Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Quem me dá uma mão?

Imagem D.R.

Quem me dá uma mão?

Deseja-me um bem imenso. Estou certo de que por mim estaria disposto a arriscar a vida. Errou, pagou, sofreu. Encontrei-o na prisão. O diretor permitiu-me que o encontrasse em privado. Correu ao meu encontro no longo corredor, abraçou-me demoradamente. Os guardas, respeitosos, observavam em silêncio. Ficámos a falar durante muito tempo.

Chorava, João Pedro. Ainda conserva um bom coração. Um coração que se comove, que experimenta compaixão. Agora está em liberdade. Jurou que não caía noutra, que se afastaria definitivamente de certos ambientes criminosos. Procurou um trabalho. Um trabalho qualquer que lhe permitisse sobreviver honestamente. Nada, nestes meses, não encontrou nada. Desde há algum tempo creio que voltou a falhar. Não me convencem alguns dos seus comportamentos. A semana passada encontrei-o mas não o quis saudar, apressei o passo. Queria que compreendesse o meu desapontamento, a minha desilusão, a minha dor.

Entendeu. Voltou para trás, veio ter comigo: «Porque é que não me cumprimentas, padre? Sou teu filho. Deste-me a Primeira Comunhão. Sabes tudo da minha vida. Porque é que não me olhas, padre?». «E perguntas-mo, João Pedro? Que andas a fazer? Já esqueceste as promessas que fizeste? Os sofrimentos que passaste? Não me voltes a chamar se te meterem outra vez “dentro”. Estou cansado, segue o teu caminho.» Não se vai. «Não, padre, não. Sabes que eu quero viver. Não quero voltar à prisão. Mas ajuda-me a encontrar um trabalho. Bati a muitas portas. Nenhuma se abriu. Que devo fazer? Diz-me: que devo fazer?»

Tenho vontade de chorar. De fugir dali. De o abraçar como daquela vez na prisão. De lhe dar duas bofetadas. Sei que não está a mentir, o João Pedro. Estou furioso, desiludido. Pergunto-me se tenho esse direito. É possível que este meu país, que amo e que tento servir, se tenha tornado tão surdo? É possível que não saiba ir ao encontro dos jovens de boa vontade? É possível que não se pergunte o que vão comer esta noite milhares de crianças com os pais desempregados? É possível que não se dê conta de que o João Pedro nos vai custar mais no dia em que regressar à prisão?

Não, não me resigno. Não posso. Não quero. A desilusão, o desencorajamento, podem ser aceites apenas se têm vida breve. Mas se a esperança morre, o sol deixa de dar luz. As estrelas apagam-se. O amor exaure-se. Via verde ao pessimismo. Cada noite tem a sua aurora. Depois da morte há a ressurreição. A vida vence. Sempre. Sou o pároco de João Pedro. E sei que é meu dever ter esperança também por ele, rezar também por ele. Faço-o. A nossa comunidade, desde sempre, o faz. Mas este bendito país a duas – e mais – velocidades é um drama imenso.

Nos nossos bairros a droga alastra. Alguns ingénuos acreditam que legalizando as drogas leves se combate os grupos de traficantes. Não é mais do que uma piedosa ilusão. Os grupos combatem-se antes de tudo cortando a linfa vital das suas malditas raízes. Não permitindo que elas alastrem tão profundamente. Os grupos de traficantes combatem-se com a legalidade. Legalidade quer dizer pretender que cada pessoa faça o seu dever. Mas tal só é possível se a cada pessoa são reconhecidos os próprios direitos. E entre os direitos, o trabalho ocupa um dos primeiríssimos lugares.

Sou o pároco de João Pedro. Cabe-me amplificar o seu grito de ajuda, não permitir que a ténue chama da sua vida se extinga. Podemos plantar uma flor no deserto? Entre quem lê estas linhas haverá certamente alguém que lhe poderá estender uma mão. O papa Francisco não cessa de nos indicar o caminho da misericórdia. Dêmos vozes, mãos, concretude à misericórdia. O João Pedro é ainda muito jovem. Cheguemos antes que o coração se lhe endureça. Antes que “aqueles” lhe mandem fazer alguma coisa de que se arrependerá para o resto da vida, “alguma coisa” que o acorrentará para sempre.

«Que devo fazer, padre? Diz-me.» Calo-me. Só posso pedir ajuda. Faço-o. Para que muitos saibam. Para que os bons não se deixem levar por juízos e prejuízos que se tornam pecados. Para que aprendamos a compreender que por trás de certas histórias se escondem dramas enormes. Para que quem nos governa possa fazer o seu dever. Espero. Os pobres interpelam-nos. Desafiam-nos. Sobre os pobres seremos julgados no Dia sem ocaso.

 

Maurizio Patriciello
In "Avvenire"
Trad. / adapt.: Rui Jorge Martins
Publicado em 27.09.2016

 

 
Imagem D.R.
É possível que este meu país, que amo e que tento servir, se tenha tornado tão surdo? É possível que não saiba ir ao encontro dos jovens de boa vontade? É possível que não se pergunte o que vão comer esta noite milhares de crianças com os pais desempregados? É possível que não se dê conta de que o João Pedro nos vai custar mais no dia em que regressar à prisão?
«Que devo fazer, padre? Diz-me.» Calo-me. Só posso pedir ajuda. Faço-o. Para que muitos saibam. Para que os bons não se deixem levar por juízos e prejuízos que se tornam pecados. Para que aprendamos a compreender que por trás de certas histórias se escondem dramas enormes
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos