos dos medos atuais em relação aos migrantes, mas procura a relação entre realidade e conceitos, e entre estes e a linguagem, prefere inventariar os aspetos, interrogar-se sobre o seu sentido. Com linguagem técnica mas cortante não anda à volta dos problemas mas enfrenta-os diretamente: de que derivam verdadeiramente os medos que afligem a sociedade contemporânea? O que têm de diferente em relação ao passado?, questiona-se. A cada dia na Europa, na América ou onde quer que hajam infinitas incompreensões verbais, porque uma referência demasiadamente vaga pode ser mal-entendida: «não sou racista, mas…», «primeiro nós depois os outros», «porque fazem tantos filhos se são pobres?» são frases que revelam muitas vezes uma rejeição da presença dos refugiados, migrantes, mas também dos desempregados, dos jovens em situação de precariedade. Em substância, uma rejeição do crescente exército de indivíduos “não necessários”.

De acordo com a investigadora, o estrangeiro não mete medo e não é marginalizado se é rico, famoso, como por exemplo os futebolistas, as modelos e assim por diante, antes goza de prestígio e é imitado enquanto vencedor, são-lhe atribuídas múltiplas qualidades; só quem é pobre não tem nada a oferecer e portanto não tem qualquer valor, nenhuma “capacidade contratual”, fundamentais para a definição na nossa sociedade. É precisamente nesta capacidade que Adele Cortina vê a verdadeira cola nas sociedades do mundo contemporâneo e é precisamente neste modo de conceber a relação entre pessoas que encontra terreno fértil a atitude “aporofóbica”, favorecida por laços inspirados no modelo consumista e hedonista.

O melhor antídoto para a “aporofobia”, segundo a autora, é «evitar o risco de que as diferenças se tornem distâncias», porque a ausência de confiança e as distâncias aumentam o medo e transformam-se em fraturas preocupantes que favorecem as patologias sociais. Laços esfarrapados e reduzidos a pó. Pessoas “normais” que se desmoronam a um certo ponto (pela perda do trabalho ou outro motivo), caindo em situações de marginalidade e sofrimento. Pessoas paranóicas e conspiradoras. É o retrato levado ao extremo que a palavra “aporofobia” tem o mérito de descrever eficazmente.

A única forma para tornar a vida digna de ser vivida é reconstruir os laços sociais, verdadeiro tema dos nossos dias



 

Silvina Pérez
In L'Osservatore Romano
Trad.: SNPC
Imagem: wjarek/Bigstock.com
Publicado em 09.01.2018

 

 
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