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Para uma Pastoral da Cultura

Imagem Imagem: D.R.

Para uma Pastoral da Cultura

INTRODUÇÃO

 

Novas situações culturais, novos campos de evangelização

1. «O processo de encontro e comparação com as culturas é uma experiência que a Igreja viveu desde os começos da pregação do Evangelho» (Fides et Ratio, n. 70), pois «é próprio da pessoa humana necessitar da cultura para chegar a uma autêntica e plena realização» (Gaudium et Spes, n. 53). Também a Boa nova que é o Evangelho de Cristo para todo homem e para o homem todo, o qual «é simultaneamente filho e pai da cultura onde está inserido» (Fides et Ratio, n. 71), chega até ele na sua própria cultura, que impregna a sua maneira de viver a fé e ao mesmo tempo é progressivamente por ela modelada. «Hoje, à medida que o Evangelho entra em contacto com áreas culturais que estiveram até agora fora do âmbito de irradiação do cristianismo, novas tarefas se abrem à inculturação» (Fides et Ratio, n. 72). E, ao mesmo tempo, culturas tradicionalmente cristãs ou impregnadas de tradições religiosas milenares se encontram abaladas. Por isso, trata-se não somente de justapor a fé às culturas, mas também de dar nova vida a um mundo descristianizado no qual muitas vezes as únicas referências cristãs são de ordem puramente cultural. Estas novas situações culturais através do mundo apresentam-se à Igreja, no limiar do terceiro milénio, como novos campos de evangelização.

Diante destes desafios da «época em que vivemos, ao mesmo tempo dramática e fascinante» (Redemptoris Missio, n. 38), o Conselho Pontifício da Cultura gostaria de partilhar um conjunto de convicções e de propostas concretas, fruto de numerosos contactos, principalmente graças a uma cooperação fecunda com os bispos, pastores das dioceses, e os seus colaboradores neste campo apostólico, em vista de uma renovada pastoral da cultura como lugar de encontro privilegiado com a mensagem de Cristo. Pois todas as culturas «são um esforço de reflexão sobre o mistério do mundo e, em particular, sobre o mistério do homem: é uma maneira de dar expressão à dimensão transcendente da vida humana. O âmago de cada cultura é constituído pela sua aproximação ao mistério mais excelso: o mistério de Deus».(1) Daqui a importância decisiva de uma pastoral da cultura: «uma fé que não se torna cultura é uma fé não de modo pleno acolhida, não inteiramente pensada e nem com fidelidade vivida».(2)

O Conselho Pontifício da Cultura quer assim acatar as questões prementes que lhe endereçou o Papa João Paulo II: «Deveis ajudar a igreja a responder a estas questões fundamentais para as culturas actuais: como é que a mensagem da Igreja é acessível às novas culturas, às formas actuais da inteligência e da sensibilidade? Como é que a Igreja de Cristo pode fazer-se compreender pelo espírito moderno, tão orgulhoso com as suas realizações e ao mesmo tempo tão inquieto com o futuro da família humana?».(3)

 

I - FÉ E CULTURA: LINHAS DE ORIENTAÇÃO

 

2. Mensageira de Cristo, Redentor do homem, a Igreja em nosso tempo tomou uma consciência renovada da dimensão cultural da pessoa e das comunidades humanas. O Concílio Vaticano II, em particular a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje e o Decreto sobre a actividade missionária da Igreja, os Sínodos dos Bispos, sobre a evangelização no mundo moderno e sobre a catequese em nosso tempo, prolongados pelas Exortações apostólicas Evangelii Nuntiandi de Paulo VI e Catechesi Tradendae de João Paulo II, propõem a este respeito um rico ensinamento, particularizado pelas Assembleias especiais sucessivas, continente por continente, do Sínodo dos Bispos e as Exortações apostólicas pós-sinodais do Santo Padre. A inculturação da fé foi objecto de uma profunda reflexão por parte da Pontifícia Comissão Bíblica (4) e da Comissão Teológica Internacional.(5) O Sínodo extraordinário de 1985, por ocasião do vigésimo aniversário da conclusão do Concílio Vaticano II, retomado por João Paulo II na encíclica Redemptoris Missio, apresenta-a como uma «íntima transformação dos valores culturais autênticos, pela sua integração no cristianismo, e o enraizamento do cristianismo nas várias culturas» (n. 52). O Papa João Paulo II, em vários discursos feitos nas suas viagens apostólicas, bem como as Conferências gerais do Episcopado latino-americano em Puebla e Santo Domingo, (6) actualizaram e particularizaram esta nova dimensão da pastoral da Igreja em nosso tempo, para ir ao encontro dos homens na sua própria cultura.

Um exame atento dos diferentes campos culturais propostos neste documento mostra a vastidão do que representa a cultura, este modo particular pelo qual os homens e os povos cultivam a sua relação com a natureza e com os seus irmãos, consigo mesmos e com Deus, a fim de chegar a uma existência plenamente humana (cf. Gaudium et Spes, n. 53). Não há cultura que não seja do homem, pelo homem e para o homem. Ela é toda a actividade do homem, a sua inteligência e a sua afectividade, a sua busca de sentido, os seus costumes e as suas referências éticas. A cultura é tão natural ao homem, que a sua natureza não tem nenhum aspecto que não se manifeste na sua cultura. A missão de uma pastoral da cultura é restituir ao homem a sua plenitude de criatura «à imagem e semelhança de Deus» (Gn 1, 26), subtraindo-o à tentação antropocêntrica de se considerar independente do Criador. Consequentemente, e esta observação é essencial para uma pastoral da cultura, «não se pode negar que o homem sempre existe dentro de uma cultura particular, mas também não se pode negar que o homem não se esgota nesta mesma cultura. De resto, o próprio progresso das culturas demonstra que, no homem, existe algo que transcende as culturas. Este algo é precisamente a natureza do homem: esta natureza é exactamente a medida da cultura, e constitui a condição para que o homem não seja prisioneiro de nenhuma das suas culturas, mas afirme a sua dignidade pessoal pelo viver conforme à verdade profunda do seu ser» (Veritatis Splendor, n. 53).

A cultura, na sua relação essencial com a verdade e com o bem, não brotará apenas da fonte da experiência das necessidades, dos centros de interesse ou das exigências elementares. «A dimensão primeira e fundamental da cultura é a sã moralidade: a cultura moral».(7) «Na verdade, quando as culturas estão profundamente radicadas na natureza humana, contêm em si mesmas o testemunho da abertura, própria do homem, ao universal e à transcendência» (Fides et Ratio, n. 70). As culturas, marcadas na sua própria tendência de realização pela dinâmica dos homens e da sua história (cf. Ibid., n. 71), partilham também do seu pecado, e requerem, por isso, o necessário discernimento dos cristãos. Quando o Verbo de Deus assume na Encarnação a natureza humana na sua dimensão histórica e concreta, exceptuado o pecado (Hb 4, 15), ele a purifica e a leva a sua plenitude no Espírito Santo. Ao se revelar, Deus abre o seu coração aos homens, «por meio de acções e palavras intimamente relacionadas entre si» e lhes faz descobrir na sua linguagem de homens os mistérios do seu Amor, « para os convidar e admitir a participarem da sua comunhão » (Dei Verbum, n. 2).

 

A Boa Nova do Evangelho para as culturas

3. Para se revelar, entrar em diálogo com os homens e chamá-los à salvação, Deus escolheu, na rica variedade das culturas milenares nascidas do génio humano, um Povo cuja cultura originária Ele penetrou, purificou e fecundou. A história da Aliança é história do surgimento de uma cultura inspirada pelo próprio Deus ao seu Povo. As Sagradas Escrituras são o instrumento querido e utilizado por Deus para se revelar, o que a eleva a um plano sobrenatural. «Para escrever os Livros Sagrados, Deus escolheu homens, que utilizou na posse das faculdades e capacidades que tinham» (Dei Verbum, n. 11). Na Sagrada Escritura, Palavra de Deus, que constitui a inculturação originária da fé no Deus de Abraão, Deus de Jesus Cristo, «as palavras de Deus, expressas em línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana» (Ibid., n. 13). A mensagem da Revelação, inscrita na História sagrada, apresenta-se sempre revestida de um invólucro cultural do qual ela é indissociável, pois ela é sua parte integrante. A Bíblia, Palavra de Deus expressa na linguagem dos homens, constitui o arquétipo do encontro fecundo entre a Palavra de Deus e a cultura.

A este propósito, a vocação de Abraão é significativa: «Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai» (Gn 12, 1). «Foi pela fé que Abraão, respondendo ao chamado, obedeceu e partiu para uma terra que devia receber como herança, e partiu sem saber para onde ia. Foi pela fé que residiu como estrangeiro na terra prometida, morando em tendas... Pois esperava a cidade que tem fundamentos, cujo arquitecto e construtor é o próprio Deus» (Hb 11, 8-10). A história do Povo de Deus começa por uma adesão de fé que é também uma ruptura cultural para culminar na Cruz de Cristo, também uma ruptura, elevação da terra, mas simultaneamente centro de atracção que dirige a história do mundo para o alto e congrega na unidade os filhos de Deus dispersos: «Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim» (Jo 12, 32).

A ruptura cultural pela qual se inaugura a vocação de Abraão, «Pai dos crentes», traduz aquilo que ocorre no mais profundo do coração do homem quando Deus irrompe na sua existência, para se revelar e propor-lhe o empenho de todo o seu ser. Abraão é espiritualmente e culturalmente desenraizado para ser, na fé, plantado por Deus na Terra Prometida. Esta ruptura sublinha a fundamental diferença de natureza entre a fé e a cultura. Ao contrário dos ídolos que são o produto de uma cultura, o Deus de Abraão é o Totalmente Outro. É pela Revelação que Ele entra na vida de Abraão. O tempo cíclico das religiões antigas teve o seu fim: com Abraão e o povo judeu começa um novo tempo que se torna a história dos homens em marcha para Deus. Não é mais um povo que fabrica para si um deus, é Deus que dá origem ao seu Povo, tornando-o Povo de Deus.

A cultura bíblica ocupa um lugar único: cultura do Povo de Deus, no coração do qual Ele se encarnou. A Promessa feita a Abraão culmina na glorificação de Cristo crucificado. O Pai dos crentes, aspirando pelo cumprimento da Promessa, anuncia o sacrifício do Filho de Deus sobre o madeiro da Cruz. No Cristo que vem recapitular o conjunto da criação, o Amor de Deus chama todos os homens a partilhar da condição de filhos. O Deus Totalmente Outro se manifesta em Jesus Cristo como Totalmente Nosso: «O Verbo do Eterno Pai, tomando a fraqueza da carne humana, se tornou semelhante aos homens» (Dei Verbum, n. 13). A fé também tem o poder de atingir o coração de toda cultura, para purificá-la, fecundá-la, enriquecê-la e dar-lhe a possibilidade de se desenvolver à medida sem medida do amor de Cristo. Cristo cria uma cultura cujos dois constitutivos fundamentais são, a um título totalmente novo, a pessoa e o amor. O amor redentor de Cristo revela, para além dos limites naturais das pessoas, o seu valor profundo, que desabrocha sob o regime da Graça, Dom de Deus. Cristo é a fonte desta civilização do amor, da qual os homens carregam a nostalgia, depois da queda original no jardim do Éden, e que João Paulo II, depois de Paulo VI, não cessa de nos convocar a realizar concretamente com todos os homens de boa vontade. Porque o compromisso fundamental do Evangelho, isto é do Cristo e da Igreja, com o homem na sua humanidade, é criador de cultura no seu fundamento mesmo. Ao viver o Evangelho, dois milénios de história o testemunham, a Igreja esclarece o sentido e o valor da vida, alarga os horizontes da razão e fortalece os fundamentos da moral humana, A fé cristã autenticamente vivida revela em toda a sua profundidade a dignidade da pessoa e a sublimidade da sua vocação (cf. Redemptor Hominis, n. 10). Desde as origens, o Cristianismo se distingue pela inteligência da fé e pela audácia da razão. Testemunham-no pioneiros como S. Justino e S. Clemente de Alexandria, Orígenes, os Padres Capadócios, o encontro entre o pensamento platónico e neoplatónico e S. Agostinho, depois a integração da filosofia de Aristóteles efectuada por S. Tomás, sem esquecer S. Anselmo, S. Alberto Magno e S. Boaventura, até à época contemporânea ilustrada por Newman e Rosmini, Edith Stein e Vladimir Soloviev, Pavel Florensky e Vladimir Lossky evocados pelo Papa João Paulo II na sua encíclica Fides et Ratio (cf. n. 36-48). «O encontro da fé com as diversas culturas deu vida a uma nova realidade» (Ibid., n. 70), ela criou assim uma cultura original, nos contextos mais diversos.

 

A evangelização e a inculturação

4. A evangelização propriamente dita consiste no anúncio explícito do mistério de salvação de Cristo e de sua mensagem, pois «Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tim 2, 4). «Portanto, é preciso que todos se convertam a Cristo conhecido pela pregação da Igreja e que sejam incorporados, pelo baptismo, a ele e à Igreja, o seu corpo» (Ad Gentes, n. 7). A novidade que brota sem cessar da Revelação de Deus através «de cações e palavras intimamente relacionadas entre si» (Dei Verbum, n. 2), comunicada pelo Espírito de Cristo que age na Igreja, manifesta a verdade sobre Deus e sobre a salvação do homem. O anúncio de Jesus Cristo, «que é simultaneamente o Mediador e a plenitude de toda a Revelação» (Ibid.), traz à tona os semina Verbi ocultos e às vezes como que enterrados no coração das culturas, e fá-los germinar na mesma medida da capacidade de infinito com que Ele os criou e que Ele faz culminar na admirável condescendência da sua Sabedoria eterna (cf. Dei Verbum, n. 13), transformando o seu projecto de sentido em desejo de transcendência, e essas possibilidades em bases sólidas para a acolhida do Evangelho. Pelo testemunho explícito da sua fé, os discípulos de Jesus fazem com que o Evangelho impregne a pluralidade das culturas.

Evangelizar, para a Igreja, é levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade... chegar a atingir e como que modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de deus e com o desígnio da salvação.

Importa evangelizar, não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às suas raízes, a civilização e as culturas do homem, no sentido pleno e amplo que estes termos têm na Constituição Gaudium et Spes, a partir sempre da pessoa e fazendo continuamente apelo para as relações das pessoas entre si e com Deus.

O Evangelho, e consequentemente a evangelização, não se identificam por certo com a cultura, e são independentes em relação a todas as culturas. E no entanto, o reino que o Evangelho anuncia é vivido por homens profundamente ligados a uma determinada cultura, e a edificação do reino não pode deixar de servir-se de elementos da civilização e das culturas humanas. O Evangelho e a evangelização independentes em relação às culturas, não são necessariamente incompatíveis com elas, mas susceptíveis de as impregnar a todas sem se escravizar a nenhuma delas.

A ruptura entre o Evangelho e a cultura é sem dúvida o drama da nossa época... Assim, importa envidar todos os esforços no sentido de uma generosa evangelização da cultura, ou mais exactamente das culturas. Estas devem ser regeneradas mediante o impacto da Boa Nova (Evangelii Nuntiandi, n. 18-20). Para tanto, é necessário anunciar o Evangelho na linguagem e na cultura dos homens.

Esta Boa nova se destina à pessoa humana na sua complexa totalidade, espiritual e moral, económica e política, cultural e social. Portanto, a Igreja não hesita em falar em evangelização das culturas, isto é das mentalidades, dos costumes, dos comportamentos. «A nova evangelização requer um esforço lúcido, sério e organizado para evangelizar a cultura» (Ecclesia in America, n. 70).

Se as culturas são, na sua totalidade, compostas de elementos heterogéneos, instáveis e passageiros, a primazia de Cristo e a universalidade da sua mensagem são, entretanto, fonte inesgotável de vida (cf. Col 1, 8-12; Ef 1, 8) e de comunhão. Portadores desta novidade absoluta de Cristo ao coração das culturas, os missionários do Evangelho não cessam de ultrapassar os limites próprios à cada cultura, sem se deixar encerrar nas perspectivas terrestres de um mundo melhor. «Porque o reino de Deus não é deste mundo (cf. Jo 18, 36), a Igreja, povo de Deus, instaurando este reino não subtrai nada ao bem temporal de cada povo, antes, pelo contrário, fomenta e assume as possibilidades, os recursos e o estilo de vida dos povos, naquilo que têm de bom, e, ao assumi-los, purifica-os, consolida-os e eleva-os» (Lumen Gentium, n. 13). A evangelização, cuja fé é ela mesma ligada à uma cultura, deve sempre dar testemunho claro do lugar único de Cristo, da sacramentalidade de sua Igreja, do amor dos seus discípulos por todo homem e por «tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor» (Fil 4, 8), o que implica a rejeição de tudo aquilo que é fonte de pecado e fruto do pecado no coração das culturas.

 

5. «Hoje sente-se vivamente a exigência da evangelização das culturas e da inculturação da mensagem da fé» (Pastores dabo vobis, n. 55). Uma e outra marcham no mesmo passo, num processo de mútuo intercâmbio, que exige o exercício permanente de um rigoroso discernimento à luz do Evangelho, para identificar valores e contravalores presentes nas culturas, construir sobre os primeiros e lutar vigorosamente contra os segundos. «Pela inculturação, a Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas e simultaneamente introduz os povos com as suas culturas na sua própria comunidade, transmitindo-lhes os seus próprios valores, assumindo o que de bom nelas existe, e renovando-as a partir de dentro. Por sua vez, a Igreja, com a inculturação, torna-se um sinal mais transparente daquilo que realmente ela é, e um instrumento mais apto para a missão» (Redemptoris Missio, n. 52). «Necessária e essencial» (Pastores dabo vobis, n. 55), a inculturação, distanciando-se tanto de um arqueologismo excessivamente apegado ao passado quanto de um mimetismo intramundano, é «chamada a levar a força do Evangelho ao coração da cultura e das culturas». «Neste encontro, as culturas não somente não ficam privadas de nada, como são estimuladas a abrir-se à novidade evangélica, para ser por ela incitadas a um ulterior desenvolvimento» (Fides et Ratio, n. 71).

Em sintonia com as exigências objectivas da fé e da missão de evangelizar, a Igreja tem em conta este dado essencial: o encontro entre a fé e as culturas se opera entre duas realidades que não são da mesma ordem. A inculturação da fé e a evangelização das culturas estabelecem como que um binómio, que exclui toda forma de sincretismo: (8) tal é «o sentido autêntico da inculturação; esta, diante das mais diversas e por vezes contrastantes culturas presentes nas várias partes do mundo, pretende ser uma obediência ao mandato de Cristo de pregar o Evangelho a todas as gentes até os extremos confins da terra. Uma tal obediência não significa sincretismo, nem simples adaptação do anúncio evangélico, mas que o evangelho penetra vitalmente nas culturas, se encarna nelas, superando os elementos culturais das mesmas que são incompatíveis com a fé e a vida cristã e elevando os seus valores ao mistério da salvação que provém de Cristo» (Pastores dabo vobis, n. 55). Os sucessivos Sínodos dos Bispos não cessam de sublinhar a importância peculiar desta inculturação para a evangelização, à luz dos grandes mistérios da salvação: a encarnação de Cristo, o seu nascimento, sua Paixão e sua Páscoa redentora e o Pentecostes que, pela forca do Espírito, dá a cada um entender na sua própria língua as maravilhas de Deus.(9) As nações congregadas em torno do cenáculo de Pentecostes não entenderam nas suas línguas respectivas um discurso sobre suas próprias culturas humanas, mas maravilharam-se de entender, cada um na sua própria língua, os apóstolos anunciarem as maravilhas de Deus. «Por um lado, a mensagem evangélica não é isolável pura e simplesmente da cultura em que ela primeiramente se inseriu, nem mesmo, sem perdas graves, das culturas em que ela já se exprimiu ao longo dos séculos... por outro lado, a força do Evangelho por toda a parte é transformadora e regeneradora» (Catechesi Tradendae, n. 53). «O anúncio do Evangelho nas diversas culturas, ao exigir de cada um dos destinatários a adesão da fé, não os impede de conservar a própria identidade cultural, ... fazendo com que aquilo que nelas está implícito se desenvolva até à sua explanação plena na verdade» (Fides et Ratio, n. 71).

«Devido à relação estreita e orgânica existente entre Cristo e a palavra anunciada pela Igreja, a inculturação da mensagem revelada não poderá deixar de seguir a "lógica" própria do mistério da Redenção...esta kenosis necessária para a exaltação, caminho de Jesus e de cada um dos seus discípulos (cf. Fil 2, 6-9), é iluminadora para o encontro das culturas com Cristo e o seu Evangelho. Cada cultura tem necessidade de ser transformada pelos valores do Evangelho à luz do mistério pascal» (Ecclesia in Africa, n. 61). A onda dominante do secularismo que se propaga através das culturas, propõe muitas vezes, com a força sugestiva dos medias, modelos de vida que são o contrário da cultura das Bem-aventuranças e da imitação de Cristo pobre, casto, obediente e humilde de coração. De fato, há grandes obras culturais que se inspiram no pecado, e podem incitar ao pecado. «Ao propor a Boa Nova, a Igreja denuncia a presença do pecado nas culturas e as liberta deles. Ela é, portanto, um elemento crítico das culturas..., a crítica das idolatrias, ou seja, de valores erigidos em ídolos ou que uma pretensa cultura declara absolutos».(10)

 

Uma pastoral da cultura

6. Ao serviço do anúncio da Boa nova e portanto do destino do homem no desígnio de Deus, a pastoral da cultura deriva da missão mesma da Igreja no mundo de hoje, na percepção renovada de suas exigências, expressas pelo Concilio Vaticano II e pelos Sínodos dos Bispos. A tomada de consciência da dimensão cultural da existência humana acarreta uma atenção particular para com este novo campo da pastoral. Ancorada na antropologia e na ética cristã, esta pastoral anima um projecto cultural cristão que consinta a Cristo, Redentor do Homem, centro do cosmos e da história (cf. Redemptor Hominis, n. 1), renovar toda a vida dos homens abrindo «ao seu Poder salvador os vastos campos da cultura».(11) Nesse domínio, as vias são praticamente infinitas, pois a pastoral da cultura se aplica às situações concretas para abri-las à mensagem universal do Evangelho.

Ao serviço da evangelização, que constitua a missão essencial da Igreja, sua graça e sua vocação própria bem como sua identidade mais profunda (cf. Evangelii Nuntiandi, n. 14), a pastoral, em busca dos modos «o mais possível adaptados e eficazes, para comunicar a mensagem evangélica aos homens do nosso tempo» (Ibid., n. 40), associa meios complementares: «A evangelização é uma diligência complexa, em que há variados elementos: renovação da humanidade, testemunho, anúncio explícito, adesão do coração, entrada na comunidade, aceitação dos sinais e iniciativas de apostolado. Estes elementos, na aparência, podem afigurar-se contrastantes. Na realidade, porém, eles são complementares e reciprocamente enriquecedores uns dos outros. É necessário encarar sempre cada um deles na sua integração com os demais» (Ibid., n. 24).

Uma evangelização incultura graças a uma pastoral bem ordenada permite à comunidade cristã de receber, celebrar, viver, traduzir sua fé na sua própria cultura, na «compatibilidade com o Evangelho e a comunhão com a Igreja universal» (Redemptoris Missio, n. 54). Ela traduz ao mesmo tempo o carácter absolutamente novo da Revelação em Jesus Cristo e a exigência de conversão que brota do encontro com o único Salvador: «Eis que eu faço novas todas as coisas» (Ap 21, 5).

Daí a importância da tarefa própria dos teólogos e dos pastores para uma verdadeira inteligência da fé e para o discernimento pastoral. A simpatia com a qual eles devem abordar as culturas «servindo-se dos conceitos e das línguas dos diversos povos» (Gaudium et Spes, n. 44) para exprimir a mensagem de Cristo, saberá partir de um discernimento exigente, diante dos grandes e graves problemas que emergem de uma análise objectiva dos fenómenos culturais contemporâneos, cujo peso não será ignorado pelos pastores, pois estão em jogo a conversão das pessoas e, através delas, das culturas, a cristianização do ethos dos povos (cf. Evangelii Nuntiandi, n. 20).

 

II - DESAFIOS E FUNDAMENTOS

 

Uma nova época da história humana (Gaudium et Spes, n. 54) 7. As condições de vida do homem moderno nestes últimos decénios do segundo milénio transformaram-se tão profundamente, que o Concílio Vaticano II não hesita em falar de «uma nova época da história humana» (Gaudium et Spes, n. 54). Para a Igreja, é um kairós, tempo favorável para uma nova evangelização, onde os novos traços da cultura constituem desafios e fundamentos para uma pastoral da cultura.

A Igreja, em nosso tempo, tem disso uma viva consciência, sob o impulso dos Papas que desenvolveram e actualizaram a doutrina social da Igreja, da Rerum Novarum em 1891, à Centesimus Annus em 1991. As Conferências Episcopais, suas federações e os Sínodos dos Bispos se inspiraram nela para iniciativas práticas adequadas às situações peculiares dos diversos países. No seio desta diversidade, afirmam-se entretanto alguns traços dominantes.

Na situação cultural hoje preponderante em diferentes partes do mundo, o subjectivismo prevalece como medida e critério de verdade (cf. Fides et Ratio, n. 47). Os pressupostos positivistas sobre o progresso da ciência e da tecnologia são postos em questão. Após o fracasso espectacular do marxismo-leninismo colectivista e ateu, a ideologia rival, o liberalismo, revela sua incapacidade em fazer a felicidade do género humano, na dignidade responsável de cada pessoa. Um ateísmo prático antropocêntrico, a indiferença religiosa apregoada, um materialismo hedonista agressivo marginalizam a fé como algo evanescente, sem consistência nem pertinência cultural, no seio de uma cultura «prevalentemente científica e técnica» (Veritatis Splendor, n. 112). «Na verdade, os critérios de juízo e de escolha assumidos pelos mesmos crentes apresentam-se frequentemente, no contexto de uma cultura amplamente descristianizada, como alheios ou até mesmo contrapostos aos do Evangelho» (Ibid., n. 88). O Papa João Paulo II o recordava ao celebrar o vigésimo quinto aniversário da Constituição conciliar sobre a liturgia: «A adaptação às culturas exige também uma conversão do coração e, se for necessário, mesmo a ruptura com hábitos ancestrais incompatíveis com a fé católica. Ora tudo isto requer uma séria formação teológica, histórica e cultural, bem como um são critério para discernir aquilo que é necessário ou útil daquilo que é inútil ou até mesmo perigoso para a fé» (Vicesimus quintus annus, n. 16).

 

Urbanização galopante e desenraizamento cultural

8. Provocado por diversos factores, como a pobreza ou o subdesenvolvimento das zonas rurais desprovidas dos bens e serviços básicos, mas também, em certos países, por causa dos conflitos armados que obrigam milhões de seres humanos a deixar o seu ambiente familiar e cultural, dá-se actualmente um impressionante êxodo rural que tende a fazer crescer desmesuradamente os grandes centros urbanos. A essas pressões de ordem económica e social, se ajunta o fascínio da cidade, do bem-estar e do divertimento que ela oferece e cujas imagens são transmitidas pelos meios de comunicação social. Por falta de planeamento, os arrabaldes ou subúrbios dessas megalópoles tornam-se frequentemente uma espécie de guetos, aglomerações enormes de pessoas socialmente desenraizadas, politicamente carentes, economicamente marginalizadas e culturalmente isoladas.

O desenraizamento cultural, cujas causas são múltiplas, faz aparecer por contraste o papel fundamental das raízes culturais. O homem desestruturado pelo enfraquecimento ou pela perda da sua identidade cultural torna-se um terreno privilegiado para práticas desumanizantes. Nunca como neste século XX o homem manifestou tantas capacidades e talentos, mas nunca também a história conheceu tantas negações e violações da dignidade humana, frutos amargos da negação ou do esquecimento de Deus. Com os valores relegados à esfera privada, a vida moral apresenta-se alterada e a vida espiritual debilitada. O terrível conceito de «cultura de morte» estigmatiza uma contracultura que demonstra de modo evidente a sinistra contradição entre uma vontade afirmada de vida e a rejeição obstinada de Deus, fonte de toda vida (cf. Evangelium Vitae, n. 11-12 e 19-28).

«Evangelizar a cultura urbana constitui um desafio formidável para a Igreja, que, assim como soube ao longo dos séculos evangelizar a cultura rural, da mesma forma é também chamada hoje a levar a cabo uma evangelização urbana metódica e capilar através da catequese, da liturgia e do modo mesmo de organizar as sua estruturas pastorais» (Ecclesia in America, n. 21).

 

Meios de comunicação social e tecnologia da informação

9. «O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações, que está a unificar a humanidade, transformando-a como se costuma dizer na "aldeia global". Os meios de comunicação social alcançaram tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais... A própria evangelização da cultura moderna depende, em grande parte, da sua influência... É necessário integrar a mensagem nesta "nova cultura", criada pelas modernas comunicações. É um problema complexo, pois esta cultura nasce, menos dos conteúdos do que do próprio fato de existirem novos modos de comunicar com novas linguagens, novas técnicas, novas atitudes psicológicas» (Redemptoris Missio, n. 37). O advento desta verdadeira revolução cultural, com a transformação da linguagem causada especialmente pela televisão e pelos modelos que ela propõe, acarreta «a transformação completa de tudo o que é necessário à humanidade para compreender o mundo que a envolve e para verificar e expressar a percepção do mesmo... Com efeito, tanto se pode recorrer aos mass media para proclamar o Evangelho, como para o afastar do coração do homem».(12) Os mass media que dão acesso à informação « ao vivo » suprimem o recuo da distância e do tempo, mas sobretudo transformam a apreensão das coisas: a realidade cede lugar àquilo que é exibido por estes meios. Então, a repetição contínua de informações seleccionadas torna-se um factor determinante na criação daquela que passa a ser considerada «opinião pública».

A influência dos media que representam as fronteiras, em particular no campo da publicidade,(13) exige dos cristãos uma nova criatividade para atingir as centenas de milhões de pessoas que consagram quotidianamente um tempo importante à televisão e ao rádio, meios de informação e de promoção cultural, mas também de evangelização para aqueles a quem faltam ocasiões para entrar em contacto com o Evangelho e com a Igreja nas sociedades secularizadas. A pastoral da cultura deve dar uma resposta positiva à questão crucial apresentada por João Paulo II: «Existe, contudo, um lugar para Cristo nos mass media tradicionais?». (14)

A mais surpreendente das inovações na tecnologia da comunicação é sem dúvida a rede Internet. Como toda técnica nova, não deixa de suscitar temores, tristemente justificados por usos perversos, e exige uma constante vigilância e uma séria informação. Não se trata somente da moralidade do seu uso, mas das consequências radicalmente novas que ela acarreta: perda do «peso específico» das informações, nivelamento das mensagens reduzidas a não ser mais que pura informação, ausência de reacções concernentes às mensagens da rede por parte das pessoas responsáveis, efeito dissuasivo quanto às relações interpessoais. Mas, sem nenhuma dúvida, as imensas potencialidades da Internet podem fornecer um auxílio considerável à difusão da Boa Nova, como testemunham certas iniciativas eclesiais promissoras, que exigem um desenvolvimento criativo e responsável nesta «nova fronteira da missão da Igreja» (cf. Christifideles Laici, n. 44).

Esta área da comunicação é importantíssima. Como não estar presentes e utilizar as redes informáticas, cujos monitores estarão de agora em diante em cada casa, para incluir ali os valores da mensagem evangélica?

 

Identidades e minorias nacionais

10. As tragédias que marcaram o século XX e afligem ainda hoje milhões de pessoas pelo mundo afora, demonstram como o campo da identidade cultural e sua evangelização são um factor decisivo para o futuro da Igreja e da sociedade. Se a sua unidade de natureza constitui todos os homens membros de uma única grande comunidade, o carácter histórico da condição humana faz-lhes necessariamente ligados de modo mais intenso a grupos particulares: desde a família até às nações. A condição humana é colocada assim entre estes dois pólos o universal e o particular em tensão vital particularmente fecunda, se é vivida no equilíbrio e na harmonia. O fundamento dos direitos das nações não é outro que a pessoa humana. Neste sentido, estes direitos não são nada mais que os direitos do homem considerados a este nível específico da vida comunitária. O primeiro destes direitos é o direito à existência. «Ninguém nem um Estado, nem outra nação, nenhuma organização internacional pode jamais considerar legitimamente que uma particular nação não é digna de existir».(15) O direito à existência implica naturalmente, para cada nação, o direito à sua própria língua e à sua cultura. É através delas que um povo exprime e defende sua soberania singular.

Se os direitos da nação traduzem as exigências da particularidade, é importante também sublinhar as exigências da universalidade, com os deveres que dela resultam para cada nação com relação às outras e para com toda a humanidade. O primeiro de todos é sem dúvida nenhuma o dever de viver em uma atitude de paz, respeitosa e solidária às outras nações. Formar as novas gerações para viver sua própria identidade na diversidade é uma tarefa prioritária da educação à cultura, dado que frequentemente grupos de pressão não deixam de utilizar a religião para fins políticos que lhe são estranhos. Ao mesmo tempo, a pastoral da cultura apoia-se sobre o Dom do Espírito de Jesus e do seu amor que «são destinados a todos e cada um dos povos e culturas para os unir entre si à imagem daquela perfeita união que existe em Deus Uno e Trino» (Ecclesia in America, n. 70).

Ao contrário do nacionalismo carregado de desprezo, e até mesmo de aversão às outras nações e culturas, o patriotismo é o amor e o serviço legítimos, privilegiados, mas não exclusivos, ao seu próprio país e à sua cultura, distante tanto do cosmopolitismo quanto do nacionalismo cultural. Cada cultura é aberta ao universal naquilo que tem de melhor. Ela é chamada também a se purificar da sua parte na herança de pecado, inscrita em certos preconceitos, costumes e práticas opostas ao Evangelho, a enriquecer-se com o contributo da fé e a «enriquecer a própria Igreja universal com novas expressões e valores» (cf. Redemptoris Missio, n. 52 e Slavorum Apostoli, n. 21).

 

Novos areópagos e campos culturais tradicionais

Ecologia, ciência, filosofia e bioética

11. Uma nova tomada de consciência afirma-se com o desenvolvimento da ecologia. Esta não é uma novidade para a Igreja: a luz da fé ilumina o sentido da criação e as relações entre o homem e a natureza. São Francisco de Assis e são Filipe Néri são as testemunhas símbolo do respeito à natureza contido na visão cristã do mundo criado. Este respeito encontra sua fonte no facto de que a natureza não é propriedade do homem; ela pertence a Deus, seu Criador, que confiou-lhe a sua administração (Gn 1, 28) para que ele a respeite e nela encontre a sua legítima subsistência (cf. Centesimus Annus, n. 38-39).
A vulgarização dos conhecimentos científicos conduz frequentemente o homem a situar-se na imensidão do cosmos e a extasiar-se diante de suas próprias capacidades e diante do universo, sem pensar de jeito nenhum que Deus é o seu autor. Daqui o desafio, para a pastoral da cultura, de conduzir o homem para a transcendência, de ensinar-lhe a percorrer de novo o caminho que parte de sua experiência intelectual e humana, para desembocar no conhecimento do Criador, utilizando com sabedoria as melhores aquisições das ciências modernas, à luz da recta razão. Embora a ciência, pelo seu prestígio, impregne fortemente a cultura contemporânea, ela não consegue apreender aquilo que constitui na sua substância a experiência humana, nem a realidade mais intrínseca das coisas. Uma cultura coerente, fundada sobre a transcendência e a superioridade do espírito em face da matéria, requer uma sabedoria onde o conhecimento científico se desenvolva em um horizonte iluminado pela reflexão metafísica. No plano do conhecimento fé e ciência não se sobrepõem uma à outra, e convém não confundir os seus princípios metodológicos, mas distinguir para unir e reencontrar, para além da dispersão causada pela subdivisão do saber em campos fechados, esta síntese harmoniosa e o sentido unificador da totalidade que caracterizam uma cultura plenamente humana. Em nossa cultura fragmentada que custa a integrar a abundante acumulação de conhecimentos, as maravilhosas descobertas das ciências e as notáveis contribuições das modernas técnicas, a pastoral da cultura requer como pressuposto uma reflexão filosófica que se ocupe de organizar e estruturar o conjunto dos conhecimentos e fortaleça, ao fazê-lo, a capacidade de verdade da razão e sua função reguladora da cultura.

«A subdivisão do saber, enquanto comporta uma visão parcial da verdade com a consequente fragmentação do seu sentido, impede a unidade interior do homem de hoje. Como poderia a Igreja deixar de preocupar-se? Os Pastores recebem esta função sapiencial directamente do Evangelho, e não podem eximir-se do dever de concretizá-la» (Fides et Ratio, n. 85).

 

12. É também a tarefa dos filósofos e teólogos qualificados, em condições de abordar com competência a cultura científica e tecnológica dominante, de identificar os desafios e os fundamentos para o anúncio do Evangelho. Esta exigência implica uma renovação do ensino filosófico e teológico, pois a condição de todo diálogo e de toda inculturação está numa teologia plenamente fiel ao dado de fé. A pastoral da cultura tem igual necessidade de cientistas católicos que sintam como que um dever de fornecer sua contribuição própria à vida da Igreja, já que faz parte de sua experiência pessoal o encontro entre ciência e fé. O défice de qualificação teológica e de competência científica prejudica a eficácia da presença da Igreja no coração da cultura derivada das pesquisas científicas e de suas aplicações técnicas. E no entanto nós vivemos um período particularmente favorável ao diálogo entre ciência e fé.(16)

 

13. A ciência e a técnica dispõem de maravilhosos meios para aumentar o saber, o poder e o bem-estar dos homens, mas a sua utilização responsável implica a dimensão ética das questões científicas. Frequentemente colocadas pelos próprios estudiosos em busca da verdade, estas questões evidenciam a necessidade de um diálogo entre ciência e moral. Esta busca da verdade que transcende a experiência dos sentidos, oferece novas possibilidades para uma pastoral da cultura dirigida ao anúncio do Evangelho nos meios científicos.

É de todo evidente, e sua vastidão o testemunha, que a bioética é bem mais que uma disciplina do saber, ela tem incidências culturais, sociais, políticas e jurídicas, às quais a Igreja atribui a Maior importância. Com efeito, a evolução da legislação no campo da bioética depende da escolha das referências éticas às quais recorre o legislador. A questão de fundo permanece, com o seu carácter severo: quais devem ser as relações entre normas morais e lei civil em uma sociedade pluralista? (cf. Evangelium Vitae, n. 18 e 68-74). Ao submeter as questões éticas fundamentais a legisladores sucessivos, não se corre o risco de erigir em direito algo que moralmente seria inaceitável?

A bioética é um dos campos evidentes que convidam a remontar aos fundamentos da antropologia e da vida moral. O papel dos cristãos é insubstituível para contribuir na formação, no seio da sociedade, num diálogo respeitoso e exigente, de uma consciência ética e um sentido cívico. Esta situação cultural exige uma formação rigorosa tanto para os presbíteros quanto para os leigos que agem neste campo crucial da bioética.

 

A família e a educação

14. «A família, comunidade de pessoas, é, pois, a primeira sociedade humana. Ela surge no momento em que se realiza a aliança do matrimónio, que abre os cônjuges a uma perene comunhão de amor e de vida, e completa-se plenamente e de modo específico com a geração dos filhos: a comunhão dos cônjuges dá início à comunidade familiar» (Carta às famílias, 1994, n. 7).

Berço da vida e do amor, a família é também fonte de cultura. Ela acolhe a vida e é esta escola de humanidade onde os futuros cônjuges melhor aprendem a se tornarem pais responsáveis. O processo de crescimento, que ela assegura em uma comunidade de vida e de amor, ultrapassa em certas civilizações o núcleo parental, para constituir, por exemplo, a grande família africana. E mesmo quando a miséria material, cultural e moral mina a instituição mesma do matrimónio e ameaça secar as fontes da vida, a família nem por deixa de ser o lugar privilegiado de formação da pessoa e da sociedade. A experiência o demonstra: o conjunto das nações e a coesão dos povos dependem, acima de tudo, da qualidade humana das famílias, principalmente da presença complementar dos dois genitores, com os papéis respectivos do pai e da mãe na educação dos filhos. Numa sociedade onde cresce o número dos sem-família, a educação torna-se mais difícil, como a transmissão de uma cultura popular modelada pelo Evangelho.

As situações pessoais dolorosas merecem compreensão, caridade e solidariedade, mas em nenhum caso aquilo que é fracasso trágico da família poderá ser apresentado como novo modelo de vida social. As campanhas de opinião e as políticas antifamiliares ou antinatalistas são tentativas de modificar o conceito mesmo de «família», até esvaziá-lo de sua substância. Neste contexto, formar uma comunidade de vida e de amor que une os cônjuges associando-os ao Criador constitui o melhor testemunho que as famílias cristãs possam dar à sociedade.

