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Quem explora migrantes prestará contas a Deus, diz papa, que evoca palavras de Cristo: «Sou estrangeiro, não me reconheceste?»

Vivemos tempos em que parecem retomar vida e difundir-se sentimentos que a muitos pareciam ultrapassados. Sentimentos de suspeita, de temor, de desprezo e até de ódio em relação a indivíduos ou grupos julgados diferentes por causa da sua pertença étnica, nacional ou religiosa e, enquanto tão, considerados não suficientemente dignos de participar plenamente na vida da sociedade.

Estes sentimentos, depois, inspiram demasiadas vezes atos de intolerância, discriminação ou exclusão, que lesam gravemente a dignidade das pessoas envolvidas e os seus direitos fundamentais, inclusive o próprio direito à vida e à integridade física e moral.

Infelizmente acontece que no mundo da política se cede à tentação de instrumentalizar os medos ou as dificuldades objetivas de alguns grupos e servir-se de promessas ilusórias por interesses eleitorais míopes.

A gravidade destes fenómenos não pode deixar-nos indiferentes. Somos todos chamados, nos nossos respetivos papéis, a cultivar e promover o respeito pela dignidade intrínseca de cada pessoa humana, a começar pela família – lugar onde se aprendem desde a tenra idade os valores da partilha, do acolhimento, da fraternidade e da solidariedade –, mas também nos vários contextos sociais em que trabalhamos.



Perante o alastramento de novas formas de xenofobia e racismo, também os líderes de todas as religiões têm uma importante missão: difundir entre os seus fiéis os princípios e valores éticos inscritos por Deus no coração do ser humano, conhecidos como a lei moral natural



Penso, antes de tudo, nos formadores e educadores, aos quais é pedido um renovado compromisso para que na escola, na universidade e nos outros lugares de formação seja ensinado o respeito por cada pessoa humana, mesmo nas diversidades físicas e culturais que as distinguem, superando os preconceitos.

Num mundo em que o acesso a instrumentos de informação e comunicação está cada vez mais espalhado, cabe uma responsabilidade particular àqueles que trabalham no mundo das comunicações sociais, que têm o dever de colocar-se ao serviço da verdade e difundir as informações tendo o cuidado de favorecer a cultura do encontro e da abertura ao outro, no respeito recíproco pelas diversidades.

Aqueles, depois, que retiram benefício económico do clima de desconfiança no estrangeiro, em quem a irregularidade ou a ilegalidade da permanência favorece e alimenta um sistema de precariedade e exploração – a nível tal que dá vida a verdadeiras formas de escravidão – deverão fazer um profundo exame de consciência, sabendo que um dia devem prestar contas diante de Deus das opções que tomaram.

Perante o alastramento de novas formas de xenofobia e racismo, também os líderes de todas as religiões têm uma importante missão: difundir entre os seus fiéis os princípios e valores éticos inscritos por Deus no coração do ser humano, conhecidos como a lei moral natural. Trata-se de realizar e inspirar gestos que contribuam para construir sociedades fundadas no princípio da sacralidade da vida humana e sobre o respeito da dignidade de cada pessoa, sobre a caridade, sobre a fraternidade – que vai bem além da tolerância – e sobre a solidariedade.



Em Cristo, a tolerância transforma-se em amor fraterno, em ternura e solidariedade operativa. Isto vale sobretudo em relação aos mais pequenos dos nossos irmãos, entre os quais podemos reconhecer o forasteiro, o estrangeiro, com quem o próprio Jesus se identificou



Em particular, possam as Igrejas cristãs tornarem-se testemunhas humildes e operativas do amor de Cristo. Para os cristãos, com efeito, as responsabilidades morais antes mencionadas assumem um significado ainda mais profundo à luz da fé.

A comum origem e o laço singular com o Criador tornam todas as pessoas membros de uma única família, irmãos e irmãs, criados à imagem e semelhança de Deus, como ensina a Revelação bíblica. (…)

Em Cristo, a tolerância transforma-se em amor fraterno, em ternura e solidariedade operativa. Isto vale sobretudo em relação aos mais pequenos dos nossos irmãos, entre os quais podemos reconhecer o forasteiro, o estrangeiro, com quem o próprio Jesus se identificou. No dia do juízo universal, o Senhor recordar-nos-á: «Era estrangeiro e não me acolheste». Mas já hoje interpela-nos: «Sou estrangeiro, não me reconheceste?».

E quando Jesus dizia aos apóstolos «não deve ser assim entre vós», não se referia apenas ao domínio dos chefes das nações em relação ao poder político, mas a todo o ser cristão. Ser cristão, com efeito, é um chamamento a andar contracorrente, a reconhecer, acolher e servir Cristo muitas vezes descartado nos irmãos.


 

Papa Francisco
Discurso aos participantes na conferência mundial sobre "Xenofobia, racismo e nacionalismo populista no contexto das migrações mundiais"
Vaticano, 20.9.2018
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: paul prescott/Bigstock.com
Publicado em 20.09.2018

 

 
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