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Quem sou Eu para ti? Deus não quer saber do que sabemos dele, mas da nossa paixão

«Jesus partiu com os discípulos para as aldeias de Cesareia de Filipe. No caminho, fez aos discípulos esta pergunta: “Quem dizem os homens que Eu sou?”. Disseram-lhe: “João Baptista; outros, Elias; e outros, que és um dos profetas”. “E vós, quem dizeis que Eu sou?” - perguntou-lhes (…)» (Marcos 8, 27-35).

Jesus encontrava-se num lugar solitário a orar. Silêncio, solidão, oração: é um momento repleto da maior intimidade para este pequeno grupo de homens. Intimidade entre os discípulos e com Deus. É uma daquelas horas especiais em que o amor se torna como que tangível, sente-se sobre ti, abaixo de ti, à tua volta, como um manto luminoso; momentos em que te sentes «dócil fibra do universo» (Ungaretti).

Nessa hora importante, Jesus coloca uma pergunta decisiva, algo de que depois tudo dependerá: fé, opções, vida… E vós, quem dizeis que eu sou? Jesus usa o método das perguntas para fazer crescer os seus amigos. As suas perguntas são centelhas que acendem alguma coisa, que colocam em movimento caminhos e crescimento. Jesus quer os seus poetas e pensadores da vida. «A diferença profunda entre os homens não entre crentes e não crentes, mas entre pensantes e não pensantes» (Carlo Maria Martini).

A pergunta começa com um «e vós», quase em oposição ao que diz a generalidade das pessoas. Não vos contesteis com uma fé de “ouvir dizer”, por tradição. Mas vós, vós que os barcos abandonastes, vós que caminhastes comigo durante três anos, vós meus amigos, que eu escolhi um a um, quem sou Eu para vós? E pergunta-o ali, dentro do ventre quente da amizade, sob a cúpula dourada da oração.



A resposta àquela pergunta de Jesus deve conter, pelo menos implicitamente, o adjetivo possessivo «meu», como Tomé na Páscoa: meu Senhor e meu Deus. Um “meu” que não indica posse, mas paixão



Uma pergunta que é o coração pulsante da fé: quem sou Eu para ti?

Jesus não procura palavras, procura pessoas; não procura definições de si mas envolvimento consigo: o que é que te aconteceu quando me encontraste? Assemelha-se às perguntas que os namorados se fazem: quanto lugar tenho eu na tua vida, quanto conto para ti?

E o outro responde: tu és a minha vida. És a minha mulher, o meu homem, o meu amor.

Jesus não precisa da opinião de Pedro para recolher informações, para saber se é mais corajoso do que os profetas de antigamente, mas para saber se Pedro está enamorado, se lhe abriu o coração. Cristo está vivo dentro de nós. O nosso coração pode ser o berço ou o túmulo de Deus.

O Imenso pode fazer grande ou pequeno. Porque o Infinito é grande ou pequeno na medida em que tu lhe fazes espaço em ti, lhe dás tempo e coração. Cristo não é aquilo que digo dele, mas aquilo que vivo dele. Cristo não é as minhas palavras, mas aquilo que dele arde em mim. A verdade é aquilo que arde. Mãos e palavras e coração que ardem.

Em todo o caso, a resposta àquela pergunta de Jesus deve conter, pelo menos implicitamente, o adjetivo possessivo «meu», como Tomé na Páscoa: meu Senhor e meu Deus. Um “meu” que não indica posse, mas paixão; não apropriação, mas pertença. Meu, como é a respiração, e sem ela não viverei. Meu, como é o coração, e sem ele, não serei.


 

Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Subbotina Anna/Bigstock.com
Publicado em 14.09.2018

 

 
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