 

15. Mais que em qualquer outra época, o papel específico da mulher nas relações interpessoais e sociais desperta reflexões e iniciativas. Em numerosas sociedades contemporâneas marcadas por uma mentalidade «antifilho», o cuidado dos filhos é com frequência considerado como um obstáculo à autonomia e às possibilidades de afirmação da mulher, o que obscurece o rico significado da maternidade bem como da personalidade feminina. Fundada sobre a mensagem da Revelação bíblica, promovida a despeito dos acasos da história e da cultura das nações cristãs, a igualdade fundamental do homem e da mulher criados por Deus à sua imagem (Gn 1, 27) e ilustrada pelo património artístico secular da Igreja, chama a pastoral da cultura a levar em conta a profunda transformação da condição feminina em nosso tempo: «Em tempos recentes, algumas correntes do movimento feminista, no intento de favorecer a emancipação da mulher, tiveram em vista assemelhá-la em tudo ao homem. Mas a intenção divina manifestada na criação, embora quisesse a mulher igual ao homem por dignidade e valor, afirma-lhe contemporaneamente com clareza a diversidade e a especificidade. A identidade da mulher não pode consistir em ser uma cópia do homem».(17) As especificidades próprias de cada um dos sexos se unem em uma colaboração recíproca que leva a um enriquecimento mútuo e onde as mulheres são as primeiras artesãs de uma sociedade mais humana.

O desafio de anunciar o Evangelho às crianças e aos jovens, da escola à universidade, exige também um projecto educativo apropriado. A educação no seio da família, na escola ou na universidade «não só constrói uma relação profunda entre educador e educando, mas fá-los ambos participar na verdade e no amor, meta final à qual cada homem é chamado por Deus Pai, Filho e Espírito Santo» (Carta às famílias, n. 16). Ela prepara para viver relações fundadas sobre o respeito dos direitos e dos deveres. Ela prepara para viver em um espírito de acolhimento e de solidariedade, para exercer um uso moderado da propriedade e dos bens, a fim de garantir justas condições de existência para todos e em toda a parte. O futuro da humanidade passa pelo desenvolvimento integral e solidário de cada pessoa: todo homem e o homem todo (cf. Populorum Progressio, n. 42). Assim, família, escola e universidade são chamadas, cada uma na sua ordem, a inserir o fermento evangélico nas culturas do Terceiro Milénio.

 

Arte e lazer

17. Numa cultura cada vez mais marcada pelo primado do ter, pela obsessão da satisfação imediata, pela ilusão das compensações materiais, a busca do lucro, é surpreendente constatar não somente a permanência, mas o desenvolvimento de um interesse pelo belo. As formas de que se reveste este interesse parecem traduzir a aspiração que se mantém, e até mesmo se reforça, a um algo mais que encante a existência, abra-a e a conduza para além dela mesma. A Igreja teve intuição disto desde a origem e séculos de arte cristã dão disso uma ilustração magnífica: a obra de arte autêntica é potencialmente uma porta de entrada para a experiência religiosa. Reconhecer a importância da arte para inculturar o Evangelho, é reconhecer que o génio e a sensibilidade do homem são conaturais à verdade e à beleza do mistério divino. A Igreja manifesta um profundo respeito por todos os artistas, sem fazer acepção de suas convicções religiosas, pois a obra artística porta em si como que uma marca do invisível, mesmo se, como qualquer actividade humana, a arte não tenha em si mesma o seu fim absoluto: ela é ordenada à pessoa humana.

Os artistas cristãos constituem para a Igreja uma potencialidade extraordinária para aprimorar novas fórmulas e elaborar novos símbolos ou metáforas, Na exuberância génio litúrgico dotado de uma poderosa força criativa, radicada há tantos séculos nas profundezas do imaginário católico, com sua capacidade de exprimir a omnipresença da graça. Em cada continente não faltam os artistas cuja inspiração cristã é capaz de atrair fiéis de todas as religiões, bem como os não-crentes, pela irradiação do belo e do verdadeiro. Através dos artistas cristãos o Evangelho, fonte fecunda de inspiração, atinge numerosas pessoas desprovidas de contacto com a mensagem de Cristo.

Ao mesmo tempo, o património cultural da Igreja testemunha uma fecunda integração entre cultura e fé. Ele constitui um recurso permanente para uma educação cultural e catequética, que une a verdade da fé à autêntica beleza da arte (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 122-127). Frutos de uma comunidade cristã que viveu e vive intensamente sua fé na esperança e na caridade, estes bens cultuais e culturais da Igreja estão aptos a inspirar a existência humana e cristã no alvorecer do Terceiro Milénio.

 

18. O mundo do lazer e do desporto, das viagens e do turismo, juntamente com o do trabalho, constitui sem dúvida uma dimensão importante da cultura onde a Igreja está presente há muito tempo. Portanto este vem a ser também um dos areópagos da pastoral da cultura. A cultura do «trabalho» passa por profundas transformações que não deixam de ter consequências sobre o lazer e as actividades culturais. O trabalho, que para a grande Maioria é o meio de procurar o pão quotidiano (cf. Laborem Exercens, n. 1), é também um dos meios de responder ao desejo cada vez mais afirmado de desenvolvimento pessoal, ao mesmo título que as actividades culturais. Todavia, num contexto de especialização, de grande desenvolvimento tecnológico e económico, as novas formas de organização do trabalho frequentemente trazem consigo o aumento do desemprego em todas as camadas da sociedade, o qual é causa não só de miséria material, mas também semeia nas culturas dúvida, insatisfação, humilhação, às vezes até mesmo delinquência. A precariedade das condições de vida e a necessidade de prover ao necessário levam muitas vezes a considerar a cultura artística e literária como um supérfluo reservado a uma elite privilegiada.

O desporto, que se tornou quase universal, tem sem nenhuma dúvida o seu lugar em uma visão cristã da cultura, e pode favorecer ao mesmo tempo a saúde física e as relações interpessoais, pois ele cria laços e contribui para forjar um ideal. Mas ele pode também ser desnaturado pelos interesses comerciais, tornar-se o veículo de rivalidades nacionais ou raciais, dar lugar a explosões de violência que revelam as tensões e as contradições da sociedade, e transformar-se, então, em anticultura. Ele é também um lugar importante para uma moderna pastoral da cultura. Realidade multiforme e complexa, simultaneamente carregada de símbolos e de interesses comerciais, o lazer e o desporto criam não só uma atmosfera, mas como que uma cultura, um modo de ser, um sistema de referências. Uma pastoral adaptada saberá discernir aí os autênticos valores educativos, como um meio para celebrar as riquezas do ser criado a imagem de Deus, e, a exemplo do apóstolo Paulo, anunciar a salvação em Cristo (cf. 1 Cor 9, 24-27).

 

Diversidade cultural e pluralidade religiosa

19. Em nossos dias, a missão evangelizadora da Igreja é exercida em um mundo caracterizado pela diversidade de situações culturais modeladas por diferentes paradigmas religiosos. Neste momento em que os contactos interculturais e inter-religiosos se aceleram no seio da aldeia global, este fenómeno toca todos os continentes e todos os países.

A Assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a África pôs isto em relevo. Nesse continente, as religiões tradicionais que encontram o Cristianismo e o Islão permanecem bem vivas, e impregnam a cultura e a vida das pessoas e das comunidades. Se os valores culturais positivos dessas religiões nem sempre foram suficientemente levados em conta no início da evangelização, a Igreja, particularmente depois do Concílio Vaticano II, promove aqueles que estão em harmonia com o Evangelho e preparam o caminho da conversão a Cristo. «Os africanos têm um profundo senso religioso, o sentido do sagrado, da existência de Deus criador e de um mundo espiritual. A realidade do pecado nas suas formas individuais e sociais está muito presente na consciência daqueles povos, e sente-se também igualmente a necessidade de ritos de purificação e expiação» (Ecclesia in Africa, n. 30-37, 42). Os valores positivos transmitidos pelas culturas tradicionais, tais como o sentido da família, o amor e o respeito à vida, o respeito aos anciãos e a veneração dos ancestrais, o sentido da solidariedade e da vida comunitária, o respeito ao chefe, a dimensão celebrativa da vida, são fundamentos sólidos para a inculturação da fé, pela qual o Evangelho penetra todos os aspectos da cultura levando-os ao seu pleno desenvolvimento (cf. Ibid., n. 59-62). Entretanto, as atitudes contrárias ao Evangelho, inspiradas por essas tradições, serão resolutamente combatidas pela força da Boa Nova do Cristo Salvador, portadora das Bem-aventuranças evangélicas (Mt 5, 1-12).

 

20. Imensas regiões do mundo, particularmente na Ásia, terras de antigas culturas, são profundamente marcadas por religiões e sabedorias não-cristãs, tais como o Hinduísmo, o Budismo, o Taoísmo, o Shintoísmo, o Confucionismo, que merecem uma atenta consideração. A mensagem de Cristo suscita ali poucas respostas. Não será isto porque o cristianismo é percebido ali frequentemente como uma religião estrangeira, insuficientemente inserida, assimilada e vivida nas culturas locais? Daí a vastidão de uma pastoral da cultura neste contexto específico.

Numerosas realidades morais e espirituais, e até mesmo místicas, tais como a santidade, a renúncia, a castidade, a virtude, o amor universal, o amor à paz, a oração e a contemplação, a felicidade em Deus, a compaixão, vividos nestas culturas, são aberturas para a fé no Deus de Jesus Cristo. O Papa João Paulo II o recorda: «Compete aos cristãos de hoje, sobretudo aos da Índia, a tarefa de extrair deste rico património os elementos compatíveis com a sua fé, para se obter um enriquecimento do pensamento cristão» (Fides et Ratio, n. 72). Expressões do homem em busca de Deus, as culturas do Oriente manifestam, através das diversidades culturais, a universalidade do génio humano e sua dimensão espiritual (cf. Nostra Aetate, n. 2). Num mundo dominado pela secularização, elas atestam a experiência vivida do divino e a importância do espiritual como núcleo vivo das culturas.

É um gigantesco desafio para a pastoral da cultura acompanhar os homens de boa vontade cuja razão procura a verdade, fundamentando-se nessas ricas tradições culturais, tais como a milenar sabedoria chinesa, e conduzir sua busca do divino a se abrir à Revelação do Deus vivo que, pela graça do Espírito, associa a si o homem em Jesus Cristo, único Redentor.

 

21. Outras grandes regiões a Assembleia especial para a América do Sínodo dos Bispos pô-lo a viva luz vivem de uma cultura profundamente modelada pela mensagem evangélica e, ao mesmo tempo, se encontram sob uma penetrante influência de modos de vida materialistas e secularizados, que se manifesta especialmente no abandono da religião difundido na classe média e entre os homens de cultura.

A Igreja, que afirma a dignidade da pessoa humana, cuida de purificar a vida social das chagas que são a violência, as injustiças sociais, os abusos de que são vítimas as crianças de rua, o tráfico de drogas, etc. Neste contexto e afirmando o seu amor preferencial pelos pobres e excluídos, a Igreja deve promover uma cultura da solidariedade em todos os níveis da vida social: instituições governamentais, instituições públicas e organizações privadas. Abrindo-se a uma Maior união entre as pessoas, entre as sociedades e as nações, ela se associará aos esforços das pessoas de boa vontade para construir um mundo cada vez mais digno da pessoa humana. Ao fazê-lo, ela contribuirá «para a redução dos efeitos negativos da globalização, tais como o domínio dos mais poderosos sobre os mais fracos, especialmente no campo económico, e a perda dos valores das culturas locais a favor de uma mal entendida homogeneização» (Ecclesia in America, n. 55).

Em nossos dias, a ignorância religiosa endémica favorece diferentes formas de sincretismo entre antigas culturas hoje extintas, os novos movimentos religiosos e a fé católica. Os problemas sociais, económicos, culturais e morais servem de justificação a novas ideologias sincretistas cujos círculos estão activamente presentes em diversos países. A Igreja pretende ressaltar estes desafios, em particular junto dos mais pobres, promover a justiça social e evangelizar as culturas tradicionais, bem como as novas culturas que emergem das megalópoles.(19)

 

22. Os países penetrados pelo Islão constituem como que um universo cultural com sua configuração própria, se bem que diversificada entre os países árabes e os outros países da África e da Ásia. Pois o Islão se apresenta indissociavelmente como uma sociedade com sua legislação e suas tradições, cujo conjunto constitui uma vasta comunidade, uma, com a sua cultura própria e o seu projecto de civilização.

O Islão conhece actualmente uma grande expansão, devida especialmente aos movimentos migratórios provenientes de países com grande crescimento demográfico. Nos países de tradição cristã, que têm, à excepção da África, um baixo ou até mesmo negativo crescimento demográfico, percebe-se frequentemente hoje o aumento da presença de muçulmanos como um desafio social, cultural, e até mesmo religioso. Os imigrados muçulmanos por sua vez passam, ao menos em certos países, por grandes dificuldades de integração sócio-cultural. Aliás, o afastamento de uma comunidade tradicional conduz frequentemente no Islão como nas outras religiões ao abandono de certas práticas religiosas e a uma crise de identidade cultural. Uma colaboração leal com os muçulmanos no plano cultural pode permitir o estabelecimento em uma efectiva reciprocidade de relações frutuosas nos países islâmicos, bem como com as comunidades muçulmanas estabelecidas nos países de tradição cristã. Uma tal cooperação não dispensa os cristãos de dar conta de sua fé cristológica e trinitária em face das outras expressões do monoteísmo.

 

23. As culturas secularizadas exercem uma profunda influência em diversas partes de um mundo marcado pela aceleração e pela complexidade crescente das mudanças culturais. Nascida em países de antiga tradição cristã, esta cultura secularizada, com os seus valores de solidariedade, de dedicação gratuita, de liberdade, de justiça, de igualdade entre o homem e a mulher, de abertura de espírito e de diálogo, e de sensibilidade ecológica, guarda ainda a marca de valores fundamentalmente cristãos que impregnaram a cultura ao longo dos séculos e cuja fecundidade penetrou a própria secularização no processo de civilização e na reflexão filosófica. Às vésperas do terceiro milénio, as questões da verdade, dos valores, do ser e do sentido, ligadas à natureza humana, revelam os limites de uma secularização que suscita, malgrado ela mesma, a procura da «dimensão espiritual da vida como antídoto à desumanização. Este fenómeno, denominado "ressurgimento religioso", não está isento de ambiguidade, mas traz com ele também um convite... Também este é um areópago a evangelizar» (Redemptoris Missio, n. 38).

Quando a secularização se transforma em secularismo (Evangelii Nuntiandi, n. 55), resulta em uma grave crise cultural e espiritual, da qual um dos sinais é a perda do respeito pela pessoa e a difusão de uma espécie de niilismo antropológico que reduz o homem aos seus instintos e tendências. Este niilismo que alimenta uma grave crise da verdade (cf. Veritatis Splendor, n. 32), «de algum modo encontra confirmação na terrível experiência do mal que caracterizou a nossa época. O optimismo racionalista que via na história o avanço vitorioso da razão, fonte de felicidade e de liberdade, não pôde resistir face à dramaticidade de tal experiência, a ponto de uma das Maiores ameaças, neste final de século, ser a tentação do desespero» (Fides et Ratio, n. 91). É dando novamente lugar à razão esclarecida pela fé e reconhecendo Cristo como a solução para a vida do homem, que uma pastoral evangelizadora da cultura poderá reforçar a identidade cristã ajudando as pessoas e as comunidades a reencontrar sua razão de viver, em todos os caminhos da vida, ao encontro do Senhor que vem, e da vida do mundo que há de vir (Ap 21-22).

Os países que redescobriram uma liberdade por muito tempo sufocada pelo marxismo-leninismo ateu no poder, ficaram marcados por uma «desculturação» violenta da fé cristã: as relações entre os homens artificialmente modificadas, a dependência da criatura em relação ao seu Criador negada, as verdades dogmáticas da Revelação cristã e sua ética combatidas. A esta «desculturação» sucedeu um questionamento radical de valores essenciais para os cristãos. Os efeitos redutores do secularismo espalhado na Europa Ocidental no fim dos anos sessenta, contribuem na desestruturação da cultura dos países da Europa central e oriental.

Outros países, de tradicional pluralismo democrático, experimentam, sobre um fundo massificado de adesão social religiosa, o impulso de correntes mescladas de secularismo e de expressões religiosas populares levadas pelos fluxos migratórios. Diante deste fato, a Assembleia especial para a América do Sínodo dos Bispos propôs uma nova tomada de consciência missionária.

 

Seitas e novos movimentos religiosos (20)

24. A sociedade no seio da qual emerge, sob as formas mais variadas, uma nova busca de espiritualidade, talvez mais que de religião, não deixa de recordar uma das tribunas de São Paulo, o Areópago de Atenas (cf. AA, 17, 22-31). A sede de reencontrar uma dimensão espiritual que seja também fonte de sentido para a vida, bem como o desejo profundo de reconstituir um tecido de relações afectivas e sociais muitas vezes lacerado pela instabilidade crescente da instituição familiar, ao menos em certos países, se traduzem em um novo «revival» no seio do cristianismo, mas também por construções mais ou menos sincretistas orientadas para uma certa união global para além de toda religião particular.

Sob o polissémico vocábulo seita podem ser colocados numerosos e muito variados grupos, uns de inspiração gnóstica ou esotérica, outros de aparência cristã, outros ainda, em certos casos, hostis a Cristo e à Igreja. O seu aparecimento responde, frequentemente, a aspirações insatisfeitas. Muitos de nossos contemporâneos encontram aí um lugar de pertença e de comunicação, de afecto e de fraternidade, até mesmo uma aparência de protecção e de segurança. Este sentimento se fundamenta, em grande parte, nas soluções aparentemente luminosas como o «Gospel of success» - mas, de facto, ilusórias que as seitas parecem fornecer às questões mais complexas, como também em uma teologia pragmática muitas vezes baseada na exaltação do « eu » tão maltratado pela sociedade. Frequentemente, as seitas se desenvolvem graças às suas pretensas respostas às necessidades das pessoas em busca de cura, de filhos, de sucesso económico. Ocorre o mesmo com as religiões esotéricas cujo êxito se afirma graças à ignorância e à credulidade de cristãos pouco ou mal formados. Em numerosos países, algumas pessoas, feridas pela vida, deixadas a si mesmas, fazem a dolorosa experiência da exclusão, especialmente no anonimato característico da cultura urbana, e estão prontas a tudo aceitar contanto que se beneficiem de uma visão espiritual que lhes restitua a harmonia perdida, e lhes conceda experimentar como que uma sensação de cura física e espiritual. Tudo isto mostra a complexidade e o alcance do fenómeno das seitas, que alia o mal-estar existencial à rejeição da dimensão institucional das religiões, e que se manifesta sob formas e expressões religiosas heterogéneas.

Mas a proliferação das seitas é também uma reacção à cultura do secularismo e uma consequência das modificações sociais e culturais que fizeram com que se perdessem as raízes religiosas tradicionais. Ir ao encontro das pessoas tocadas pelas seitas ou em perigo de o ser, para anunciar Jesus Cristo que lhes fala ao coração, é um dos desafios que a Igreja deve-se colocar.

Verdadeiramente, de um continente a outro, verifica-se a emergência de uma «nova época da história humana», já percebida pelo Concílio Vaticano II. Esta tomada de consciência exige uma nova pastoral da cultura, que se encarregue de enfrentar estes novos desafios, na convicção que levou João Paulo II a criar o Conselho Pontifício da Cultura: «Daqui a importância para a Igreja... de uma acção pastoral atenta e clarividente, a respeito da cultura, em particular da que é chamada cultura viva, ou seja o conjunto dos princípios e dos valores que formam o ethos de um povo» (Carta Autógrafa, op. cit.).

 

III - PROPOSTAS CONCRETAS

 

Objectivos pastorais prioritários

25. Os novos desafios que devem suscitar uma evangelização inculturada a partir das culturas modeladas por dois mil anos de cristianismo e de fundamentos identificados no interior dos novos areópagos culturais, exigem uma apresentação renovada da mensagem cristã, ancorada na tradição viva da Igreja e sustentada pelo testemunho de vida autêntica das comunidades cristãs. Pensar todas as coisas novas a partir da novidade do Evangelho, proposto de maneira renovada e persuasiva, torna-se uma exigência Maior. Numa perspectiva de preparação evangélica, a pastoral da cultura tem por objectivo prioritário inserir a seiva vital do Evangelho nas culturas a fim de as renovar interiormente e de transformar, à luz da Revelação, as compreensões do homem e da sociedade que modelam as culturas, as concepções de homem e da mulher, da família e da educação, da escola e da universidade, da liberdade e da verdade, do trabalho e do lazer, da economia e da sociedade, das ciências e das artes.

Mas não é suficiente falar para ser entendido. Uma vez que o destinatário esteja simultaneamente de acordo com a mensagem pela sua cultura tradicional impregnada de cristianismo e globalmente bem disposto a seu respeito por todo o contexto sócio-cultural, ele poderá então receber e compreender aquilo que lhe for proposto. Na actual pluralidade cultural, é necessário unir ao anúncio as condições de sua recepção.

O êxito desta grande empresa exige um contínuo discernimento à luz do Espírito Santo invocado na oração. Ele exige também, com uma preparação adequada e uma formação apropriada, meios pastorais simples homilias, catecismo, missões populares, escolas de evangelização aliados aos meios de comunicação modernos para atingir os homens e mulheres de todas as culturas. Os Sínodos dos Bispos recordam-no com crescente insistência, na sequência do Concílio Vaticano II, seja aos presbíteros e religiosos, seja aos leigos. A este respeito, as Conferências dos Bispos encontram uma instância especial nas Comissões episcopais de cultura que é preciso criar onde ainda não existem, aptas a promover a presença da Igreja nos diversos campos onde a cultura é elaborada, e a suscitar ali esta criatividade multiforme que nasce da fé, a exprime e a sustenta. « Para o fazer, cada Igreja particular deverá ter um projecto cultural, como já ocorre num ou noutro país ».(21) É este o empenho exigido de uma pastoral da cultura, talvez mais complexa nas suas exigências que uma primeira evangelização de culturas não cristãs.

 

Religiões e «religiosos»

26. Na sua missão de anunciar o Evangelho a todos os homens de todas as culturas, a Igreja encontra as religiões tradicionais, principalmente na África e na Ásia.(22) As Igrejas locais são convidadas e incentivadas a estudar as culturas e as práticas religiosas tradicionais de sua própria região, não para as canonizar, mas para discernir nelas os valores, os costumes e os ritos capazes de favorecer um enraizamento mais profundo do cristianismo nas culturas locais (cf. Ad Gentes, n. 19 e 22).

O «retorno» ou «despertar» da religião no Ocidente exige, seguramente, um sério discernimento. Embora se trate mais frequentemente de um retorno do sentimento religioso que de uma adesão pessoal a Deus, em comunhão de fé com a Igreja, ninguém poderá no entanto negar que homens e mulheres, em número crescente, voltam a estar atentos a uma dimensão da existência humana que eles caracterizam, conforme o caso, como espiritual, religiosa ou sacra. O fenómeno, que se verifica sobretudo entre os jovens e os pobres o que constitui uma razão suplementar para prestar-lhe atenção, leva-os seja a se voltar para um Cristianismo que os tinha desiludido um pouco, seja a se dirigir para outras religiões, seja mesmo a ceder à solicitação sectária ou ainda às ilusões do ocultismo.

Em todas as partes do mundo, um novo campo de «possíveis» se abre à pastoral da cultura a fim de que o Evangelho de Cristo resplandeça no seu interior. Numerosos são os pontos sobre os quais a fé cristã é chamada a se traduzir e a se exprimir de maneira mais acessível às culturas predominantes, em razão da concorrência mesma à qual a submete o crescimento, ao redor dela, de uma religiosidade difusa e abundante.

A busca do diálogo e a correspondente necessidade de melhor identificar a especificidade cristã representam um campo cada vez mais importante da reflexão e da acção para o anúncio da fé nas culturas. A pastoral da cultura em face do desafio das seitas (cf. Ecclesia in America, n. 73) inscreve-se nesta perspectiva, pois estas produzem efeitos culturais intimamente ligados ao seu discurso «espiritual». Esta situação exige uma séria reflexão sobre a maneira de viver a tolerância e a liberdade religiosa em nossas sociedades (cf. Dignitatis Humanae, n. 4). Sem dúvida nenhuma, é preciso formar melhor presbíteros e leigos a fim de que eles adquiram competência e discernimento a respeito das seitas e das razões do seu sucesso, sem todavia perder de vista que o verdadeiro antídoto contra as seitas é a qualidade da vida eclesial. Quanto aos presbíteros, é necessário prepará-los, tanto para enfrentar o desafio das seitas quanto para dar assistência aos fiéis em perigo de deixar a Igreja e renegar a sua fé.

 

Os «lugares ordinários» da experiência de fé, a piedade popular, a paróquia

27. Nos países de cristandade, elaborou-se pouco a pouco, geração após geração, todo um modo de compreender e de viver a fé que, com o tempo, acabou por impregnar a existência e a convivência humana: festas locais, tradições familiares, celebrações diversas, peregrinações, etc. Assim, constituiu-se uma cultura da qual todos participam e na qual a fé entra como um elemento constitutivo, ou até mesmo integrador. Este tipo de cultura aparece particularmente ameaçado pelo secularismo. É importante incentivar os verdadeiros esforços de renascimento destas tradições, a fim de que elas não se tornem atributo de folcloristas ou de políticos cujos objectivos são por vezes estranhos senão contrários à fé; mas que sejam envolvidos também responsáveis pastorais, comunidades cristãs e teólogos qualificados.

Para atingir o coração dos homens, o anúncio do Evangelho aos jovens e aos adultos e a celebração da salvação na liturgia requerem não somente um profundo conhecimento e uma experiência de fé, mas também da cultura ambiente. Quando um povo ama sua cultura fecundada pelo cristianismo como o elemento próprio de sua vida, é nesta cultura que ele vive e professa sua fé. Bispos, presbíteros, religiosos, religiosas e leigos devem desenvolver sua sensibilidade para com esta cultura, para protegê-la quando é preciso e promovê-la à luz dos valores evangélicos, especialmente quando esta cultura é minoritária. Esta atenção pode oferecer aos mais desfavorecidos, na sua grande diversidade, um acesso à fé e suscitar uma melhor qualidade de vida cristã na igreja. As pessoas de fé profunda, com uma educação e uma cultura bem integradas, são testemunhas vivas, graças às quais muitos podem reencontrar as raízes cristãs de sua cultura.

 

28. A religião é também memória e tradição, e a piedade popular continua sendo uma das Maiores expressões de uma verdadeira inculturação da fé, pois nela harmonizam-se a fé e a liturgia, o sentimento e as artes, e se fortalece a consciência de sua própria identidade nas tradições locais. Assim, «a América, que historicamente foi e continua a ser um cadinho de povos, reconheceu no rosto mestiço da Virgem de Tepeyac, em Santa Maria de Guadalupe, um grande exemplo de evangelização perfeitamente inculturada» (Ecclesia in America, n. 11). A piedade popular testemunha a osmose realizada entre o dinamismo inovador da mensagem evangélica e os componentes os mais diversos de uma cultura. É um lugar privilegiado de encontro dos homens com Cristo vivo. Um contínuo discernimento pastoral saberá descobrir-lhe os valores espirituais autênticos para levá-los à sua plena realização em Cristo «a fim de que tal religiosidade possa conduzir a um compromisso sincero de conversão e a uma experiência concreta de caridade» (cf. Ibid., n. 16). A piedade popular permite a um povo exprimir a sua fé, suas relações com Deus e sua Providência, com a Virgem e os santos, com o próximo, com os falecidos, com a criação, e fortifica-lhe a pertença à Igreja. Purificar e catequizar as expressões da piedade popular pode, em certas regiões, tornar-se um elemento decisivo para uma evangelização em profundidade, para conservar e desenvolver uma verdadeira consciência comunitária na partilha de uma mesma fé, especialmente através das manifestações religiosas do povo de Deus, como as grandes celebrações festivas (cf. Lumen Gentium, n. 67). Através destes humildes meios ao alcance de todos, os fiéis exprimem a sua fé, fortificam sua esperança e manifestam sua caridade. Em muitos países, um profundo senso do sagrado embeleza o conjunto da existência e da vida quotidiana. Uma pastoral adaptada sabe promover e valorizar os lugares sagrados, santuários e peregrinações, as vigílias litúrgicas e as comemorações. Certas dioceses e centros de pastoral universitária organizam, ao menos uma vez por ano, uma peregrinação em direcção a um lugar sagrado, seguindo o exemplo dos judeus que se rejubilavam em cantar os Cânticos das subidas ao aproximarem-se de Jerusalém.

Por sua natureza, a piedade popular exige expressões artísticas. Os responsáveis pela pastoral saberão encorajar a criação em todos os campos: ritos, música, cantos, artes decorativas, etc., e velarão pela sua boa qualidade cultural e religiosa.

A paróquia, «Igreja que se encontra entre as casas dos homens» (Christifideles Laici, n. 27), é uma das Maiores aquisições da história do cristianismo e permanece para a grande Maioria dos fiéis o lugar privilegiado da experiência ordinária da fé. A vitalidade da comunidade cristã, unida pela mesma fé, reunida para celebrar a Eucaristia, dá o testemunho da fé vivida e da caridade de Cristo e constitui um lugar de educação religiosa profundamente humana. Sob formas variadas, de acordo com a idade e as capacidades dos fiéis, a paróquia fornece uma ilustração concreta, inculturada, da fé professada e celebrada pela comunidade crente. Esta primeira formação vivida na paróquia é decisiva, ela introduz na tradição, e lança os fundamentos de uma fé viva e de um profundo sentido de Igreja.

No contexto urbano, complexo e por vezes violento, a paróquia cumpre uma função pastoral insubstituível, como lugar de iniciação cristã e de evangelização inculturada, onde os diversos grupos humanos encontram sua unidade na celebração festiva de uma mesma fé e no engajamento apostólico do qual a liturgia eucarística é a alma. Comunidade diversificada, a paróquia constitui um lugar privilegiado de pastoral concreta da cultura centrada na escuta, no diálogo e na proximidade, graças a presbíteros e leigos religiosamente e culturalmente bem preparados (cf. Christifideles Laici, n. 27).

 

Instituições educacionais

29. « O mundo da educação é um campo privilegiado para promover a inculturação do Evangelho » (Ecclesia in America, n. 71). A educação que conduz a criança, e depois o adolescente, à sua maturidade, começa no interior da família que permanece o lugar privilegiado da educação. Toda pastoral da cultura e toda a evangelização em profundidade também se apoiam sobre a educação e tomam como base a família, «primeiro espaço educativo da pessoa» (Ibid.).

Mas a família, muitas vezes às voltas com dificuldades as mais diversas, não tem como atender sozinha a todas as exigências educacionais. Daí a grande importância das instituições educacionais. Em muitos países, fiel à sua bimilenária missão de educação e ensino, a Igreja anima numerosas instituições: jardins da infância, escolas, colégios, liceus, universidades, centros de pesquisa. Estas instituições católicas têm por vocação própria colocar os valores evangélicos no interior da cultura. Para o fazer, os responsáveis por estas instituições devem haurir na mensagem do Cristo bem como no ensinamento da Igreja a substância do seu projecto educativo. Todavia, o cumprimento da missão destas instituições depende em grande parte de meios muitas vezes difíceis de reunir. É necessário render-se à evidência para enfrentar o seu desafio: a Igreja deve consagrar uma parte importante dos seus recursos em pessoal e em meios para a educação, para responder à missão recebida de Cristo de anunciar o Evangelho. Em todo caso uma exigência permanece: associar a preocupação com uma séria formação escolar àquela com uma profunda formação humana e cristã.(23) Caso contrário, a multidão de jovens que frequentam o conjunto das instituições de educação dos diversos países, poderão frequentemente, malgrado a boa vontade e a competência dos mestres, ser plenamente escolarizados, mas parcialmente «desculturados».

Na perspectiva global de uma pastoral da cultura e dando sempre aos estudantes a formação específica que eles tem o direito de esperar, as universidades, colégios e centros de pesquisa católicos terão a preocupação de assegurar um encontro fecundo entre o Evangelho e as diferentes expressões culturais. Estas instituições saberão contribuir de modo original e insubstituível a uma autêntica formação aos valores culturais, como terreno privilegiado para uma vida de fé em simbiose com a vida intelectual. A este respeito, é conveniente recomendar uma atenção particular ao ensino da filosofia, da história e da literatura, como lugares essenciais de encontro entre a fé e as culturas.

A presença da Igreja na universidade e na cultura universitária(24), com as iniciativas concretas capazes de tornar esta presença eficiente, exigem um discernimento exigente e um esforço sem cessar renovado para promover uma nova cultura cristã nutrida com as melhores aquisições em todos os campos da actividade universitária.

Uma tal urgência de formação humana e cristã, requer presbíteros, religiosos e leigos bem formados. O seu trabalho conjunto permitirá que as instituições educativas católicas influenciem a produção didáctica, bem como os profissionais da cultura, e favorecerá a difusão de um modelo cristão de relações entre educadores e educandos, no seio de uma verdadeira comunidade educativa. A formação integral da pessoa é um dos objectivos principais da pastoral da cultura.

 

30. A Escola é, por definição, um dos lugares de iniciação cultural e, em certos países há muitos séculos, um dos lugares privilegiados de transmissão de uma cultura forjada pelo cristianismo. Ora, se em um certo número de países, o «ensino religioso» encontra aí o seu lugar, não ocorre o mesmo na Maior parte dos países secularizados. Tanto numa como em outra situação, coloca-se o mesmo problema fundamental: a relação entre cultura religiosa e catequese: aparece um receio, não sem fundamento, de que a imposição a todos de cursos de «religião» obriga aqueles que são encarregados de ministrá-los a se ater, de fato, à mera cultura religiosa. Com efeito, quando se reduz o número daqueles que se beneficiam de uma catequese regular, a cultura religiosa, não garantida de outras maneiras, corre o risco, em pouco tempo, de enfraquecer-se no seio das novas gerações. Portanto, é urgente reavaliar a relação entre cultura religiosa e catequese, e traduzir de maneira nova a articulação entre a necessidade de apresentar aos alunos uma informação religiosa exacta e objectiva, por vezes ausente, e a importância capital do testemunho de fé. É também indispensável a complementaridade entre a escola e a paróquia, e é também necessário escolher os professores aptos a fazer destes estabelecimentos escolas de crescimento espiritual e cultural. Estas são as condições para o êxito desta pastoral exigente e promissora.

 

Centros de formação teológica

31. Impõe-se uma tomada de consciência. Se há algum tempo, em numerosos países, era dada uma formação religiosa adequada a todas as crianças provenientes das famílias cristãs, um número crescente de jovens encontra-se hoje desprovido dela. E alguns dentre eles sentem a necessidade de uma real formação teológica. Esta nova exigência é animadora pelo menos por três razões. Primeiramente porque, para muitos cristãos cultos, não há verdadeiras possibilidades de fidelidade e de crescimento na fé, a não ser que se eleve sua cultura religiosa ao nível de sua cultura profana, principalmente naquilo que concerne ao campo da sua vida profissional. Em seguida, porque, melhor equipados para o combate da fé, eles serão mais capazes de colaborar nos serviços eclesiais em que forem necessários: animação litúrgica, catequese escolar, acompanhamento de doentes, preparação aos sacramentos, especialmente para o baptismo e para o matrimónio. Enfim, porque a integração do seu trabalho profissional com sua fé cristã não poderá senão, afinal, permitir-lhes realizar plenamente sua missão de leigos no mundo, numa melhor integração entre os dois componentes de sua existência.

A necessidade de uma séria formação teológica impõe-se hoje com um Maior vigor, tendo em conta os novos desafios a enfrentar, da indiferença religiosa ao racionalismo agnóstico. O conhecimento aprofundado dos dados da fé é, em primeiro lugar, indispensável para uma verdadeira evangelização. Este conhecimento de ordem intelectual, interiorizado na oração e nas celebrações litúrgicas, exige uma assimilação pessoal inteligente por parte dos fiéis, para que eles sejam testemunhas da pessoa de Cristo e de sua mensagem de salvação. Num contexto cultural aliás marcado por derivações fundamentalistas, uma adequada formação teológica é, incontestavelmente, o melhor meio de enfrentar este grave perigo que ameaça a autêntica piedade popular e a cultura do nosso tempo.

A pastoral orientada para a evangelização da cultura e a inculturação da fé, implica uma dúplice competência: no campo teológico e no campo que concerne à pastoral. Inicial e permanente, geral ou especializada a ponto de permitir a obtenção de diplomas canónicos, uma tal formação teológica merece, lá onde ela ainda não o é, ser largamente proposta na Igreja, segundo o desejo expresso pelo Concílio Vaticano II (Gaudium et Spes, n. 64, 7). É, sem nenhuma dúvida, um dos melhores lugares de comunicação entre cultura de hoje e fé cristã e por isso, das possibilidades mais notáveis de impregna-la, quando a formação recebida e a inteligência da fé fortalecida pelo estudo da Palavra de Deus e da Tradição da Igreja inspirem toda a existência quotidiana.

 

Centros Culturais Católicos

32. Os Centros culturais católicos, implantados em toda parte onde sua criação é possível, são um auxílio capital para a evangelização e a pastoral da cultura. Bem inseridos no seu meio cultural, ocorre-lhes abordar os problemas urgentes e complexos da evangelização da cultura e da inculturação da fé, a partir das bases oferecidas por um debate amplo com todos os criadores, agentes e promotores de cultura, segundo o espírito do apóstolo das nações (1 Tess 5, 21-22).

Os centros culturais católicos apresentam uma rica diversidade, tanto de nomes (Centros ou Círculos culturais, Academias, centros universitários, Casas de formação), de orientações (teológica, ecuménica, científica, educativa, artística, etc.), de temas tratados (correntes culturais, valores, diálogo intercultural e inter-religioso, ciência, arte, etc.) e de actividades desenvolvidas (conferências, debates, cursos, seminários, publicações, bibliotecas, manifestações artísticas e culturais, exposições, etc.). O próprio conceito de Centro Cultural Católico reúne a pluralidade e a riqueza das diversas situações de um país: seja em se tratando de instituições ligadas a uma estrutura de Igreja (paróquia, diocese, Conferência Episcopal, Ordem religiosa, etc.), seja no caso de iniciativas que não têm o título de católicas, mas que estão em comunhão com a Igreja. Todos estes centros propõem actividades culturais com a constante preocupação da relação entre fé e cultura, da promoção da cultura inspirada em valores cristãos, através do diálogo, da pesquisa científica, da formação, pela promoção de uma cultura fecundada, inspirada, vivificada e dinamizada pela fé. Assim, os Centros culturais católicos são instrumentos privilegiados para fazer conhecer a um grande público as obras dos artistas, escritores, cientistas, filósofos, teólogos, economistas e ensaístas católicos, e suscitar assim uma adesão pessoal e entusiasta aos valores fecundados pela fé em Cristo.

«Os centros culturais católicos oferecem à Igreja singulares possibilidades de presença e acção no campo das transformações culturais. De fato, cada centro torna-se um verdadeiro fórum público permitindo uma ampla difusão, através do diálogo criativo, das convicções cristãs sobre o homem, a mulher, a família, o trabalho, a economia, a sociedade, a política, a vida internacional, o ambiente» (Ecclesia in Africa, n. 103).

O Conselho Pontifício da Cultura publicou uma lista destes Centros, principalmente a partir de informações recebidas das Conferências Episcopais.(25) Esta primeira documentação internacional sobre os Centros Culturais Católicos deverá ajudar a colocá-los em contacto entre si e a favorecer o intercâmbio, para um melhor serviço pastoral da cultura favorecido pelo uso dos novos meios de comunicação.

 

Meios de comunicação social e informação religiosa

33. Um facto chama particularmente a atenção dos responsáveis pela pastoral: a cultura se torna sempre mais global sob a influência dos mass media e da tecnologia informática. É verdade que as culturas, no seu conjunto e em todo o tempo, tiveram relações recíprocas. Mas hoje, mesmo as culturas menos divulgadas não estão mais isoladas. Elas se beneficiam do aumento dos contactos, mas sofrem também pressões exercidas por uma forte tendência à uniformização, pela qual exemplo extremo da difusão de formas de materialismo, individualismo e imoralidade se corre o risco de que os mercadores de violência e de sexo barato, que se servem para os seus fins perversos tanto dos videocassetes e dos filmes, quanto da televisão ou da Internet, tomem o lugar dos educadores. Os meios de comunicação social veiculam de resto uma multiplicidade de propostas religiosas ligadas à culturas de origem antiga ou moderna, extremamente diferentes, que se encontram agora no mesmo tempo e no mesmo lugar.

No plano da comunicação social, as emissoras católicas de televisão e sobretudo de rádio, mesmo modestas, tem um papel não indiferente na evangelização da cultura e na inculturação da fé. Elas atingem as pessoas no quadro habitual da sua vida quotidiana e contribuem assim poderosamente na evolução dos seus modos de vida. Lá onde é possível criá-las, as redes de rádio católica permitem não somente às dioceses sem grandes recursos de se beneficiarem dos meios técnicos daquelas que são mais favorecidas, mas estimulam também o intercâmbio cultural entre as comunidades cristãs. O empenho dos cristãos, não somente nos mass media religiosos, mas também nos mass media estatais ou comerciais é uma prioridade, pois estes meios de comunicação dirigem-se por natureza ao conjunto da sociedade, e permitem à Igreja atingir as pessoas que permanecem fora do seu alcance. Em certos países onde os mass media estão abertos às mensagens religiosas, as dioceses organizam verdadeiras campanhas e difundem programas ou mesmo «spots» publicitários para projectar valores cristãos essenciais para uma cultura verdadeiramente humana. Em outros lugares, os católicos recompensam os melhores profissionais com prémios. Estas intervenções através dos mass media podem contribuir pela sua qualidade e a seriedade de sua mensagem a promover uma cultura inspirada pelo Evangelho.

A imprensa quotidiana e periódica e as editoras tem o seu lugar, não somente na vida da Igreja local, mas também na da sociedade, pois que elas testemunham, muitas vezes há séculos, a vitalidade da fé e do contributo específico dos cristãos à vida cultural. Esta notável possibilidade de influência requer a presença de jornalistas, autores e editores de vastos horizontes culturais e de grande convicção cristã. Nos países onde as línguas tradicionais são usadas juntamente com as línguas oficiais, certas dioceses editam um jornal ou ao menos alguns artigos na língua tradicional, o que lhes dá uma maior possibilidade de introduzir-se em numerosas famílias.

As extraordinárias possibilidades dos meios de comunicação social para irradiar a mensagem evangélica no mundo e dar uma alma à cultura exigem a formação de católicos competentes: «Para a eficácia da nova evangelização, é fundamental um profundo conhecimento da cultura actual, na qual têm grande influência os meios de comunicação social» (Ecclesia in America, n. 72). Esta presença dos católicos nos mass media será tanto mais frutuosa se os pastores tiverem sido sensibilizados para estes meios de comunicação no curso de sua formação. O seu empenho consciente e responsável é a única atitude capaz de enfrentar as dificuldades e os desafios próprios aos mass media.

 

34. A pastoral da cultura exige uma atenção particular aos jornalistas da imprensa escrita, do rádio e da televisão. Os seus questionamentos às vezes embaraçam e decepcionam, quando não correspondem minimamente à substância da mensagem que nós devemos transmitir, mas esses questionamentos desorientadores são, muitas vezes, os de grande parte dos nossos contemporâneos. Para permitir uma melhor comunicação entre as diversas instâncias da Igreja e os jornalistas, mas também para melhor conhecer os conteúdos, os promotores e os métodos das redes culturais e religiosas, é importante que um número suficiente de pessoas seja adequadamente formado nas técnicas da comunicação, a começar pelos jovens em formação nos seminários e nas casas religiosas. Muitos jovens leigos se orientam para os mass media. Cabe à pastoral da cultura prepará-los para estar activamente presentes no mundo do rádio, da televisão, do livro e das revistas, estes vectores de informação que constituem a referência quotidiana da Maioria de nossos contemporâneos. Através dos mass media abertos e honestos, cristãos bem preparados poderão exercer um papel missionário de primeiro plano. É importante que eles sejam formados e apoiados.

A fim de estimular as criações de alto alcance moral, espiritual e artístico, muitas Igrejas locais organizam festivais de cinema ou de televisão, e criam Prémios, a exemplo do Prémio católico do cinema. Para promover a qualidade da informação através de uma adequada formação, certas associações profissionais e sindicatos do jornalismo elaboraram uma Carta ética dos mass media, um Código de conduta do jornalista, ou ainda fundaram um Conselho ético dos mass media. Outros criaram círculos reunindo profissionais da informação para ciclos de conferências sobre questões éticas, religiosas, culturais, mas também para jornadas de espiritualidade.

 

Ciência, tecnologia, bioética e ecologia

35. Durante séculos, malgrado as incompreensões, a Igreja, bem como o conjunto da sociedade beneficiaram-se dos trabalhos qualificados de cristãos versados nas ciências exactas e experimentais. Depois da crise do cientificismo, cujos postulados são hoje com frequência descartados, a Igreja deve estar atenta às contribuições, bem como às novas questões e aos desafios suscitados pela ciência, a tecnologia e as novas biotecnologias. Em particular, é importante não só acompanhar a evolução em curso dos paradigmas da Ars Medica, mas sobretudo contar com o trabalho de profissionais reconhecidos e moralistas seguros, em um campo tão fundamental para a pessoa humana. Desenvolver um ensino multidisciplinar e coerente ajudará a criar um ambiente favorável ao diálogo entre ciência e fé, empreendido no curso dos últimos decénios. O êxito de uma pastoral da cultura exige a este respeito:

» O desenvolvimento de uma filosofia das ciências, capaz de considerar os pontos de atrito, e mesmo de controvérsia, que não faltam entre a ciência e a fé: creatio ex nihilo e creatio continua, evolução, natureza dinâmica do mundo, exegese da Sagrada Escritura e estudos científicos, lugar e papel do homem no cosmos, relação entre o conceito de eternidade e a estrutura espácio-temporal do universo físico, epistemologias diferenciadas...

» O respeito à criação, numa visão cristã das relações entre o homem e o conjunto da criação, que sublinhe a harmonia fundamental entre homem e natureza.

» Uma formação de consultores qualificados, tanto nas ciências físicas e biológicas, como em teologia e filosofia das ciências, aptos a intervir seja na Internet seja no rádio ou na televisão.

» Redes de comunicação entre estudiosos católicos que ensinam nas instituições superiores católicas, nas universidades estatais, nas instituições privadas e nos centros privados de pesquisa, bem como entre academias científicas, associações de especialistas em tecnologia e Conferências episcopais.

» Formação inicial dos seminaristas e formação permanente dos presbíteros, que lhes ajude a responder com competência às questões dos fiéis desejosos de aprofundar a sua compreensão do ensinamento da Igreja, para melhor vivê-lo num contexto cultural frequentemente estranho senão hostil.

» A criação de Academias pela vida ou de grupos de estudos especializados nesta área, compostos por católicos reconhecidos pelas suas capacidades profissionais e pela sua fidelidade ao Magistério da Igreja.

» Imprensa e publicações católicas de grande difusão, valendo-se da colaboração de pessoas verdadeiramente qualificadas nesta área.

» Editores católicos capazes de orientar com competência colecções, revistas e publicações científicas abundantes.

» Um incremento das bibliotecas e videotecas paroquiais abertas à consulta sobre os assuntos referentes às relações entre ciência, tecnologia e fé.

» Uma pastoral capaz de despertar e alimentar uma profunda vida espiritual entre os cientistas.

 

A arte e os artistas

36. A articulação da via estética com a procura do bem e do verdadeiro, constitui sem nenhuma dúvida um canteiro privilegiado da pastoral da cultura, para um anúncio do Evangelho sensível aos sinais dos tempos. A pastoral dos artistas requer uma sensibilidade estética unida a uma não menor sensibilidade cristã. Em nossa cultura marcada por um dilúvio de imagens frequentemente banais e brutais, quotidianamente despejadas pela televisão, filmes e videocassetes, uma aliança fecunda entre o Evangelho e a arte suscitará novas epifanias da beleza, nascidas da contemplação de Cristo, Deus feito homem, da meditação dos seus mistérios, da sua irradiação na vida da Virgem Maria e dos santos (cf. João Paulo II, Carta aos artistas, 4 de Abril de 1999).

No plano institucional, uma diversificação e fragmentação crescentes exigem um diálogo renovado entre a Igreja e as diversas instituições ou sociedades artísticas. Das paróquias às capelanias, das dioceses às conferências episcopais, dos seminários aos institutos de formação e às universidades, esta pastoral promova associações aptas a estabelecer um diálogo frutuoso com os artistas e o mundo da arte. As Igrejas locais, que por vezes tomaram alguma distância com relação a eles, não terão senão a ganhar reatando o contacto, graças à existência de lugares de encontro apropriados.

No plano da criatividade. A experiência o demonstra: nas condições políticas desfavoráveis à verdadeira cultura, que pressupõe a liberdade, a Igreja Católica comportou-se como advogada e protectora da cultura e das artes, e muitos artistas encontraram em seu seio um lugar privilegiado de criatividade pessoal. Esta atitude e este papel da Igreja para com a cultura e os artistas são mais do que nunca actuais, especialmente no campo da arquitectura, da iconografia e da música religiosa. Chamar os artistas a participar da vida da igreja, significa convidá-los a renovar a arte cristã. Uma relação confiante com os artistas, feita de escuta e de cooperação, permite valorizar tudo aquilo que educa o homem e o eleva a um nível superior de humanidade, por uma participação mais intensa no mistério de Deus, beleza soberana e suprema bondade. Para que sejam frutuosas, as relações entre fé e arte não se limitarão a acolher a criatividade. Propostas, comparações e discernimento são necessários, pois a fé é fidelidade à Verdade. A liturgia constitui a este propósito um meio excepcional pela sua força de inspiração e pelas múltiplas possibilidades que ela oferece às diversas manifestações artísticas. O êxito da reforma litúrgica nascida do Concílio Vaticano II depende em parte de como ela se relacionar com a cultura, as artes e as sensibilidades espirituais. É importante suscitar uma expressão autóctone própria e, ao mesmo tempo, católica da fé, no respeito às normas litúrgicas.(26) A necessidade de construir e decorar novas igrejas exige uma reflexão aprofundada sobre o significado da igreja como lugar sagrado, e a importância da liturgia. Os artistas são convidados a exprimir estes valores espirituais. Sua criatividade deverá permitir o desenvolvimento de iconografias e de composições musicais acessíveis ao Maior número de pessoas, para revelar a transcendência do amor de Deus e introduzir à oração. O Concílio Vaticano II não hesitou sobre este ponto e suas orientações exigem uma acção permanente: « Deve trabalhar-se por que os artistas se sintam compreendidos, na sua actividade, pela Igreja e que, gozando duma conveniente liberdade, tenham mais facilidade de contactos com a comunidade cristã. A Igreja deve também reconhecer as novas formas artísticas, que segundo o génio próprio das várias nações e regiões se adaptam às exigências dos nossos contemporâneos. Serão admitidos nos templos quando, graças a uma linguagem conveniente e conforme com as exigências litúrgicas, elevam o espírito a Deus » (Gaudium et Spes, n. 62, 4).

No plano da formação. Uma pastoral orientada para a arte e os artistas pressupõe uma formação apropriada (27) para entender a beleza artística como epifania do mistério. Os responsáveis por uma tal educação artística, em simbiose com a formação teológica, litúrgica e espiritual, saberão escolher os presbíteros e leigos aos quais será confiada a pastoral dos artistas, com a tarefa de emitir, no seio da comunidade cristã, julgamentos esclarecidos e de formular apreciações motivadas sobre a mensagem das artes contemporâneas.

As possibilidades de acção nesse campo são numerosas e variadas. Associações, confrarias de artistas, de escritores, academias, sublinham o papel importante dos homens de cultura católica, e poderão favorecer um diálogo mais fecundo entre a Igreja e o mundo da arte. Diversas fórmulas como a Semana cultural ou a Semana da Cultura cristã criarão um ritmo contínuo de manifestações culturais abertas ao Maior número de pessoas com propostas especificamente cristãs. A fórmula do festival ou do Prémio de arte sacra, nacional ou internacional, permite dar um relevo particular à música sacra bem como ao filme e ao livro religioso.

 

Património cultural, turismo religioso

37. No contexto do desenvolvimento do tempo livre e do turismo religioso, algumas iniciativas permitem salvaguardar, restaurar e valorizar o património cultural religioso existente, como também transmitir às novas gerações as riquezas da cultura cristã,(28) fruto de uma harmoniosa síntese entre a fé cristã e o génio dos povos. Com este objectivo, é sempre desejável promover e encorajar um certo número de iniciativas:

» Introduzir a pastoral do turismo e do tempo livre e a catequese através da arte, entre as actividades específicas habituais das dioceses.

» Conceber itinerários devocionais em uma diocese ou região, percorrendo a rede dos lugares da fé que constituem o seu património espiritual e cultural.

» Tornar as igrejas abertas e acolhedoras, pondo em destaque elementos por vezes modestos mas significativos.

» Prever uma pastoral dos edifícios religiosos mais frequentados, para fazer com que os visitantes se beneficiem da mensagem da qual eles são portadores e editar publicações simples e claras, elaboradas com o auxílio dos organismos competentes.

» Criar organizações de guias católicos, capazes de fornecer aos turistas um serviço cultural de qualidade animado por um testemunho de fé. Iniciativas desse tipo podem também contribuir na criação de postos de trabalho, mesmo temporários, para os jovens ou menos jovens sem emprego.

» Incentivar associações em nível internacional, como a E. C. A., Associação das Catedrais da Europa.

» Criar e desenvolver museus de Arte Sacra e de Antropologia Religiosa, que privilegiem a qualidade dos objectos expostos e a apresentação pedagógica viva, aliando o interesse pela fé e pela história, evitando assim que os museus se tornem depósitos de objectos mortos.

» Suscitar a formação e a multiplicação de acervos e de bibliotecas, especializados no património cultural, cristão e profano, de cada região, com amplas possibilidades de contacto para um grande número de pessoas.

» Malgrado as dificuldades da edição e do comércio de livros em numerosos países, encorajar as livrarias católicas e mesmo criá-las nas paróquias e nos santuários para onde acorrem peregrinos, com responsáveis qualificados, capazes de aconselhar utilmente os interessados.

 

Os jovens

38. A pastoral da cultura atinge os jovens através dos diferentes campos do ensino, da formação e do lazer, com um zelo que toca a pessoa no seu íntimo. Embora a família continue sendo essencial na traditio fidei, paróquias e dioceses, colégios e universidades católicas, bem como os diversos movimentos de Igreja presentes no conjunto dos ambientes de vida e de ensino saberão tomar iniciativas concretas para promover:

» Lugares onde os jovens gostem de encontrar-se e criar laços de amizade, e que constituam um ambiente de apoio para a fé.

» Círculos de conferências e de reflexão, adaptados aos diferentes níveis culturais, e centrados em assuntos de interesse comum e de actualidade para a vida cristã.

» Associações culturais ou sócio-culturais, com programas abertos de actividades recreativas e formativas, incluindo o canto, o teatro, o cineclube, etc.

» Colecções culturais livros ou videocassetes que permitam uma informação e uma formação cultural cristã, assim como um intercâmbio com outros jovens e menos jovens.

» A proposta de modelos a imitar, pois se trata em definitiva de formar jovens adultos para viver a fé no seu ambiente cultural, quer se trate da universidade ou da pesquisa, do trabalho ou da arte.

» Roteiros de peregrinação que, do pequeno grupo meditativo à grande reunião festiva, permitam uma irrigação cultural da experiência espiritual num clima de fervor comunicativo e contagiante.

O conjunto dessas iniciativas inscreve-se numa pastoral global onde a Igreja realiza «um novo tipo de diálogo, permitindo levar a originalidade da mensagem evangélica ao coração das mentalidades actuais. É-nos pois necessário encontrar a criatividade apostólica e o poder profético dos primeiros discípulos para enfrentar as culturas novas. É necessário que a Palavra de Cristo apareça em todo o seu verdor às jovens gerações, cujas atitudes às vezes são dificilmente compreensíveis para espíritos tradicionais, mas que estão longe de se fechar aos valores espirituais».(29) Os jovens são o futuro da Igreja e do mundo. O empenho pastoral para com eles, tanto no mundo da universidade quanto no do trabalho, é sinal de esperança às vésperas do terceiro milénio.

 

CONCLUSÃO

 

Para uma pastoral da cultura renovada pela força do Espírito

39. A cultura entendida no seguimento do Concílio Vaticano II (Gaudium et Spes, n. 53-62) no seu sentido mais amplo se apresenta para a Igreja, no limiar do Terceiro Milénio, como uma dimensão fundamental da pastoral e «uma autêntica pastoral da cultura [é] decisiva para a Nova Evangelização».(30) Firmemente empenhados nos caminhos de uma evangelização que atinja os espíritos e os corações e transforme, fecundando-as, todas as culturas, os responsáveis pela pastoral da cultura, discernindo à luz do Espírito Santo os desafios surgidos de culturas indiferentes, e às vezes hostis à fé, como também os dados culturais que se constituem em fundamentos para o anúncio do Evangelho. «Pois o Evangelho leva a cultura à sua perfeição e a autêntica cultura é aberta ao Evangelho».(31)

Numerosos encontros entre os bispos e homens de cultura de diferentes meios científico, tecnológico, educativo, artístico, evidenciaram os elementos de uma tal pastoral, os seus pressupostos e suas exigências, os seus obstáculos e os seus fundamentos, os seus objectivos primordiais e os seus meios privilegiados. A imensidade deste campo de apostolado, nesse «vastíssimo areópago» (Redemptoris Missio, n. 37) na diversidade e na complexidade das áreas culturais, exige uma cooperação em todos os níveis, da paróquia à Conferência Episcopal, de uma região a um continente. O Conselho Pontifício da Cultura se empenha por sua parte, no âmbito da sua missão,(32) a favorecer uma tal cooperação e a promover contactos estimulantes e iniciativas adaptadas, especialmente em nível dos Dicastérios da Cúria romana, das Conferências Episcopais, das organizações Internacionais Católicas, universitárias, históricas, filosóficas, teológicas, científicas, artísticas, intelectuais, bem como das Academias Pontifícias (33) e dos Centros Culturais Católicos.(34)

«Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei» (Mt 28, 19-20). Seguindo o caminho indicado pelo Senhor, a pastoral da cultura, estreitamente ligada ao testemunho de fé pessoal e comunitário dos cristãos, inscreve-se na missão de anunciar a Boa nova do Evangelho a todos os homens de todos os tempos, como meio privilegiado de evangelizar as culturas e de inculturar a fé. «Esta constitui uma exigência que marcou todo o caminho histórico (da Igreja), mas hoje é particularmente aguda e urgente... requer um tempo longo... um processo profundo, global e difícil» (Redemptoris Missio, n. 52). Às vésperas do Terceiro Milénio, quem não vê a sua importância para o futuro da Igreja e do mundo? O anúncio do Evangelho de Cristo nos urge a constituir comunidades de fé vivas, profundamente inseridas nas diversas culturas e portadoras de esperança, para promover uma cultura da verdade e do amor na qual cada pessoa possa corresponder plenamente à sua vocação de filho de Deus «na plenitude de Cristo» (Ef 4, 13). A urgência da pastoral da cultura é grande, a tarefa gigantesca, as modalidades múltiplas, as possibilidades imensas, no limiar do novo milénio da vinda de Cristo, Filho de Deus e Filho de Maria, cuja mensagem de amor e de verdade satisfaz, além de toda expectativa, a necessidade primordial de toda cultura humana. «Às culturas, a fé em Cristo dá uma dimensão nova, a da esperança do Reino de Deus. Os cristãos têm a vocação de inscrever no centro das culturas esta esperança duma terra nova e de céus novos... Muito longe de as ameaçar ou de as empobrecer, o Evangelho oferece-lhes um acréscimo de alegria e de beleza, de liberdade e de sentido, de verdade e de bondade».(35)

Em resumo, a pastoral da cultura, nas suas múltiplas expressões, das quais este documento apresenta algumas propostas seleccionadas, não tem outro objectivo que o de ajudar toda a Igreja a cumprir a sua missão de anunciar o Evangelho. No limiar do novo milénio, com a força da Palavra de Deus «inspiradora de toda a existência cristã» (Tertio Millennio Adveniente, n. 36), ela ajuda o homem a superar o drama do humanismo ateu e a criar um « novo humanismo » (Gaudium et Spes, n. 55) capaz de suscitar, em toda parte do mundo, culturas transformadas pela prodigiosa novidade de Cristo, que « se fez homem para que o homem seja divinizado »,(36) se renove à imagem do seu Criador (cf. Col 3, 10) e cresça como homem novo (cf. Ef 4, 24). Que Ele renove todas as culturas pela força criadora do seu Espírito Santo, fonte da qual brota a beleza, o amor e a verdade.

 

Cidade do Vaticano, 23 de Maio de 1999, na Solenidade de Pentecostes.

 

Paul Cardeal Poupard
Presidente

Bernard Ardura, O. Praem
Secretário



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(1) João Paulo II, Discurso à Assembleia Geral das Nações Unidas, 5 de Outubro de 1995, n. 9.

(2) João Paulo, Carta Autógrafa instituindo o Conselho Pontifício da Cultura, 20 de Maio de 1982, AAS, 74 (1982) 683-688.

(3) João Paulo II, Discurso ao Conselho Pontifício da Cultura, 15 de Janeiro de 1985.

(4) Pontifícia Comissão Bíblica, Fé e cultura à luz da Bíblia.

(5) Comissão Teológica Internacional, Fé e inculturação.

(6) Puebla, a evangelização no presente e no futuro da América Latina, 1979, n. 385-436; Santo Domingo, nova evangelização, promoção humana, cultura cristã, 1992, n. 228-286.

(7) Cf. João Paulo II, Discurso à UNESCO, 2 de Junho de 1980, n. 12, OR (ed. port.), ano XI, n. 24 (550), p. 14 (338).

(8) Cf. Indiferentismo y sincretismo. Desafios y propostas pastorales para la Nueva Evangelización de América Latina, Simposio, San José de Costa Rica, 19-23 de Janeiro de 1992, Bogotá, Celam, 1992.

(9) Cf. IV Conferencia Geral do Episcopado Latino-Americano, Santo Domingo, op. cit., n. 230.

(10) Cf. III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, Puebla, op. cit., n. 405.

(11) João Paulo II, Homilia da missa de entronização, 22 de Outubro de 1978, OR (ed. port.), ano IX, n. 44 (465), p. 2.(10) Cf. III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, Puebla, op. cit., n. 405.

(12) Conselho Pontifício das Comunicações Sociais, Instrução pastoral Aetatis Novae, 1992, n. 4.

(13) Conselho Pontifício das Comunicações Sociais, Ética na publicidade, 22 de Fevereiro de 1997.

(14) João Paulo II, Mensagem para o XXXI Dia Mundial das Comunicações Sociais, 14 de Janeiro de 1997, OR (ed. port.), ano XXVIII, n. 5, p. 2.

(15) João Paulo II, Discurso à Assembleia Geral da O.N.U., 5 de Outubro de 1995, n. 8, OR, (1995) n. 41, p. 4 (492).

(16) Cf. Aa.Vv., Après Galilée. Science et Foi. Nouveau Dialogue, Paris, DDB, 1994. Trad. italiana, Piemme, 1996.

(17) João Paulo II, Discurso na audiência geral, 6 de Dezembro de 1995.

(18) João Paulo II, Discurso à UNESCO, n. 11.

(19) Cf. IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, Santo Domingo, op. cit., n. 228-286; e a Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in America, 22 de Janeiro de 1999, n. 64.

(20) Cf. Consistório extraordinário dos Cardeais, Roma (4-6 de Abril de 1991); Les sectes, défi pastoral pour l'Église, Cité du Vatican 1986; Sectes et nouveaux mouvements religieux. Anthologie des textes de l'Église catholique 1986-1994, Paris, Téqui, 1996.

(21) João Paulo II, Discurso ao Conselho Pontifício da Cultura, OR (ed. port.) ano XXVIII, n. 13, p. 4 (136).

(22) Cf. duas cartas do Conselho Pontifício para o Diálogo inter-religioso, « Pastoral Attention to African Traditional Religions », Bulletin, 68 (1988) XXIII2, 102-106; «Pastoral Attention to Traditional Religions», ibid., 84 (1993) XXVIII3, 234-240.

(23) Cf. Congregação para a Educação Católica, O leigo católico, testemunha da fé na escola, 15 de Outubro de 1982; João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles Laici, sobre a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo, n. 44.

(24) Cf. Congregação para a Educação Católica, Conselho Pontifício para os Leigos, Conselho Pontifício da Cultura, Presença da Igreja na universidade e na Cultura universitária, Vaticano 1994.

(25) Pontificium Consilium de Cultura, Centres Culturels Catholiques, Cité du Vatican 1998; Pontificio Consiglio della Cultura, Commissione Episcopale CEI per l'Educazione Cattolica, la Cultura, la Scuola e l'Università, I Centri Culturali Cattolici. Idea, esperienza, missione. Elenco e indirizzi, 2a ed., Roma, Città Nuova Editrice, 1998.

(26) Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, IV Instrução para uma correcta aplicação da Constituição conciliar sobre a liturgia (n. 37-40).

(27) A este respeito, é preciso sublinhar as iniciativas de instituir cursos universitários dedicados à formação de futuros responsáveis pelo património cultural da Igreja, por exemplo, na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma), no Instituto Católico de Paris e na Universidade Católica de Lisboa. Cf. Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, Lettre circulaire sur la formation aux biens culturels dans les Séminaires, 15 de Outubro de 1992.

(28) Cf. João Paulo II, Discurso à primeira Assembleia plenária da Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja.

(29) João Paulo II, Discurso ao Conselho Pontifício da Cultura, OR (ed. port.) ano XIV, n. 5, p. 4.

(30) João Paulo II, Discurso ao Conselho Pontifício da Cultura, 14 de Março de 1997.

(31) Ibid.

(32) « Eu institui o Conselho Pontifício da Cultura para ajudar a Igreja a viver o intercâmbio salvífico no qual a inculturação do Evangelho caminha pari passu com a Evangelização das culturas ». Ibid.

(33) Criado pelo Papa João Paulo II a 6 de Novembro de 1995, o Conselho de Coordenação das Academias Pontifícias promove a sua colaboração conjunta para um humanismo cristão no limiar do novo milénio. Quando da sua primeira Sessão pública, reunida sob sua presidência, a 28 de Novembro de 1996, o Santo Padre anunciou a criação de um Prémio anual das Academias Pontifícias, destinado a apoiar os talentos e as iniciativas promissoras em vista de um humanismo cristão, suas expressões teológicas, filosóficas e artísticas. O Papa João Paulo II concedeu este prémio pela primeira vez no curso da Segunda sessão pública das Academias pontifícias, a 3 de Novembro de 1997.

(34) Cf. a missão e as competências confiadas ao Conselho Pontifício da Cultura: João Paulo II, Carta Autógrafa instituindo o Conselho Pontifício da Cultura, 20 de Maio de 1982, AAS, t. 74 (1982) 683-688, e Motu Proprio Inde a Pontificatus, 25 de Março de 1993, AAS, LXXXV (1993) 549-552.

(35) João Paulo II, Discurso ao Conselho Pontifício da Cultura, 15 de Março de 1997, OR (ed. port.), ano XXVIII (1997), n. 13, p. 4 (136).

(36) Santo Atanásio, Sobre a Encarnação do Verbo, 54, 3. PG 25, 92; Sources Chrétiennes, 199, 1973, p. 459.



Publicado em 25.09.2014

 

 

 
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